Início de um golpe

Início de um golpe

 

 

“É o início de um golpe”

“Luciana Bauer alerta para risco de nova ofensiva política e diz que Mendonça atua em terreno de “nulidade total”

Ex-juíza federal afirma, em entrevista à TV 247, que decisão de André Mendonça pode produzir consequências políticas profundas e acusa ministro de agir com motivação política.

A advogada e ex-juíza federal Luciana Bauer fez um duro alerta sobre a crise institucional brasileira durante entrevista ao programa 22 Horas, da TV 247. Ao comentar a decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), Bauer afirmou que a medida ocorre, em sua avaliação, em um cenário de “nulidade total” e pode abrir espaço para uma nova ofensiva política contra setores da esquerda e contra o governo do presidente Lula (PT).

Para Bauer, a movimentação de Mendonça não pode ser analisada apenas sob a perspectiva jurídica. Segundo ela, existe uma dimensão política que precisa ser considerada, especialmente diante da disputa eleitoral que se aproxima.

A ex-magistrada comparou o momento atual ao processo que antecedeu o golpe de 2016. Na avaliação apresentada durante a entrevista, a atuação de diferentes atores do sistema de Justiça teria desempenhado papel decisivo na construção daquele processo político.

“É o início de um golpe”, afirmou Bauer, ao estabelecer uma comparação entre a atuação de Mendonça e episódios que, segundo ela, marcaram a preparação do processo que levou ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

“Ele sabe que está no terreno da nulidade”

Bauer sustentou que a decisão de Mendonça apresenta problemas jurídicos graves. Segundo ela, o ministro teria determinado uma investigação envolvendo pessoas específicas sem provocação do Ministério Público e sem iniciativa da autoridade policial.

Na avaliação da advogada, esse procedimento contrariaria a Constituição, precedentes do próprio STF e o regimento interno da Corte.

“O Mendonça opera sabendo que ele está no terreno da nulidade total”, afirmou.

Ela também levantou a possibilidade de que a conduta possa ser examinada sob a perspectiva de eventual abuso de autoridade, ressaltando que, para a configuração do crime, seria necessária a demonstração da finalidade específica prevista na legislação.

Bauer criticou ainda o que considera uma cobertura seletiva da imprensa sobre a crise. Segundo ela, enquanto determinadas condutas de ministros do Supremo recebem ampla atenção, outras deveriam igualmente ser investigadas.

“A imprensa só fala do Alexandre e ninguém fala do crime em tese de Mendonça”, declarou.

Crítica a Mendonça e alerta sobre 2026

A ex-juíza afirmou que a atuação de Mendonça poderia produzir efeitos que ultrapassam o processo em questão. Em sua leitura, haveria uma estratégia política capaz de influenciar a composição do Senado e, posteriormente, a própria relação entre o Congresso e o Supremo.

Bauer relacionou o episódio à possibilidade de fortalecimento de setores da direita nas eleições e afirmou que uma eventual maioria conservadora no Senado poderia tentar avançar contra ministros do STF.

Na avaliação da entrevistada, esse cenário poderia resultar em pedidos de impeachment, mudanças no tratamento dado a condenados ligados ao bolsonarismo e uma nova escalada de conflito entre os Poderes.

“Estamos com a República realmente conflagrada”, resumiu.

A análise ocorre em um momento de forte tensão institucional e de antecipação da disputa eleitoral de 2026. O cenário também ganhou novos elementos com a recente iniciativa judicial de Sergio Moro contra a própria Bauer.

Lava Jato volta ao centro do debate

Ao longo da entrevista, a ex-juíza retomou suas críticas à Operação Lava Jato e ao que chama de “lavajatismo” dentro das instituições brasileiras.

Bauer afirmou que a operação não teria sido completamente desmontada e comparou sua estrutura a uma “hidra”, cujas cabeças, segundo ela, não teriam sido totalmente arrancadas.

A ex-magistrada citou ainda investigações e conclusões do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) relacionadas à Lava Jato e questionou a demora na adoção de providências institucionais.

“Eu acho que o Gonet no dia de hoje pensou: será que, se eu tivesse atacado o lavajatismo da PF, o lavajatismo do MPF, da Justiça, será que eu estaria diante de uma atitude como a de Mendonça hoje?”, afirmou.

A declaração faz referência ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e à avaliação de Bauer de que a ausência de uma resposta mais contundente às irregularidades atribuídas à Lava Jato teria contribuído para a permanência de práticas e grupos políticos dentro das instituições.

“A Lava Jato não foi totalmente desmontada”

Para Bauer, a permanência de personagens associados ao lavajatismo em posições de influência demonstra que a disputa em torno da operação está longe de terminar.

Sua avaliação é que a falta de responsabilização efetiva pelos abusos que atribui à Lava Jato criou condições para que práticas e concepções institucionais daquele período sobrevivessem.

A ex-juíza sustenta que o Brasil deveria enfrentar de maneira mais profunda os episódios envolvendo a operação, não apenas para responsabilizar eventuais agentes públicos, mas para evitar a repetição de mecanismos de utilização política do sistema de Justiça.

Na entrevista, Bauer também defendeu que a investigação sobre possíveis irregularidades alcance todos os envolvidos, independentemente de posição ou alinhamento político.

Sua crítica, portanto, não se limita a um ministro específico do Supremo. Ela apresenta o atual conflito como parte de uma disputa maior sobre os limites da atuação judicial, a independência das instituições e o papel do Judiciário na política brasileira.

Ao final, a mensagem deixada pela ex-juíza foi de alerta: para ela, o Brasil ainda convive com estruturas institucionais herdadas do período da Lava Jato e precisa enfrentar as consequências daquele ciclo para impedir que novos episódios de ruptura democrática voltem a se repetir.”

Brasil 247

 

FONTE:

Mary Martins 




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