Irã apertou o botão
O IRÃ APERTOU O BOTÃO VERMELHO
Thomas de Toledo

A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã nas últimas semanas abriu um dos capítulos mais surpreendentes da história recente do Oriente Médio. O conflito saiu do campo das ameaças e entrou no terreno da confrontação direta. A agressão imperialista resultou em respostas contundentes.
O bombardeio de uma escola infantil que causou a morte de 165 meninas numa cidade do interior do Irã e o assassinato do Ayatolá Khamenei tiveram o efeito inverso do que os agressores esperavam. Em vez de o povo sair nas ruas para pedir a queda do regime, esses eventos uniram o país, que agora está num concentrado esforço de guerra sem precedentes. Os resultados já começam a aparecer.
Como resposta, o Irã lançou ataques contra instalações militares que sustentam a presença militar estadunidense na região. Entre os alvos atingidos estão bases estratégicas no Bahrein, no Kuwait, no Qatar, na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos, no Chipre e em Israel. Essas instalações formam a espinha dorsal da capacidade de projeção de poder militar dos Estados Unidos na região, servindo como centros de comando, logística, vigilância e operações aéreas.
A base de Al Udeid, no Catar, considerada a maior instalação militar dos Estados Unidos no Oriente Médio, foi um dos alvos centrais. A partir dela são coordenadas grande parte das operações aéreas na região, incluindo missões de vigilância, comando e controle militar. No Kuwait, as bases de Ali Al Salem e Camp Buehring, importantes para logística e movimentação de tropas e equipamentos, também foram atingidas. Já no Bahrein, o quartel-general da Quinta Esquadra da Marinha dos Estados Unidos, responsável pela proteção naval dos alvos estratégicos no Golfo Pérsico e pelas rotas estratégicas de petróleo, entrou na lista de alvos dos ataques iranianos.
Essas instalações não são pequenas bases avançadas. Elas fazem parte de um gigantesco sistema militar construído ao longo de décadas. A presença militar estadunidense na região foi consolidada desde a Guerra do Golfo de 1991 e se expandiu após as invasões do Afeganistão e do Iraque. Centenas de bilhões de dólares foram investidos em infraestrutura militar, radares, sistemas de defesa aérea, pistas de pouso, depósitos de armas e centros de comando. É esse sistema que sustenta a capacidade dos Estados Unidos de operar militarmente em todo o Oriente Médio.
Além das bases militares, o Irã atacou embaixadas, consulados e instalações de serviços inteligência estadunidenses ligados à CIA. Também tem atacado empresas ligadas à logística informacional como datacenters e centros de inovação ligados à Microsoft e Amazon. Além disso, têm sido alvos as infraestruturas petrolíferas e logísticas dos países aliados dos Estados Unidos na região, que estão se queixando de que o único que tem recebido ajuda da potência imperialista é o Israel.
Outra frente de ataques ocorre diretamente contra Israel. Mísseis iranianos atingiram diversas áreas urbanas e de infraestrutura em cidades como Tel Aviv, Haifa, Jerusalém e outras localidades do centro e do norte do país. Edifícios residenciais, instalações estratégicas e estruturas urbanas sofreram impactos diretos ou indiretos dos ataques, gerando destruição significativa e ampliando a sensação de vulnerabilidade dentro do território israelense. A extensão desses bombardeios colocou pela primeira vez em muitos anos grande parte do território israelense sob pressão militar direta de um adversário estatal com grande capacidade de mísseis.
Para o jornalista israelense Alon Mizrahi, o que está acontecendo representa uma mudança profunda no equilíbrio estratégico da região. Segundo ele, o Irã está atingindo bases militares consideradas entre as mais caras e sofisticadas do mundo, construídas ao longo de décadas de presença militar americana no Golfo. Sistemas de radar que custam centenas de milhões de dólares, estruturas militares complexas e equipamentos estratégicos estariam sendo atingidos em questão de minutos.
Na análise de Mizrahi, o impacto militar desses ataques vai muito além do dano físico imediato. Ele argumenta que a rede de bases que sustentava o poder militar dos Estados Unidos na região está sendo pressionada de uma forma sem precedentes na história moderna. Segundo ele, desde Pearl Harbor os Estados Unidos não enfrentavam ataques diretos contra instalações militares dessa magnitude. Mizrahi também aponta para o que considera um silêncio informativo incomum. Em conflitos anteriores, como a Guerra do Golfo, imagens e vídeos de ataques eram transmitidos continuamente, enquanto agora as informações disponíveis parecem cada vez mais limitadas.
Outro ponto levantado pelo jornalista é o contraste entre o discurso militar e a realidade operacional. Mesmo com a reputação de possuir a maior força aérea do planeta, Mizrahi observa que não há sinais claros de domínio aéreo sobre o território iraniano. Segundo ele, também não existe qualquer cenário realista de ocupação terrestre do país. O Irã é um território vasto, com dezenas de milhões de habitantes, uma geografia complexa e uma infraestrutura militar construída ao longo de décadas com instalações subterrâneas espalhadas pelo país.
A conclusão de Mizrahi é dura. Para ele, Estados Unidos e Israel entraram em um conflito que não têm condições de encerrar militarmente. Bombardeios podem causar destruição e mortes, mas não seriam capazes de neutralizar a estrutura militar profundamente protegida do Irã. Na visão do jornalista, o que está se desenhando é um conflito que pode alterar profundamente a presença militar americana no Oriente Médio e colocar em xeque o sistema de bases que sustentou o poder estratégico dos Estados Unidos na região durante mais de três décadas.
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