Lares evangélicos

Então meu povo, uma pastora bem conhecida no meio evangélico, Helena Raquel, subiu ao púlpito no Congresso Gideões Missionários da Última Hora e disse sem rodeios aquilo que desde sempre foi abafado nas igrejas por silêncio cúmplice e moralismo hipócrita - que as mulheres cristãs parem de orar por seus maridos abusadores, denunciem E CAIAM FORA!
E quero esclarecer aqui, de uma vez por todas o seguinte: uma exortação-DENÚNCIA dessa monta jamais aconteceria se a situação fosse limitada a casos pontuais. Uma liderança religiosa tão importante, num evento altamente conservador, expondo tamanho escândalo ESTRUTURAL é porque a coisa além de verdadeira, passou de todos os limites.
Uma pastora chegou ao ponto de ter que dizer pras mulheres das igrejas, que apanham dentro de casa, dentro de lares cristãos, que elas devem parar de espiritualizar a violência e procurar a polícia! Portanto, o que está sendo admitido ali é que a igreja falhou. E falhou MUITO feio. Falhou sistematicamente.
E isso desmonta, de uma vez por todas, a fantasia vendida desde sempre que o “homem de Deus” é moralmente superior. Não é. Nunca foi. O rótulo religioso não produz caráter, só produz blindagem social. Dentro da grande maioria das igrejas, o que existe é um pacto informal de proteção masculina travestido de “família cristã”. A mulher apanha, é estuprada, é violentada psicologicamente e de outras tantas formas e o que recebe? Conselhos sobre: “Ore mais”, “seja submissa”, “Deus vai transformar seu marido”...
Traduzindo: aguente calada.
Eu mesma já denuncio isso há muito tempo e fui bastante atacada nos posts. Xingada até, minhas fontes deslegitimadas, minhas pesquisas tratadas como fake news.
Pois taí.
E vindo do seio das igrejas, finalmente acreditarão??
O mecanismo é sempre o mesmo: quem denuncia vira o problema, porque expõe a estrutura. Pois muito bem, não é mais uma crítica externa. É uma pastora evangélica, em um dos maiores eventos do meio, confirmando na prática aquilo que as estatísticas já indicavam: mulheres evangélicas estão entre as que mais sofrem violência doméstica!
E ponto final!
Helena Raquel também se dirigiu diretamente às crianças, ensinando-as a detectarem e denunciarem abusos, o que tanta gente como eu já denuncia há tempos, que nem as crianças estão protegidas dentro desses espaços!
Nem dentro dos lares cristãos!
Isso é estrutural, é o velho e podre patriarcado finalmente sendo exposto pelo menos uma vez na vida num ambiente bem improvável.
A máscara caiu de dentro para fora.
Vejamos qual será a repercussão disso.
Como sempre foi dito aqui e noutros perfis de denúncia de abusos no meio religioso, não é sobre perseguição religiosa.
Ninguém está perseguindo ninguém!
É a realidade material. Quando uma mulher, liderança forte, aborda isso publicamente...
O que mais pretendem argumentar?
Ainda querem ter razão?
Se passar de vítimas?
Me poupem.
O que resta agora é decidir de que lado você está. Do silêncio que protege agressor ou da ruptura?
Quem estará disposto a pagar o preço de uma revolução no meio evangélico?
Isso é possível? Pergunto porque, depois de ter passado 25 anos nesse meio, eu sei que a igreja não apenas falhou, como um vacilo, um desvio de propósito...
A igreja tem falhas irreversíveis.
Quem estará disposto a assumir um enfrentamento concreto ao patriarcado que é a essência, o eixo central da Igreja?
Bom, eu só observo.
Eu só observo.
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Gi Stadnicki
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Mais detalhes sobre a fala da pastora aqui:
https://youtu.be/w7w2aW5FIqM?si=ZF_TMVgBS0bppJmH
FONTE:





