JN e a arte de enganar

JN e a arte de enganar

JN E A ARTE DE ENGANAR O RESPEITÁVEL PÚBLICO

Angela Carrato

 

 

1. A MISTURA DE ALHOS COM BUGALHOS

Com a nada criativa chamada de "O Escândalo do Banco Mater", a edição do JN desta quinta-feira (5/3) divulgou, com um dia de atraso, o que os veículos da mídia independente já haviam noticiado.

A partir da quebra de sigilo de um dos celulares de Daniel Vorcaro, ficou nítido como ele operava e buscava fazer amigos e ter influência.

Até aí tudo bem. Era assim mesmo que o corrupto, oportunista e chefe de milícia agia.

O problema é que a reportagem acaba, propositadamente, colocando no mesmo saco figuras como o deputado Ciro Nogueira, o governador de Brasília, Ibaneis Rocha, o ministro do STF, Alexandre de Moraes e o presidente Lula.

Nogueira foi quem apresentou um projeto de lei com objetivo de salvar o Master e jogar a conta nas costas do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Se seu projeto fosse aprovado, o FGC, passaria a bancar não mais R$ 250 mil de prejuízo por CPF, mas R$ 1 milhão.

Já Ibanes colocou o Banco de Brasília, a instituição financeira do Distrito Federal, a serviço de tapar o rombo do Master.

Os dois agiram nitidamente a favor de Vorcaro, privilegiando um corrupto em detrimento do interesse público.

Já o ministro Alexandre de Moraes e o presidente Lula fizeram exatamente o contrário.

Não há qualquer resposta para as mensagens que Vorcaro enviou para Moraes às vesperas da liquidação do banco, enquanto a conversa entre o presidente Lula, Vorcaro, dois ministros e um ex-ministro não poderia ter sido mais republicana.

Levado à audiência por Guido Mantega, então consultor do banco, Vorcaro pediu apoio do presidente para a instituição, que já enfrentava dificuldades. Lula imediatamente chamou o então futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e anunciou que o assunto seria tratado de forma técnica.

E foi.

Enquanto o BC comandado pelo bolsonarista Roberto Campos Neto fez questão de ignorar as evidências de gestão fraudulenta, o BC de Galípolo, liquidou extrajudicialmente a instituição.

Dá para colocar as duas primeiras figuras e as duas últimas no mesmo balaio?

Claro que não, mas foi exatamente o que o JN fez. Ao misturar alhos com bugalhos, o telejornal da família Marinho tentou equivaler quem fez o jogo de Vorcaro e quem agiu republicanamente.

Dispensável dizer que a reportagem tinha um alvo: tentar ligar o presidente Lula à corrupção do Banco Master.

2. SICÁRIO NÃO MORREU

Diferentemente do que o JN noticiou na edição de quarta-feira, o chefe da milícia de Vorcaro, Luiz Philiipi Mourão, conhecido como Sicário, continua vivo.

A história é bastante confusa e a reportagem não contribuiu em nada para um mínimo entendimento.

A versão da Polícia Federal sofreu alteração de ontem para hoje. Na versão inicial, Sicário teria cometido suicídio na cela em que se encontrava aguardando a audiência de custódia, se valendo da própria camiseta, mesmo a cela sendo monitorada por câmeras. Foi socorrido, mas chegou sem vida ao Pronto Socorro João XXIII, em Belo Horizonte.

Já pela versão atual, ele chegou em estado gravíssimo e foi imediatamente levado para a UTI onde se encontra.

A PF, que havia anunciado sua morte cerebral, teve que voltar atrás, diante da nota da Secretaria de Saúde sobre o estado do chefe da milícia de Vorcaro.

Já os seus advogados informam que a situação dele é gravíssima, mas sem alterações de ontem para hoje. No mínimo, a reportagem (ou reporcagem?) do JN teria obrigação de questionar a mudança nas versões, especialmente sabendo que Sicário possui um longo prontuário de crimes e muitos contatos na Polícia Federal e na Militar de Minas Gerais.

