Mais mulheres mataram homens?

Aí o Juliano Cazarré num debate na Globo afirma que “mais mulheres mataram homens do que homens mataram mulheres”...Haja arrogância pra achar que vai meter uma dessa e vamos ficar caladas!
Sim porque ele não está apenas emitindo uma "opinião polêmica", como gostam de falar pra diminuir a importância de certas falas, ele está distorcendo ~deliberadamente~ categorias estatísticas completamente diferentes pra produzir um efeito ideológico.
E isso é gravíssimo porque visa apagar a realidade estrutural da violência de gênero no Brasil, sabendo que muita gente desavisada ouve uma merda dessas e acredita.
Primeiramente que feminicídio não é um assassinato comum. Feminicídio é o assassinato de mulheres motivado por ódio, posse, controle, misoginia e violência de gênero. É uma categoria jurídica e sociológica específica justamente porque mulheres são mortas dentro de uma lógica histórica de dominação patriarcal. Comparar feminicídio com o número geral de homens mortos, que inclui disputas armadas, violência urbana, conflitos entre facções, assaltos, confrontos policiais, brigas diversas e inúmeras outras causas, é fraude estatística.
É manipulação de dado para produzir propaganda ideológica.
Os números oficiais deixam isso escancarado.
O Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, o pior índice desde 2015. Isso significa mais de quatro mulheres assassinadas por dia apenas por serem mulheres. E existe um dado ainda mais brutal pois a maioria dessas mortes não acontece numa rua escura, sendo cometida por um desconhecido. Cerca de 80% dos feminicídios são praticados por parceiros ou ex-parceiros. Ou seja, o principal risco pra milhares de mulheres continua sendo justamente o homem que dizia amá-las...
O homem que deveria, segundo a lógica religiosa, que tanto defendem e dizem estar acima de tudo e de todos, protegê-la. Cuidá-la. Zelar por ela.
Isso desmonta completamente a fantasia conservadora da “família tradicional protetora”, tão vendida por setores religiosos e moralistas...
Vamos encarar os fatos: esses números alarmantes e sempre alta e em crescimento, deixam evidente que não, os homens não estão "amando as mulheres como Cristo amou a igreja"!
É mentira.
O Brasil é um país DE MAIORIA CRISTÃ, de tradição cristã, de cultura cristã, de moral cristã!
Então como assim, números de feminicídio tão gritantes?
O que diabos homens religiosos como Juliano Cazarré e tantos outros ainda acham que tem de novo, de disruptivo, a oferecer como formação de masculinidade diferenciada?
Ahhhhh...vão se catar.
E com argumentos baseados em mentiras? Em dados distorcidos? Em estatísticas desprezadas?
Olha, em dez anos, mais de 13 mil mulheres foram assassinadas por razões de gênero no Brasil. Isso revela uma estrutura contínua de violência masculina contra mulheres. Não é exceção. Não são casos isolados. Não é “caso de homem louco, homem doente”. É padrão social!
E é aqui que a fala de Cazarré se torna ainda mais reveladora. Porque ela expõe a falência moral dessa masculinidade “curada”, “restaurada”, “bíblica” e supostamente superior que certos influenciadores religiosos vendem como solução para a crise social. O que oferecem, na prática, não é maturidade emocional, autocrítica ou responsabilidade ética. É o velho mecanismo patriarcal de sempre: minimizar a violência contra mulheres, inverter o debate, produzir confusão estatística e transformar homens em vítimas abstratas para fugir de qualquer responsabilização coletiva.
Essa masculinidade religiosa performática adora posar de defensora da moral, da família e dos valores cristãos, mas frequentemente entra em colapso quando confrontada com dados concretos sobre violência de gênero. Porque reconhecer a realidade exigiria coragem ética. Exigiria admitir que existe um problema estrutural de socialização masculina baseado em controle, agressividade, posse e desumanização feminina. E muitos desses discursos religiosos ajudam justamente a preservar essa estrutura ao reforçar hierarquia de gênero, submissão feminina e autoridade masculina como “ordem natural”, ou seja, a lógica bíblica né?
Não é coincidência que essa retórica venha acompanhada de ataques ao feminismo, ao debate de gênero e às políticas públicas de proteção às mulheres. O objetivo é político! É desmoralizar qualquer ferramenta crítica que exponha o patriarcado como sistema de poder. Quando alguém manipula estatísticas pra negar a especificidade do feminicídio, está participando da manutenção simbólica dessa violência.
É por isso que é impossível passar pano ou achar que é só bobagem e não discutir a coisa de forma aprofundada.
É covardia pura: homens milionários, influentes, com enorme alcance midiático, usando televisão e redes sociais para distorcer um tema que mata milhares de mulheres pobres, negras e periféricas todos os anos. Porque é preciso pontuar que quem morre mais não é a mulher rica cercada de proteção institucional. É a mulher vulnerável, abandonada pelo Estado, muitas vezes presa economicamente ao agressor e condicionada culturalmente por discursos religiosos que romantizam submissão e sofrimento.
Até nisso o recorte de classe grita.
Mentir sobre índices de violência contra mulheres é produção consciente de desinformação num país que já normaliza demais a brutalidade masculina.
E talvez o aspecto mais perturbador seja justamente este: essa masculinidade que se proclama “elevada”, “purificada” e “guiada por Deus” continua demonstrando sua incapacidade infantil de fazer autocrítica séria. Continua preferindo apelar pro vitimismo masculino fabricado a encarar a realidade concreta das mulheres violentadas de todas as formas. Continua mais preocupada em defender o ego patriarcal do que em enfrentar a barbárie cotidiana que claro, eles próprios sustentam.
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Gi Stadnicki
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