Juventudes interrompidas

Juventudes interrompidas

Juventudes interrompidas e a falta de proteção à vida     

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, quase 50% das mortes violentas ocorridas em território nacional, em 2024, vitimaram pessoas com idades entre 12 e 29 anos

Por Gabriel Grabowski / Publicado em 4 de agosto de 2025

 

 

Juventudes interrompidas e a falta de proteção à vida    

 

Miriam Fábia Alves: “Temos uma participação importante da juventude nas pautas atuais, em relação à educação e ao meio ambiente, por exemplo. Aqui no Brasil, acho que precisamos promover uma pauta urgente com as juventudes na defesa da vida. Mas, ao mesmo tempo, há uma tentativa da sociedade brasileira de secundarizar essa participação”

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

 

O Dia do Estudante e o Dia Mundial da Juventude — respectivamente, em 11 e 12 de agosto — continuam com poucos motivos para comemoração no Brasil. Os jovens mantêm-se nos grupos que mais sofrem as consequências da violência, do desemprego, da falta de educação com qualidade, da destruição do meio ambiente, da desesperança e da interrupção do direito à vida.

É necessária uma reflexão e análise mais profunda sobre por que o Brasil mata tantos jovens, especialmente negros e pardos, praticando um juvenicídio contínuo. Considerando apenas a série histórica de onze anos (2013-2023), foram 312.713 jovens vítimas da violência letal no Brasil, segundo o Atlas da Violência do Ipea. O juvenicídio é um conceito que explora a fundo as dinâmicas de estigmatização, criminalização e aniquilação de vidas construídas em torno do sujeito jovem, cuja razão principal é ser jovem.

Políticas e programas de juventudes

O Dia Internacional da Juventude tem origem em uma resolução da Assembleia Geral da ONU de 1999, em resposta à recomendação da Conferência Mundial de Ministros Responsáveis pela Juventude, reunida em Lisboa, de 8 a 12 de agosto de 1998.

Portanto, há 26 anos, países do mundo reuniram-se em Portugal e assumiram compromissos de formular e aplicar soluções para os problemas e desafios que vitimam jovens em escala global. A Declaração de Lisboa sobre Políticas e Programas de Juventudes assumiu o compromisso internacional de esforços em prol do desenvolvimento e da paz, com garantia de direitos e envolvimento dos mais altos níveis de governo.

No ano seguinte à reunião de Portugal, a Organização das Nações Unidas instituiu o Dia Internacional da Juventude, celebrado globalmente todo 12 de agosto. Desde então, esta data abriu espaço para a reflexão crítica da condição dos jovens e para o debate sobre a condição social e os direitos que mais afetam essa população.

Os países assumiram um conjunto de compromissos em torno de uma agenda com os jovens, entre os quais destacam-se: Direitos Humanos e Democracia; Desenvolvimento Sustentável; Sustentabilidade Ambiental; Igualdade de Gênero e Inclusão; Combate à Violência contra a Juventude; Tempos Livres, Mobilidade e Participação Internacional; Saúde e Proteção Social; Educação Sexual Abrangente; Educação Inclusiva de Qualidade; Trabalho Digno e Empoderamento Econômico; Acesso à Informação e à Tecnologia, entre outros.

No Brasil, entrou em vigor o Estatuto da Juventude (Lei nº 12.852/2013), reafirmando um conjunto de direitos dos jovens, tais como: direito à profissionalização, ao trabalho e à renda, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, adequadamente remunerado e com proteção social. Portanto, tanto na Declaração de Lisboa quanto no Estatuto da Juventude, a violência e a segurança não ficaram de fora da pauta.

Violência

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, quase 50% das mortes violentas ocorridas em território nacional, em 2024, vitimaram pessoas com idades entre 12 e 29 anos. Estes índices já foram ainda superiores na série histórica levantada pelo Atlas desde sua criação, em 2016.

A vitimização de jovens e negros vem sendo comprovada pelo Ipea desde a primeira edição do Atlas da Violência. A edição de 2025 registrou que, no ano de 2024, houve 44.127 mortes intencionais (homicídios) no Brasil, sendo que 48,5% das vítimas tinham até 29 anos e 79% eram negras. A violência contra crianças e adolescentes (0 a 17 anos) teve crescimento de 3,7% no ano passado.

Matéria editada por Nadini Lopes (Brasil de Fato) aponta que a faixa etária dos 12 aos 29 anos representou 76% das vítimas de violência policial no país. O racismo estrutural reforça essa estatística: 83% das pessoas mortas pela polícia em 2022 eram negras. Os jovens pretos são, portanto, os maiores alvos da agressividade das forças oficiais de segurança. Eles também formam parte considerável da população carcerária do Brasil: pessoas com até 29 anos representam 43,1% desse grupo, e homens negros respondem por 68,2%.

A população de mulheres entre 18 e 24 anos é a que mais sofre feminicídio no Brasil. Esse tipo de crime guarda uma componente ainda mais cruel: para outros tipos de violência, o risco diminui a partir dos 29 anos; no caso dos feminicídios, as mulheres continuam sob constante perigo por cerca de 15 anos a mais. Mais de 70% dos casos ocorrem entre os 18 e os 44 anos.

Educação

O direito à educação é outro desafio para os jovens brasileiros. Conforme Estatísticas Sociais do IBGE, divulgadas em 2023, um em cada cinco brasileiros com 15 a 29 anos não estudava nem estava ocupado em 2022, ou seja, 10,9 milhões de pessoas (22,3%). Do total, mulheres pretas ou pardas representavam 4,7 milhões (43,3%), enquanto mulheres brancas somavam 2,2 milhões (20,1%). Homens pretos ou pardos eram 2,7 milhões (24,3%) e homens brancos, 1,2 milhão (11,4%).

Desse total, 61,2% eram pobres, com renda domiciliar per capita inferior a US$ 6,85 por dia, e 14,8% eram extremamente pobres, com renda abaixo de US$ 2,15 por dia, segundo o Banco Mundial. No Nordeste, 75,5% dos jovens que não estudavam nem estavam ocupados eram pobres, e 22,5% estavam na extrema pobreza. Isso evidencia a relação direta entre ser jovem, pobre e preto ou pardo com a exclusão educacional.

O estudo do IBGE revela ainda que esse resultado coloca o Brasil com percentual de pessoas sem ensino médio acima de países latino-americanos como Colômbia (37,9%), Argentina (33,5%) e Chile (28%).

O atraso histórico na expansão do sistema de ensino brasileiro também se reflete no baixo percentual de pessoas de 25 a 64 anos que concluíram o ensino superior. Enquanto a média dos países da OCDE, em 2021, era de 41,1%, a média brasileira, em 2022, era de cerca da metade: 20,7%.

Embora a faixa etária de 25 a 34 anos tenha atingido percentual maior, com 23,4% em 2022, o Brasil segue abaixo da média da OCDE para essa idade, que é de 46,9%. O índice brasileiro também é inferior ao de países latino-americanos como México (27,1%), Colômbia (30,5%) e Chile (40,5%).

Saúde

Embora o Brasil não apresente taxas elevadas de suicídio em um contexto global, o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Vigilância em Saúde, alerta para a tendência crescente dessa causa de morte no país.

Estudo sobre tendências de mortalidade por doenças e agravos não transmissíveis de 2000 a 2018 revelou crescimento médio anual de 1,4% nas taxas de suicídio. A partir de 2014, essa tendência se acentuou, com incremento de 3,2% ao ano.

Em 2019, o suicídio foi a quarta principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo, ficando atrás apenas de lesões no trânsito, tuberculose e violências interpessoais. No Brasil, o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) aponta o suicídio como a segunda principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos e a quarta entre jovens de 20 a 29 anos.

Trabalho e defesa das juventudes

As relações dos jovens com o mercado de trabalho também estão em transformação estrutural. Exemplo recente são as demissões voluntárias, que avançam nos últimos anos, com alta adesão entre jovens.

No acumulado de 12 meses encerrados em fevereiro de 2025, no Rio Grande do Sul, houve 697.089 desligamentos a pedido dos trabalhadores. Desse total, 315.450 foram de jovens até 29 anos — 45,25% do total, o maior nível em cinco anos. Quatro anos antes, o índice era de 32,84%.

Entre os principais motivos para a demissão voluntária, os jovens justificaram: baixos salários e falta de reconhecimento; problemas com a chefia e cultura organizacional; busca por qualidade de vida e flexibilidade; realização pessoal e alinhamento com valores; adoecimento mental e estresse; mudança de carreira e empreendedorismo. Compatibilizar estudo, trabalho, renda, qualidade de vida, tempo livre, atividades híbridas e bem-estar é parte de uma nova cultura das juventudes contemporâneas.

A pesquisadora Miriam Fábia Alves, da Universidade Federal de Goiás (UFG), alerta que o Brasil precisa de um debate urgente sobre a proteção da vida da juventude e a cultura da paz. Ela ressalta que esse debate deve ter protagonismo jovem: “Nada sobre nós, sem nós”.

A professora destaca ainda: “Temos uma participação importante da juventude nas pautas atuais, em relação à educação e ao meio ambiente, por exemplo. Aqui no Brasil, acho que precisamos promover uma pauta urgente com as juventudes na defesa da vida. Mas, ao mesmo tempo, há uma tentativa da sociedade brasileira de secundarizar essa participação”.

Gabriel Grabowski é professor, pesquisador e escreve mensalmente para o jornal Extra Classe.

 

FONTE:

https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2025/08/juventudes-interrompidas-e-a-falta-de-protecao-a-vida/?fbclid=IwY2xjawMAyT1leHRuA2FlbQIxMQABHuzzY_8E8Bg5IuCgAeWldocPVvN_ChCYF4AYFhhAI2XvblZqMDw0
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