Para quem não se recorda, foi na cidade mineira de Juiz de Fora que Bolsonaro sofreu a controversa facada.

A Polícia Militar de Minas Gerais continua dominada pelo bolsonarismo.

Minas é o ninho de extremistas de direita como o deputado Nikolas Ferreira, o governador Romeu Zema e estado natal do próprio Vorcaro e de seu braço direito, o cunhado Fabiano Zettel.

A morte de Sicário pode interessar a muita gente.

3. O ALVO É LULA

Nenhuma surpresa com o tempo dedicado pelo JN à reportagem sobre a quebra de sigilo bancário de Fábio Luiz, o Lulinha.

O eterno objetivo da família Marinho é tentar provar alguma irregularidade envolvendo Lula, como não consegue, parte para cima de seus familiares.

Lulinha é sempre o alvo por ser um empresário de porte médio razoavelmente bem sucedido.

A quebra de seu sigilo aprovada de forma irregular na tumultuada sessão da CPMI do INSS já foi anulada pelo ministro do STF, Flávio Dino. Ele argumentou que mais de 80 itens distintos não poderiam ser aprovados de uma vez e determinou votação específica para cada um.

Em se tratando de Fábio Luiz não fará diferença. Ele já havia aberto os seus sigilos.

Mesmo assim, o JN, a mídia corporativa e a mídia de extrema-direita passaram o dia tentando transformar o " filho do Lula" em milionário e buscando com lupa encontrar qualquer irregularidade em suas contas.

Tirando os seguidores do Mito, ninguém acreditou que Fábio Luiz seja milionário por movimentar R$ 19,5 milhões em quatro anos, nem foi encontrada qualquer transação suspeita ou que o ligasse à corrupção do INSS, alvo da quebra do sigilo.

Suas contas bancárias mostraram que comprou e vendeu títulos e participações em empresas e que recebeu antecipação de herança. Tudo devidamente declarado à Receita Federal.

Mesmo assim, a má fé correu solta, com a mídia fazendo todo o malabarismo possível para fazer do "filho de Lula" um suspeito de corrupção.

Gráficos foram exibidos e todo o arsenal narrativo do JN acionado.

O curioso é que não ocorreu ao JN, por exemplo, mencionar que há um clamor no meio político e nas redes sociais para que Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro abram seus sigilos bancários.

Nikolas pela proximidade com Vorcaro e pelos diversos voos que fez em jatinhos do ex-banqueiro na campanha eleitoral de 2022. Gastos que parecem não ter sido declarados em sua prestação de contas. Já Flávio Bolsonaro comprou uma mansão em Brasília avaliada, por baixo, em R$ 7 milhões. Sua renda não é compativel e ele obteve financiamento de pai para filho junto ao BRB, aquele do governador Ibanes.

Também não ocorreu ao JN fazer qualquer menção aos R$ 3 milhões que Zettel depositou direto na conta de Bolsonaro na campanha eleitoral de 2022 e aos R$ 2 milhões na conta do então candidato ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Como a oposição, inclusive a midiática, não tem projeto de governo, sua única pauta para a campanha eleitoral é criticar Lula e tentar colar nele a pecha de corrupto.

Pauta que já dura mais de 30 anos.

4. TRUMP QUER ESCOLHER O PRÓXIMO LÍDER SUPREMO DO IRÃ

A ridícula cobertura que o JN está fazendo da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã superou na edição desta quinta-feira todos os limites da canalhice e da subserviência.

Depois de Trump ter bombardeado a residência e o escritório do aiatolá Khamenei, matando a ele e diversas pessoas de sua família, inclusive uma netinha de dois anos, ele anuncia que pretende escolher o novo líder supremo do Irã. E diz que o filho de Khamenei, o mais cotado, é "inaceitável".

O JN deu a notícia sem qualquer contraponto ou comentário. Para o telejornal da familia Marinho, Trump pode tudo. Se na época da Segunda Guerra Mundial, a mídia brasileira naturalizou as ações de Hitler por muito tempo, o mesmo se dá agora com Trump e o genoc@da Netanyahu.

