Meta do IDEB superada

Meta do IDEB superada

 

 

Tiveram a CARA DE PAU de colocar uma faixa no portão da minha escola na segunda: "PARABÉNS! SUPERAMOS A META DO IDEB."

Na terça, eu contei as mãos embaixo das carteiras.

Doze.

Sou professora do 5º ano há 14 anos.

Numa turma de 31, doze crianças fazem conta escondendo a mão embaixo da carteira, contando nos dedos, achando que eu não vejo.

A escola não mentiu.

O Ideb dos anos iniciais subiu de verdade — de 6,0 pra 6,3, acima da meta.

Saiu no jornal, o diretor mandou áudio no grupo, teve bolo na sala dos professores.

Eu comi o bolo.

E fiquei com uma coisa engasgada.

Porque o mesmo exame que deu a nota da faixa também disse outra coisa, que não virou faixa em portão nenhum: metade das crianças do 5º ano não aprende matemática como deveria.

As duas notícias são verdadeiras ao mesmo tempo.

A escola bateu a meta.

E a metade que não aprendeu está sentada na minha sala, com a mão embaixo da carteira.

O Ideb mede a média e a aprovação.

E a média é uma coisa muito boa pra medir escola — e muito ruim pra enxergar criança.

A média não tem nome.

Não tem carteira.

Não esconde a mão.

Eu passei anos fazendo com esses doze o que todo mundo faz: mais tabuada, mais lista, reforço no contraturno, "presta atenção".

Eles até acertavam comigo do lado.

Na semana seguinte, tinham esquecido.

E o ano ia passando, o conselho aprovava, a média subia.

Foi numa aula da Luciana Brites, da NeuroSaber, que eu entendi o que a faixa do portão nunca ia me mostrar.

O cérebro da criança constrói a matemática em degraus.

Antes de calcular, ele precisa olhar 4 pontinhos e SABER que são 4 sem contar.

Precisa comparar dois grupos e dizer qual tem mais.

Precisa montar uma linha numérica mental, onde o 7 mora perto do 8 e longe do 2.

Esses degraus se constroem no 1º, 2º e 3º ano.

Quando um fica faltando, tudo que vem em cima — tabuada, continha, problema — não tem onde se apoiar. Vai pra memória curta e some.

E a criança usa a única coisa concreta que tem: os dedos.

Ela passa de ano.

Entra na média.

Some na estatística boa.

Ninguém me ensinou a olhar o degrau.

Nem na faculdade, nem na formação da rede.

A gente recebe a criança, abre o livro e começa pela continha — porque foi assim que ensinaram a gente a ensinar.

Então eu fiz o que a Luciana ensinou: três atividades de 5 minutos, sem prova, sem nota, com a turma inteira.

Descobri que os doze não eram doze problemas diferentes.

Eram três degraus.

Cinco travavam na comparação — não sabiam dizer qual grupo tinha mais. Quatro não enxergavam 4 pontinhos sem contar um por um.

Três tinham cada número como uma ilha: pra eles, 11 e 12 não eram vizinhos.

Eu não precisava dar doze aulas diferentes.

Precisava de três atividades de 10 minutos, cada uma no degrau certo.

Não resolveu tudo.

Turma de 31 continua sendo turma de 31.

Mas em algumas semanas a Sofia, que contava nos dedos desde o 2º ano, olhou pra três tampinhas e disse "três" sem mexer a mão.

Foi a primeira vez que eu senti que estava medindo a coisa certa.

Enquanto a média sobe lá fora, é isso que a Luciana Brites vai ensinar em 4 noites, pra quem está com as crianças de verdade — uma por uma ...

 FONTE:




ONLINE
38