Misoginia Bolsonarista

A MISOGINIA BOLSONARISTA.
“Nem é preciso ser psiquiatra para perceber o ódio pela figura feminina entre alguns políticos, mas uma psiquiatra percebe isso mais facilmente. Não se trata apenas de ‘frases machistas’, que são, quase todas, atributos do machismo estrutural vigente em nosso país ao longo da história, mas sim de uma ‘postura misógina’, que é uma tendência clara entre os bolsonaristas. Há uma diferença entre frases machistas consagradas por uma população simples e sem a devida noção da importância das palavras, e a atitude misógina propriamente dita. O recente discurso de Paulo Figueiredo desprezando o voto feminino reitera essa postura, pois reflete o extravasamento de algo que todos eles, bolsonaristas, pensam.
Os Bolsonaro, e consequentemente todo o bolsonarismo, guardam uma aversão velada pela figura feminina e tudo o que ela representa. Obviamente, tentam disfarçar, esconder, fazer discursos bonitinhos para encobrir, encher de flores a cabeceira feminina; no entanto, essa aversão extravasa nos simples olhares. O ódio não é sexual, pois que esse é inerente ao instinto animal, mas sim se manifesta mediante a representatividade da figura feminina, que eles indiscutivelmente consideram inferior, e para a qual reservam o espaço que a misoginia pretende: a subserviência disfarçada em ‘rainha do lar’. Sim, para eles a mulher tem o seu papel, mas esse papel é restrito ao espaço que o homem determinou para ela.
Observe que as mulheres bolsonaristas que adentraram a política apenas se insinuam no partido, elas jamais são totalmente aceitas; na verdade, são elas que seguem o bolsonarismo e não é o bolsonarismo que as acolhe. Tais mulheres são, de certa forma, incômodas ao próprio partido, que as aceita mais pela soma de votos que representam do que por ideologia. Em nenhum momento se vê Bolsonaro defendendo Carla Zambelli, Damares, Michele ou qualquer outra seguidora sua; pelo contrário, ele até afirmou categoricamente que ‘não tem nada a ver com Carla Zambelli’ quando ela precisou de sua ajuda. Os bolsonaristas atacam frequentemente Damares e, agora, tomam o partido não de Michele, mas do clã Bolsonaro. As mulheres são adendos que os ajudam a chegar ao poder, angariam votos, mas jamais têm o seu real respeito.
O desprezo pelas mulheres fica óbvio nas palavras bolsonaristas, nos seus olhares, e a própria linguagem corporal deles é machista. As inúmeras mulheres políticas que abandonaram as ideias bolsonaristas o fizeram ante a percepção da desvalorização da figura feminina.
Não é por acaso que o bolsonarismo adota o conservadorismo, pois que esse é, por natureza, machista, crítico da imposição feminina no mercado de trabalho, e a adoção das ideias conservadoras traz em si a redução do poder feminino, a ideia da mulher como inferior e reservada à procriação e ao prazer sexual, movendo a mulher para uma posição incômoda dentro do mercado de trabalho e desvalorizando as conquistas feministas.
O fato de o conservadorismo aliar-se à religião, em especial a evangélica, que se apega mais ao Velho Testamento, traz mais uma vez a ideia da inferioridade feminina ante a visão religiosa, desde o mito do ‘pecado original’, que é estranhamente imputado às mulheres e às serpentes, e não aos homens, impondo às mulheres a culpa pela perda do paraíso, quanto a personificação da figura divina, que é masculina, e até a própria ‘criação’ feminina, que miticamente veio da ‘costela masculina’, subvertendo a lei humana natural, em que a concepção é atributo feminino.
Não pensem que apenas os homens bolsonaristas são machistas, pois as mulheres também o são, e em grande escala. Há que se estranhar a adesão franca das mulheres, inclusive mulheres que se acreditava serem ‘bem resolvidas’, a um bolsonarismo que as enxerga como inferiores; questiona-se essa atitude como resultante apenas falta de percepção, ou talvez aquiescência a um machismo que as despreza, submetendo-se a um masoquismo que parece redimi-las da culpa imputada pela história, pela religião e pela sociedade.
Cada palavra de Bolsonaro é imposta em misoginia e preconceito; cada olhar dele, no qual deixa transparecer o conluio com o próprio umbigo, vem carregado de vontade de ‘voltar ao passado’. Mas, não creiam que essa desejada volta ao passado seria apenas o saudosismo de correr moleque pelas velhas ruas de sua cidade.
Essa volta seria para reduzir todas as lutas sociais ao nível das conversas de boteco, contar piadinhas picantes sobre mulheres, bazofiar conquistas, sentir-se macho quando ‘pinta um clima’; em outras palavras, são apenas uma forma disfarçada de reconduzir as mulheres à posição subserviente que a sociedade, ao longo da história, reservou. E para tanto, além de ter conseguido a aliança masculina, conseguiu, infelizmente, angariar a cumplicidade feminina.”
Sônia Wendt Nabarro - #SoniaWendtNabarro
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