No mais, aquela meia dúzia de correspondentes do JN continua falando sobre a guerra no Oriente Médio, a partir de Nova York, Washington, Londres e Roma. Não duvido que alguns nem saibam localizar no mapa onde fica o Irã.

Do alto da submissão ao imperialismo estadunidense e ao colonialismo de Israel continuam repetindo a ladainha de que o Irã atacou e Israel apenas se defendeu.

Continuam anunciando, com entusiasmo, nova rodada de ataque dos EUA ao Irã e falam sobre os ataques de Israel ao Líbano, como algo defensável.

Esses mesmos correspondentes repetem que o Irã está atacando países da região, quando Teerã nega, lembrando que seus alvos são apenas bases militares dos Estados Unidos. Mais grave ainda: o JN omite a grave denúncia das autoridades iranianas de que muitos ataques a alvos civis naqueles países são feitos por Israel se valendo de "falsa bandeira".

Omite, igualmente, que apenas 27% da população estadunidense apoia a guerra.

Como não há mal que dure para sempre, chegará o dia em que Trump e Netanyahu terão que acertar contas pelos seus crimes.

Neste dia, como ficará o JN, seus âncoras e correspondentes?

Como o público se sentirá tendo sido enganado de forma tão vil?

FONTE:

https://www.facebook.com/angela.carrato.3?locale=pt_BR 

 

 

----------------------------------------

 

 

JN E A NOTÍCIA PELA METADE 

Angela Carrato

Desde cedo e ao longo desta quarta-feira (4/3), todos os portais e edições de TV deram destaque à nova prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, de seu cunhado, Fabiano Zettel, e à descoberta, pela Polícia Federal, de mais um IPhone e do esquema que revelou o modus operandi da quadrilha.

É público que esta turma deu um rombo de R$ 50 bilhões em quem investiu no Master e nas outras sete fintechs que integravam o seu sistema.

Todas e o próprio Master liquidadas extrajudicialmente pelo Banco Central.

A primeira prisão de Vorcaro aconteceu em 17 de novembro do ano passado, quando tentava fugir em um de seus jatinhos de muitos milhões de dólares para Malta.

Era público, mesmo que bastante minimizado pelo JN, que governadores de extrema-direita como Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, e Clécio Luis, do Amapá tentaram ajudar o amigo investindo milhões dos fundos de pensão de funcionários de seus Estados no Master, apesar de todas as recomendações técnicas em contrário. Ou seja: estes governadores fizeram de tudo para salvar o Master.

A "Turma", como era chamada a gangue de Vorcaro, no entanto, divulgou e pagou para que fosse divulgado que, entre os políticos que trabalhavam para o Master, estavam figuras progressistas ou ligadas ao governo Lula, como os ex-ministros Ricardo Lewandowiski e Guido Mantega. Divulgaram igualmente que Viviane, a esposa do ministro do STF, Alexandre de Moraes, tinha um contrato milionário com o banco. O que valeu para acusarem o ministro de, em função disso, tentar salvar o Master.

Até onde se sabe, o tal contrato, sem assinatura, portanto uma minuta, estava num dos celulares de Vorcaro.

Foi o que bastou para que penas de aluguel do Grupo Globo decretassem que Moraes teria que renunciar ao STF.

Por que estou recordando isso agora?

Porque o JN cobriu a nova prisão de Vorcaro e sua "turma" sem fazer as necessárias ligações políticas.

Cobriu como um caso de ganguesterismo - o que sem dúvida é - mas omitiu propositadamente o fato dele envolver diretamente políticos do Centrão e a extrema-direita bolsonarista.

A título de exemplo, qual seria a chamada do JN nesta edição, se a foto do filho de Lula, Fábio Luiz, e não o de Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência da República, aparecesse ao lado de Vorcaro e do Careca do INSS?

Qual seria a manchete se os 21 nomes de parlamentares que foram encontrados na agenda do IPhone de Vorcaro fossem todos do PT ou de partidos progressistas e não de agremiações de direita?

