Leitura contra a desinformação

Leitura contra a desinformação

Leitura contra a desinformação

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Leitura contra a desinformação
Encontro do clube Leitura Contra a Desinformação na sede da ONG
Cirandar | Foto: Instituto E Se Fosse Voce? / divulgação

 

Você que lê esta coluna: assumo logo de saída, sem te conhecer, que você gosta de ler. Deve gostar de ler notícias e por isso lê a Matinal. Possivelmente gosta também de ler livros, por isso acompanha os textos que publico aqui. Em um país cujo número de pessoas que não lê superou o número de leitores – segundo a última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024) – dá pra dizer que este é um encontro raro.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil é realizada de quatro em quatro anos desde 2001 e este foi o pior resultado da série histórica. No mesmo período em que se concretizava essa péssima estatística (mais ou menos de 2019 pra cá), vimos tomar forma e crescer rapidamente no Brasil uma outra epidemia seríssima, que vem ameaçando a saúde da nossa jovem democracia, apesar do nosso histórico de atletas com bom desempenho em Copas do Mundo & Olimpíadas. E eu não estou falando da covid-19 – ainda que elas tenham muito em comum, sociologicamente falando.

De uns anos pra cá, acho que dá pra dizer que vivemos no Brasil uma epidemia de desinformação – isso que a gente convencionou chamar de “fake news” – e que durante a pandemia de covid-19 foi um entrave no combate à doença, retardou a vacinação, reforçou estigmas sobre outras doenças, atrapalhou a economia, comprometeu a educação, enfraqueceu a cultura, desidratou nossas esperanças e, objetivamente, ocasionou muitas mortes.

Menos leitura e mais desinformação. Não me parece simples coincidência.

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De 2016 a 2018, a escritora Natalia Borges Polesso foi colunista do jornal O Pioneiro, de Caxias do Sul. Ela morava na cidade, na época, e escrevia no jornal sobre literatura e temas contemporâneos, incluindo cultura e direitos humanos. Uma autora premiada, doutora em literatura, com livros publicados em grandes editoras nacionais. Tudo certo, se não fosse o ano de 2018, se não fosse no Brasil, mais especificamente em Caxias do Sul (com o perdão da generalização, mas a gente está falando aqui do público-alvo da mídia hegemônica de uma cidade majoritariamente conservadora).

Para resumir muito a história: Natalia recebia todo tipo de interação dos “leitores” do jornal, por conta dos temas de seus textos. Mas naquele 2018, a enxurrada de impropérios ultrapassou todos os limites. E era nítido que o problema era ela ser escritora, ser lésbica e escrever sobre cultura e direitos humanos. Para aquelas pessoas, ela era contra a moral e os bons costumes, a garota propaganda da ideologia de gênero, a cavaleira comunista do apocalipse. Tudo meio risível, é verdade, até que vieram as ameaças de morte. O jornal não ofereceu qualquer resistência a toda aquela onda de violência deliberada e a coluna foi interrompida. 

O debate sobre liberdade de expressão era, já naquela época, muito mal conduzido. Se a liberdade de expressão de uns constrangia ou inibia a fala de outros, aquilo já não poderia ser chamado de liberdade, certo? Falando assim, parece óbvio, mas até hoje é nesse terreno que as fake news se alastram feito pólvora em chamas. Sem controle, sem regulação, com vultuosos impulsionamentos.

E aqui me retrato por chamar débeis comentaristas de portal de “leitores” e aproveito para retomar o ponto: certamente, os algozes de Natalia não leram seus livros, não faziam ideia do valor de seu trabalho, estavam intoxicados pela atmosfera daquele ano, forjada no chorume da desinformação nas redes. 

Parecia uma guerra perdida.

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Em 2018, Manuela D’Ávila concorria ao cargo de vice-presidente da República na chapa encabeçada por Fernando Haddad contra Bolsonaro. Acostumada aos pleitos desde jovem, tendo sido eleita vereadora em Porto Alegre aos 23 anos, deputada federal aos 25 e reeleita no pleito seguinte, em 2010, com menos de 30 anos, ela disputou ainda duas majoritárias em Porto Alegre, em 2008 e 2012. No pleito de 2014, elegeu-se deputada estadual. Mesmo com todos esses anos sendo mulher no ambiente masculino da política, acho que nada do que ela tenha vivido a preparou para o que viria em 2018.

Manu foi o principal alvo da estratégia de desinformação da campanha do futuro presidente eleito do Brasil naquele ano. As mentiras espalhadas na internet motivaram até mesmo agressões físicas contra ela nas ruas, em momentos de lazer, no supermercado. Em certas ocasiões nem a presença de uma bebê (Laura tinha entre 2 e 3 anos) em seu colo inibia a sanha violenta de pessoas intoxicadas por fake news contra ela. Manu era o anticristo para essa gente, a pessoa que queria acabar com a família, que tinha comprado o enxoval da Laura em Miami com dinheiro público, que tinha parte com o diabo e também péssimo gosto para tatuagens (risos). Vou poupar aqui mais memórias dessas mentiras para que fiquem na lata do lixo da história. 

Mas faço questão de lembrar (sempre) da violência que veio também de setores mais ilustrados da sociedade, como a bancada daquele fatídico Roda Viva, em que ela foi metralhada com perguntas mal formuladas e impedida de concluir suas respostas pelas constantes interrupções dos próprios jornalistas, num movimento que deixou a impressão de ter sido orquestrado para boicotá-la. Olhando hoje, em perspectiva, não seria exagero ler aquele episódio de silenciamento sádico e misógino como linha auxiliar da estratégia da desinformação da extrema-direita.

E foi no dia seguinte ao resultado da eleição que Manu começou a organizar a militância que se tornaria o centro de sua atuação política a partir de então. Ela criou o Instituto E se fosse você? com foco no combate às redes de ódio e desinformação. Escreveu e publicou livros, organizou coletâneas de depoimentos de outras mulheres sobre violência política de gênero, promoveu eventos e atividades formativas gratuitas sobre fake news e organizou o maior clube e leitura feminista do Brasil, sua grande aposta em uma tese que eu concordo em gênero, número e grau: a luta contra a desinformação passa por um letramento e, em suma, pela leitura como hábito e pelo livro como objeto acessível.

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Na prova de literatura do Enem de 2018, o texto-base de uma questão específica causou alvoroço: era um trecho do conto “Vó, a senhora é lésbica?” do livro Amora de Natalia Borges Polesso. A questão pedia para o candidato identificar a perspectiva na qual a tensão da narrativa estava fundamentada. A resposta correta era a que dizia que a tensão se dava no “silêncio em nome do equilíbrio familiar”. A personagem Joana, ao saber que sua avó também é lésbica, opta por não revelar sua própria orientação sexual para evitar conflitos e manter a harmonia familiar, mesmo diante daquela descoberta importante. 

Uma questão até conservadora, convenhamos, mas que foi a primeira em muito tempo a levantar o debate sobre representatividade LGBTQIAPN+ no Enem e a importância de abordar temas sociais e de diversidade nas provas. O conto e a questão se tornaram um marco na discussão sobre a compreensão das diferentes orientações sexuais dentro do contexto familiar e social na literatura.

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A campanha de Bolsonaro em 2018 foi um prenúncio de seu governo: terrivelmente discriminatório com relação às pessoas negras e às religiões de matriz africana, com uma ética genocida em relação às questões indígenas e totalmente panicada com pessoas LGBTQIAPN+ que estariam forçando crianças a fazerem transição de gênero nas escolas. Neuróticos e histéricos, resgataram as narrativas do comunismo à espreita como inimigo a ser combatido e a pataquada da terra plana, ideias que resultaram naquele bando de lunáticos de verde e amarelo com celulares na cabeça pedindo intervenção alienígena. O saudosismo da ditadura também fez parte do enredo, junto com o desejo de retorno dos militares ao poder, como garantidores da ordem e do progresso.

Na época eu me perguntava como as pessoas podiam acreditar nesses delírios. Indo um pouco mais fundo: como seres humanos poderiam apoiar tamanha desumanização de seus iguais? E como alguém pode ser tão ingênuo a ponto de acreditar em narrativas tão furadas?

O efeito de uma narrativa (ainda que xoxa, capenga, manca, anêmica, frágil e inconsistente) sobre quem não sabe ler atua tal qual um vírus mortal num sistema imunológico sem vacina.

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O projeto Leitura Contra a Desinformação, criado por Manuela D’Ávila no Instituto E Se Fosse Você? é um clube de leitura gratuito, aberto a qualquer pessoa interessada, com uma curadoria de livros de autores contemporâneos publicados por editoras gaúchas, com o auxílio de mediadores de leitura e encontros sediados em bibliotecas comunitárias de cinco diferentes regiões da cidade de Porto Alegre: Zona Norte (Sarandi), Zona Leste (Lomba do Pinheiro), Zona Sul (Cavalhada), Ilhas (Ilha da Pintada) e Centro Histórico. E para completar: quem participa do clube ganha os livros.

A aposta da curadoria (assinada por esta que vos escreve) é apresentar histórias de ficção que iluminem assuntos contemporâneos que são frequentemente alvo de desinformação, como uma forma de vacinar as pessoas contra fake news, ou seja, contra narrativas que estigmatizam culturas de origem africana, contra tradições que pregam a superioridade de determinada raça (sic), contra a narrativa de que pessoas LGBTQIAPN+ forçam crianças a mudarem de sexo (sic), contra a romantização da exploração sexual e reprodutiva do patriarcado sobre as mulheres.

São livros com personagens LGBTQIAPN+ pagando boletos, indo trabalhar ou simplesmente envelhecendo. Histórias de famílias de pessoas negras, seus silêncios, rupturas e libertações. Fabulações afrofuturistas com direito a viagem no tempo e projeções de futuro. Histórias de mulheres e seus dilemas com a maternidade, a carreira, a vida a dois e a vida em si. Poemas sobre o campo, suas paisagens e tradições, contados de um jeito nada tradicional.

O clube Leitura Contra a Desinformação só consegue fazer tudo isso (que parece um sonho, eu sei) porque tem apoio e recursos públicos do Ministério da Cultura por meio de emenda parlamentar da deputada Daiana Santos.

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Amora é um livro concebido por volta de 2013, publicado em 2015, que ganhou notoriedade nacional após ganhar o Prêmio Jabuti em 2016. Fazendo as contas, Amora faz 10 anos em 2025. E a gente sabe que muita coisa acontece em 10 anos.

Fui reler mais uma vez depois de alguns anos e me dei conta de como a questão de se assumir e tornar visível a expressão de uma sexualidade “fora da norma” é presente em praticamente todos os contos. E de como isso, hoje em dia, ao menos na minha bolha social, pode parecer um assunto ultrapassado, sobretudo entre os mais jovens e/ou em contextos urbanos. Para alguns, pessoalmente, talvez seja mesmo. Mas enquanto questão coletiva, de fato, não é. 

Amora é um livro sobre vivências lésbicas, algo lindo e bem raro até então, mas ainda muito marcado por esse interdito social. Nos contos do Amora, ainda não somos orgulhosas, ainda não aparecemos relaxadas e tranquilas com a nossa orientação sexual. Em alguns contos, ainda temos vidas duplas, com marido e filho e relacionamentos em paralelo, ainda apresentamos nossa namorada como “a prima que está na cidade”. Ainda envelhecemos por detrás dos muros, com companhia, sim, mas ainda escondidas.

E mesmo assim, 10 anos depois, eu sigo dizendo que o Amora é o livro que eu esperei a vida toda para ler – essa frase até virou blurb da nova edição, publicada em 2022. E não sou só eu, pois sei que Natalia recebe mensagens de leitoras dizendo, por exemplo, “eu sou uma Tia Carolina” se referindo à personagem do conto “Vó, a senhora é lésbica” que nunca pôde assumir sua relação com outra mulher e era tratada como amiga da vó pelos netos de sua companheira. Outras se identificam com alguma personagem do conto “As tias” em que uma delas adoece e a companheira não pode ficar com ela no hospital, pois só é permitido o acesso de parentes.

Em 10 anos muita coisa muda para o bem também: além do Prêmio Jabuti, o livro já ganhou traduções para o inglês e o espanhol em diversos países, elogios de Oprah Winfrey e uma nova edição acrescida de contos inéditos, nova capa e fortuna crítica. Rolaram algumas adaptações de contos para teatro e cinema e até uma adaptação para série de TV (que começa a ser gravada em breve para o Canal Brasil). Também já entrou no PNLD (Programa Nacional do Livro e do Material Didático) para ser lido por milhares de jovens em escolas da rede pública e, no ano em que completa 10 anos, será uma das leituras – justamente a de agosto, o mês da visibilidade lésbica – do clube Leitura Contra a Desinformação.

Só no clube, serão centenas de exemplares distribuídos gratuitamente entre leitoras e leitores de cinco territórios de Porto Alegre, além de motivar um total de 10 encontros e debates sobre o livro, alguns deles com a presença da autora.

Tudo com a convicção de que quanto mais a gente lê, mais esperto a gente fica para não cair em fake news por aí.

 

FONTE:

https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/nanni-rios/leitura-contra-a-desinformacao/




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