Mulher não deve votar

A discussão já não é apenas sobre influenciadores dizendo que mulheres não deveriam votar.Ao seguir o rastro dessa ideia, aparece algo mais estruturado: conteúdo aberto → formação → comunidades fechadas → monetização.
No Brasil, Orlando Lima, que se apresenta como coordenador doutrinário do Partido Missão e é autor de textos ligados à chamada “Democracia Familiar”, mantém uma estrutura paga de formação política. Em seu próprio site, descreve um circuito que passa pelo conteúdo público, produtos e publicações e chega a um núcleo fechado por assinatura. Entre seus textos está “A tese da Democracia Familiar: além do sufrágio atomizado”.
Pietra Bertolazzi, que já declarou ser contrária ao voto feminino — posteriormente situando a afirmação em sua crítica à democracia e ao Estado moderno — também comercializa formação dirigida a mulheres cristãs.
Entre os conteúdos oferecidos aparece um módulo denominado “Feminismo e seus malefícios”.
Há ainda uma conexão internacional documentável. Joffre Swait, ligado à Missão Guanabara, é publicado pela Canon Press e vive em Moscow, Idaho, centro do ambiente religioso associado ao pastor americano Douglas Wilson. Wilson defende uma concepção de voto familiar, na qual a família é tratada como unidade política.
E, neste mês, nos Estados Unidos, voltou a circular entre contas conservadoras a defesa explícita da revogação da 19ª Emenda, que impede negar o direito de voto em razão do sexo.
Isso permite afirmar algo importante — e exige também estabelecer um limite.
O que está documentado:
circulação de ideias, formação política/religiosa, comunidades, produtos pagos, monetização e conexões culturais Brasil–EUA.
O que NÃO está comprovado:
uma coordenação central entre esses atores ou um financiamento comum de uma campanha contra o voto feminino.Essa diferença importa.Uma ideia não precisa nascer de uma conspiração para formar um ecossistema. Ela precisa de canais, audiência, repetição — e meios para continuar circulando.
A pergunta da SUBVERSAR agora avança: quem produz, quem distribui, quem monetiza — e até onde essas redes se conectam?
VOTO FEMININO | SUBVERSAR INVESTIGA
Seguiremos o rastro.
Fontes: BBC News Brasil/Folha; páginas e materiais públicos dos próprios atores e organizações citados; Canon Press; cobertura norte-americana sobre a nova circulação de propostas de revogação da 19ª Emenda.
Para entender melhor:
1. Investigação sobre a rede brasileira — Folha/BBC News Brasil, 14/09/2026
É a fonte mais abrangente para o mapa inicial: Paulo Figueiredo, Trezoitão, Pietra Bertolazzi, Fernanda Guardian, Missão/Livro Amarelo e a circulação da tese de “democracia familiar”. https://www1.folha.uol.com.br/.../por-dentro-da-rede-de...
2. “Democracia familiar” e Partido Missão — Folha, 03/07/2026
A reportagem examina o fascículo 6 do Livro Amarelo e reproduz a formulação de Orlando Lima sobre restaurar “a família como célula política”. Também registra a resposta de Renan Santos de que o conteúdo seria discussão/especulação sobre modelos de democracia, e não proposta sua. https://www1.folha.uol.com.br/.../fala-de-paulo...
3. Orlando Lima — fonte primária
Esta é particularmente importante porque não estamos dependendo de interpretação jornalística. O próprio site apresenta três camadas — conteúdo público, “obra”/formação e núcleo fechado — e lista “A tese da Democracia Familiar: além do sufrágio atomizado”. Também informa o funcionamento do grupo restrito de WhatsApp após pagamento.
4. Pietra Bertolazzi — fonte primária
A página atual do D3P oferece comunidade exclusiva, aulas e conteúdos pagos e inclui expressamente o módulo “Feminismo e seus malefícios”. https://pietrabertolazzi.com/d3p/. E https://pietrabertolazzi.com/desafio-dos-3-pilares-2024/
5. Joffre Swait — Canon Press, fonte primária
A própria editora vende livro de Swait e informa em sua biografia que ele vive em Moscow, com a família. Isso documenta a ligação geográfica/editorial; sozinho, evidentemente, não demonstra financiamento ou coordenação política.
Joffre Swait — página do autor/livro na Canon Press: https://canonpress.com/prod.../made-in-the-image-plain-poems
6. EUA — nova circulação de pedidos para revogar a 19ª Emenda, 13/09/2026
É uma fonte interessante justamente porque vem da Fox News: a reportagem registra postagens de contas conservadoras pedindo a revogação da emenda constitucional que protege o sufrágio feminino e entrevista mulheres republicanas que criticam o movimento. https://www.foxnews.com/.../gop-women-sound-alarm-lindsay...