Entre os nomes estavam lá o atual e ex-presidente da Câmara dos Deputados, respectivamente, Hugo Motta e Arthur Lira, e três parlamentares mineiros, Álvaro Antônio, Paulo Abi-Ackel e Nikolas Ferreira.

A presença de Nikolas nesta lista só reforça a ligação dele com os rolos da campanha derrotada de Jair Bolsonaro para a reeleição em 2022.

Nikolas fez inúmeras viagens em jatinhos de Vorcaro durante a campanha, não prestou conta de nada à Justiça Eleitoral e diz não saber de quem eram as aeronaves.

No mínimo, cometeu crime eleitoral, passivo de cassação.

Mas a cereja do bolo é o fato de Zettel, ter dado R$ 3 milhões para a campanha de Bolsonaro e R$ 2 milhões para a do hoje governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Se a doação tivesse sido para Lula, o mínimo que o JN e a mídia corporativa teriam manchetado é: Lula recebeu dinheiro do esquema corrupto do Master. E, claro, os pedidos de impeachment choveriam.

Por que uma manchete deste tipo não aparece em relaçã a Bolsonaro ou Tarcísio?

Disposta a tudo fazer para evitar a reeleição de Lula, esta mídia preserva tanto Flávio Bolsonaro, quanto Tarcísio.

Prova disso é que o JN mostrou a operação da Polícia Federal sem fazer estas óbvias relações políticas.

O JN, como o próprio jornal O Globo - a "voz do trono da família Marinho" - deu destaque para o fato de que um de seus colunistas estava entre os jornalistas ameaçados pela "turma" do Vorcaro.

Pior ainda.

Deu sem qualquer questionamento que o encarregado pelo trabalho sujo, o policial aposentado Luiz Phillipi Mourão, apelidado de Sicário, suicidou-se na Superintendencia da Polícia Federal em Belo Horizonte, horas após ser preso. Oficialmente ele se enforcou com uma camiseta.

Você acredita nesta história?

Eu não.

Sicário poderia fazer delação premiada e conseguir uma pena bem leve a partir de tudo o que sabia.

Não por acaso é fato que Vorcaro, Zettel e Nikolas têm em comum pertencerem à Igreja da Lagoinha.

Passou da hora da Igreja da Lagoinha ser devidamente investigada.

Ela tinha inclusive uma fintech, a Clava Forte, fechada tão logo o escândalo de corrupção do Master veio à tona.

De novo - e sempre é importante repetir - se Lula ou políticos de esquerda fossem de uma mesma Igreja e se ela tivesse uma instituição financeira metida em todo tipo de falcatrua, como seria a manchete do JN?

Ao se prender ao meramente factual, ao dia de hoje, sem qualquer contextualização, sem lembrar dos aspectos políticos que citei, o JN passa pano para a extrema-direita e, de quebra, tenta posar de mocinho, a partir da violência que o colunista do Grupo Globo poderia ser alvo e que estava registrado nas articulações apreendidas.

Como Vorcaro tem no mínimo outros seis celulares, é de se esperar que novas ações e articulações desta milícia ainda venham à tona.

Como último exemplo, vale lembrar que na terça-feira, ao não conseguir blindagem para a turma do fundo de pensão do Amapá, o presidente do Senado e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre, manteve o inegavelmente fraudado resultado da votação que aprovou a quebra do sigilo do filho do presidente Lula, Fábio Luiz.

O assunto sequer foi citado pelo JN.

O mínimo a se esperar agora é que o sigilo de Flávio Bolsonaro também seja quebrado.

A campanha suja da mídia contra Lula, que nunca deixou de existir neste terceiro mandato, agora está descarada.

Alguém ainda duvida que é só o começo e que esta mídia tudo fará para tentar jogar a corrupção do Master no colo do governo Lula?

O nome disso é Lava Jato 2.0.

FONTE:

https://www.facebook.com/angela.carrato.3?locale=pt_BR




ONLINE
14