Minha resposta atrasada
"Minha resposta atrasada ao “Lula é ladrão”
Ary Rabelo
Domingo, mesa cheia, família reunida. Entre uma garfada e outra, o pacto de não falar de política foi quebrado com a frase que todo mundo já ouviu: "O Lula é ladrão".
Na hora, engoli a seco. Fiquei em silêncio não por falta de resposta, mas porque o peito aperta quando o debate vira só ódio e acusação vazia.
Fiquei remoendo aquilo a semana toda: como conversar com quem a gente ama, e principalmente com quem ainda tem dúvidas no coração, sem transformar o almoço de domingo em guerra?
Lembrei do meu pai. Militar aposentado, homem de outra geração e de posições firmes. Ele costumava dizer, com o ceticismo de quem viu muita coisa: "a política sempre parece uma briga entre quem está roubando e quem quer roubar". Mas aí ele mesmo parava, olhava nos meus olhos e completava com uma sabedoria simples: "mas o Lula olha pelos mais pobres. E isso ninguém tira dele."
Meu pai, com todo o histórico dele, enxergava algo que a gritaria das redes sociais nos faz esquecer: eleição não é sobre escolher quem a gente mais odeia. É sobre qual projeto cuida da vida real das pessoas.
Reduzir tudo a xingamento cega a gente para o que de fato transforma um país. O que me faz ter lado não são frases prontas, é a memória do que foi vivido:
* É lembrar de quem abriu as portas das universidades federais para filhos de pedreiros, domésticas e agricultores com o ProUni e o Fies, contra quem trata a educação e os professores com deboche.
* É ver a diferença abissal entre defender a dignidade humana ou bater palmas para torturador e flertar com milícia.
* É olhar para a mesa do brasileiro e saber quem luta para colocar comida no prato de quem tem fome.
E aqui está o que mais me tira o sono: a nossa liberdade.
Se hoje qualquer pessoa da minha família pode sentar à mesa, levantar a voz e criticar o presidente com toda a força dos pulmões, é porque ainda existe democracia.
A mesma democracia que quase nos foi arrancada pelas mãos do autoritarismo e da truculência. Sem ela, não existe almoço em família livre, não existe crítica, não existe futuro.
Se você ainda está indeciso, não vote com o fígado ou pelo ódio alimentado no WhatsApp.
Vote pensando no livro na mão do estudante, na comida na mesa do trabalhador e no direito sagrado de discordar sem medo de morrer. A educação constrói, a democracia liberta. É isso que está em jogo.
Como travei na hora e não soube dizer isso no calor do momento, deixo aqui registrado agora — para que quem também já ficou sem chão diante de um ataque desses, ou quem ainda tem dúvidas no coração, saiba exatamente o que responder, mesmo que seja depois:
“Você tem todo o direito de pensar assim e de falar isso bem alto aqui na mesa. E sabe por quê? Porque a democracia ainda está de pé. Prefiro estar do lado de quem garante a sua liberdade de criticar e de quem investe em livro e escola, do que do lado de quem flerta com a violência e com o fim dos nossos direitos.”
FACEBOOK





