Mais com violência nas escolas

Mais com violência nas escolas

Por Bruno Alfano — Rio

 

Um mês depois de Lúcia (nome fictício) ter sido alocada na nova escola que daria aulas, na Zona Norte do Rio, ela ainda não tinha conseguido conhecer seus alunos direito. O motivo? A rotina de tiroteios não dava trégua. A professora sabia que aquele seria um dos mais desafiadores ambientes de aprendizagem na cidade, mas estava disposta a encarar o desafio. A persistência durou seis anos. Até que desenvolveu síndrome do pânico e deixou o local, em 2024.

— Vivi muitas situações de risco de vida. Muitas vezes precisei fazer barricadas com cadeiras e mesas, ficar deitada no chão. Uma vez mataram um cara na lateral da escola. Outra vez precisei sair de lá em comboio com uma placa no carro: “Professores”. Agora não posso ouvir um barulho que acho ser tiro — afirma ela, que prefere não se identificar.

No Estado do Rio de Janeiro, 16% dos professores relatam sofrer com tiroteios ou balas perdidas nos colégios em que trabalham — um patamar cinco vezes maior do que a média nacional, que é de 3%. De acordo com a Prefeitura do Rio, 471 unidades de ensino foram impactadas pelo menos uma vez no ano, ao longo de 2024, por conta de operações policiais ou confrontos. Em 2025, até agora, 408 escolas já interromperam as aulas por conta da violência armada no entorno.

Dados recolhidos pelo questionário destinado a professores de Português e Matemática na aplicação do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do Ministério da Educação, mostram que, no Estado do Rio, mais da metade (51%) relatam haver depredação da escola; 43% disseram ter acontecido episódios de agressão na escola; 40% viveram roubos ou furtos; e 11% apontaram tráfico de drogas — um patamar menor do que a média nacional, de 15%. Além disso, 11% declararam que presenciaram atentados à vida no ambiente educacional e 14% comunicaram agressões sexuais, patamares similares ao resto do país. As informações foram coletadas em 2023, mas foram divulgadas apenas com os microdados da avaliação neste ano.

— Escolas que sofrem com mais violência reportam mais interrupção de aulas, maior rotatividade de pessoal docente e mais profissionais saindo com licença médica. Por isso, esses alunos têm aprendizagem menor — afirma Joana Monteiro, diretora do Laboratório para Redução da Violência (Leme) com pesquisas na área, que segue: — Além disso, ninguém quer trabalhar nesses locais. Então os professores que vão atuar lá normalmente são os que estão em começo de carreira e têm menos prioridade de escolha quando, na verdade, esses colégios precisam dos que são mais experientes.

Pacto por 200 dias

De acordo com Andreia Martins, pesquisadora de educação e diretora do Redes da Maré, no Complexo da Maré, na Zona Norte da capital, um dos territórios mais impactados pela violência no Rio, é comum que as aulas perdidas por episódios do tipo não sejam repostas de forma adequada:

— As escolas já deixam uma folhinha com as crianças para esses casos ou então mandam alguma tarefa por WhatsApp com instruções. Mas a gente percebe que isso não tem valor pedagógico. Num dia de conflito, o que se vê é uma enorme tensão. É difícil imaginar, no meio disso tudo, uma criança pegar para fazer uma tarefa com qualidade.

No início deste ano, o Conselho Nacional de Educação (CNE) criou a Comissão de Acompanhamento da Obrigatoriedade de Cumprimento dos 200 Dias Letivos — após uma mobilização da Redes da Maré. A ideia é construir um pacto para monitorar redes de ensino que sofrem com aulas suspensas por violência ou outras questões, como fenômenos climáticos. Duzentos dias é o mínimo previsto pela lei brasileira para um ano letivo.

— O que se observa em muitos casos é que há uma espécie de arremedo daqueles dias impactados. Essa comissão foi formada para que os 200 dias sejam efetivamente cumpridos com qualidade para a aprendizagem desses estudantes — diz a conselheira Cleunice Rehem, que preside a comissão.

De acordo com ela, ainda estão sendo discutidas as formas para que essa reposição das aulas seja adequada. Entre as opções em debate estão aulas on-line, encontros aos sábados e utilização de dias de férias para reposição. A previsão é que o Pacto Nacional pelo Cumprimento dos 200 Dias Letivos seja apresentado até novembro deste ano.

Na avaliação de Andreia Martins, da Redes da Maré, a melhor maneira de repor essas aulas perdidas precisa ser construída considerando cada contexto escolar.

— Essa solução precisa nascer a partir de um diálogo com a comunidade escolar, com famílias, professores, alunos, para entender o que pode ser feito no contexto daquela escola, daquela região, para que haja uma compensação adequada dessas aulas. Não estamos defendendo aumentar o trabalho do professor. O nosso incômodo é que não está sendo garantido um direito. Então precisamos buscar uma solução que seja confortável para todo mundo e que os 200 dias letivos sejam garantidos — afirmou a especialista.

Em nota, a Secretaria de Educação do município do Rio afirmou que oferece estratégias como reforço escolar, apoio pedagógico nas próprias unidades, Aulões Cariocas para tirar dúvidas, videoaulas com questões comentadas e materiais específicos de reposição para minimizar os impactos pedagógicos dessas interrupções. “As equipes escolares também organizam planos de recuperação adaptados à realidade de cada comunidade escolar”, diz o órgão da prefeitura.

Já o Ministério da Educação afirmou que lançou o Programa Escola que Protege, que vai fazer diagnósticos locais; protocolo de prevenção, resposta e reconstrução, orientando as redes a lidarem com situações de crise em caso de violência extrema; e formação e fortalecimento de capacidades locais. A previsão é que essa implementação comece “nos próximos meses”, segundo a nota.

FONTE:

http://extra.globo.com/brasil/educacao/noticia/2025/07/professores-do-rio-sofrem-cinco-vezes-mais-com-violencia-nas-escolas-do-que-a-media-brasileira.ghtml




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