NOTA DA SUBVERSAR:
As fontes acima documentam circulação de ideias, produtos, formação, comunidades e determinadas conexões entre atores. Elas não demonstram, até o momento, a existência de comando central ou financiamento comum da rede. Onde há conexão comprovada, mostramos a conexão. Onde há apenas hipótese, continuamos investigando
FONTE:
https://www.facebook.com/sub.versar
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Uma porta dificílima de abrir e que esteve fechada às mulheres — foi aberta há um século. E agora algumas se aliam a movimentos misóginos para fechá-la.
Direitos conquistados deixam de pertencer apenas a quem lutou por eles. Tornam-se direitos de todas. E porta não se abriu de uma vez:
- 1927. O Rio Grande do Norte reconheceu o direito feminino ao voto antes do restante do Brasil. Celina Guimarães Vianna, aos 29 anos, tornou-se a primeira eleitora brasileira
- 1928. Alzira Soriano foi eleita prefeita de Lajes (RN), com 60% dos votos — a primeira prefeita do Brasil.
- 1932. O Código Eleitoral finalmente reconheceu nacionalmente o direito das mulheres de votar e serem votadas.
Mas há uma curiosidade extraordinária: em 1906, três mulheres de Minas Gerais já haviam conseguido se alistar e votar, décadas antes do reconhecimento nacional.
E, quando finalmente ocorreu a primeira eleição nacional com participação feminina, em 1933, apenas uma mulher foi eleita deputada: Carlota Pereira de Queirós. Algumas mulheres empurraram. Outras atravessaram.
Outras ficaram do lado de fora por décadas. Até que ela se tornou uma porta de todas. Mas muito tempo, mesmo depois de a porta jurídica começar a abrir, muitas mulheres continuaram materialmente do lado de fora — sobretudo mulheres analfabetas, já que analfabetos não podiam votar. Uma publicação do Senado chama atenção para o impacto especialmente grande dessa exclusão sobre mulheres negras.
Quase um século depois, qualquer mulher pode atravessar essa porta — inclusive quem rejeita o feminismo.
E talvez essa seja a mais bonita ironia dos direitos conquistados: depois de conquistados, eles também protegem quem discorda de quem lutou por eles.
A porta hoje é de todas.
Mas vale lembrar quem ajudou a abri-la.
A provocação que deu origem a este post veio de uma publicação de Anelise Scheuer Rabuske Lopes.
Obrigada pela inspiração.
Para quem quiser conhecer essa história:
O Rio Grande do Norte abriu a porta antes do Brasil. A Lei estadual nº 660, de 1927, estabeleceu que não haveria distinção de sexo para votar e ser votado. Em apenas um mês, 20 mulheres potiguares se alistaram: https://www.tse.jus.br/.../quem-foi-a-primeira-mulher-a...
E https://www2.senado.leg.br/.../546864/Arquivo_S_v.8.pdf...
* Celina Guimarães Vianna tinha apenas 29 anos quando entrou para a lista de eleitores de Mossoró, em novembro de 1927. O TSE a registra como a primeira eleitora do Brasil e da América Latina: https://www.tse.jus.br/.../conquista-do-voto-feminino...
* Alzira Soriano não foi uma prefeita simbólica: venceu a eleição de Lajes (RN) em 1928 com 60% dos votos, tornando-se a primeira prefeita do país. Bertha Lutz participou da articulação de sua candidatura: https://www.tse.jus.br/.../glossario-eleitoral-saiba-mais...
* E há uma história ainda anterior: o próprio Glossário Eleitoral do TSE registra que, em 1906, três mulheres de Minas Gerais já haviam conseguido se alistar e votar — décadas antes do reconhecimento nacional: https://www.tse.jus.br/.../glossario/termos/voto-da-mulher
* Em 1932, o Código Eleitoral finalmente escreveu algo extraordinariamente simples: eleitor era o cidadão maior de 21 anos “sem distinção de sexo”. E o mesmo Código criou a Justiça Eleitoral e instituiu o voto secreto: https://www.camara.leg.br/.../a-conquista.../index.html...
* Mas a igualdade não aconteceu de uma vez. O sufrágio feminino foi inicialmente tratado de maneira diferente do masculino; fontes institucionais registram que a equiparação plena da obrigatoriedade só veio posteriormente: https://www12.senado.leg.br/.../94-anos-do-voto-feminino...
* E na primeira eleição nacional em que mulheres puderam votar e concorrer, em 1933, apenas uma mulher foi eleita entre os “deputados do povo”: Carlota Pereira de Queirós. Bertha Lutz ficou como suplente e viria a assumir mandato em 1936: https://www.tse.jus.br/.../glossario/termos/voto-da-mulher
FONTE:





