Mulheres e meninas na Ciência

Mulheres e meninas na Ciência

Apesar dos ganhos notáveis que as mulheres conquistaram na educação e no mundo do trabalho nas últimas décadas, o progresso foi desigual.

Giliane Greff

Mulheres e meninas na ciência

O Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado hoje, dia 11 de fevereiro, foi instituído pelas Nações Unidas, em 22 de dezembro de 2015. Desde então, a UNESCO e a ONU Mulheres, em colaboração com instituições e parceiros da sociedade civil, promovem ações que fortalecem o acesso e a participação de mulheres e meninas na ciência.

Nos próximos 15 anos, a pesquisa científica vai desempenhar um papel fundamental no monitoramento de tendências relevantes em áreas como segurança alimentar, saúde, água e saneamento, energia, gerenciamento de ecossistemas oceânicos e terrestres e mudança climática. Em seu portal na internet, a UNESCO defende que as mulheres vão desempenhar um papel essencial na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ao ajudar a identificar problemas globais e encontrar soluções.

Apesar dos ganhos notáveis que as mulheres conquistaram na educação e na força de trabalho nas últimas décadas, o progresso foi desigual. De acordo com O Instituto de Estatísticas da UNESCO (UIS), apenas 28% dos pesquisadores do mundo são mulheres. As mulheres continuam sub-representadas nos campos da ciência, tecnologia, engenharia e matemáticas (STEM), tanto no âmbito da graduação quanto no âmbito das pesquisas. Mesmo nos campos científicos onde as mulheres estão presentes, elas pouco participam das decisões políticas, reconhece a organização.

Para falar um pouco sobre essa participação das mulheres na ciência, o Portal Adverso fez uma entrevista com a professora Nadya Pesce da Silveira, diretora do Instituto de Química da UFRGS. A pesquisadora acredita que o aumento da presença feminina na produção científica se deve a uma mudança cultural e ao ativismo das mulheres. Ela também destaca que ainda existem muitas questões a serem debatidas e melhoradas, como o reconhecimento de lideranças científicas, que sempre privilegia os homens, e a própria questão da maternidade.

Portal adverso - Qual a importância histórica da mulher na ciência?  

Nadya Pesce: A importância da mulher na ciência é inegável e ela tem que ser cada vez mais desvendada. Há dois séculos, a participação da mulher era muito pequena do ponto de vista das publicações científicas, mas já havia uma existência da participação das mulheres. Nós sabemos de mulheres que trabalharam há muito tempo ao lado de outros pesquisadores, mas elas eram vistas como colaboradoras, e não com igualdade de gênero.  

Então, a história que se conhece é muito influenciada pela forma como se relatou o processo da participação da mulher na ciência. De qualquer forma, de um século para cá isso mudou e, hoje, é bem diferente. Há uma participação ativa, e o reconhecimento do papel das mulheres e dos homens não se dá de uma forma igualitária. Por isso, outras questões precisam ser aprofundadas, como, por exemplo, a questão da maternidade. Pelo fato da mulher gestar a criança, ela tem um envolvimento inicial maior e precisa de uma estrutura adequada para continuar participando em condições de igualdade.

Portal Adverso - Existe alguma área específica onde as mulheres se destacam ?

Nádya Pesce - A distribuição de homens e mulheres nas áreas de pesquisa é relativa, pois depende muito da cultura de cada lugar. No Brasil, historicamente, a maioria participava das ciências consideradas menos duras, como a biologia, a enfermagem e a educação, mas isso foi mudando ao longo do tempo. Hoje, por exemplo, existe um grande número de mulheres na química, pois, anos atrás, os laboratórios brasileiros contratavam auxiliares, sendo a maioria mulheres. Então, se constituiu uma ideia de que a ciência química seria um assunto muito feminino. Talvez isso explique porque, no Brasil, existe um grande número de pesquisadoras que se projetaram, inclusive internacionalmente, nesta área da ciência.

Portal Adverso – Qual o principal obstáculo ao ingresso de mulheres em áreas consideradas tradicionalmente masculinas?

Nádya Pesce - Existem várias questões, como o tema do assédio sexual e, também, do assédio moral. No momento em que reconhecemos o assédio, percebemos que muitas mulheres passaram a vida toda, ou todo o seu tempo de trabalho, sendo assediadas. Isso é real. Não é uma invenção das mulheres. São atitudes que vêm da sociedade machista, culturalmente atrasada, patriarcal, que diz que mulher é isso e homem é aquilo. Então, os homens, muitas vezes sem perceber, têm atitudes machistas. Mas eu creio que isso está mudando graças ao ativismo e à participação das mulheres.

Na ciência, também existe o tema do reconhecimento das lideranças científicas. Hoje, no Brasil, a maioria dos pesquisadores do CNPQ, considerados excelentes, são homens, mesmo na área química, onde as mulheres são maioria. Isso não quer dizer que elas são piores, mas que o processo de reconhecimento da capacitação segue um padrão que é pensado do ponto de vista masculino. A mulher, de alguma maneira, tem modus operandi diferente do homem, e a forma como ela trabalha não é reconhecida. Mudar isso é um processo, que ainda precisa ser muito discutido.

Portal Adverso – O que mais poderia ser feito em termos de ações, para diminuir os obstáculos a uma maior participação feminina na ciência?

Nadya Pesce - Com relação à maternidade, algumas propostas estão em análise. Por exemplo, quando a mulher tem um filho, o reconhecimento da produção curricular seria relativizado, ou seja, por dois anos a sua produção científica seria julgada de maneira diferenciada, levando em conta a outra atividade desempenhada por ela, que é cuidar do filho.  

Na questão da participação em comitês de assessoramento científico e congressos internacionais, é necessário colocar cotas de participação de pesquisadoras, para que o trabalho delas, sendo mais expostos, tenham mais reconhecimento. É assim que vamos mudando a cultura de que é estranho determinado cargo ser exercido por uma mulher. Normalmente, as mulheres são relegadas a posições subalternas - de vice, até pouco tempo. Essa realidade precisa mudar, mas sabemos que não se muda do dia para noite, depende de muita participação e de muito apoio. Então, existe uma discussão sobre até onde vai o preconceito. Eu acho que estamos ultrapassando esses limites. Antes se acreditava que o homem era escolhido por ser mais competente, mas hoje se sabe que as mulheres têm a mesma competência e as mesmas condições, porém, naturalmente, a indicação ainda é de homens.

Perfil

Nadya Pesce da Silveira possui graduação em Química Industrial pela Universidade Federal de Santa Maria (1981), mestrado em Química pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1989), doutorado em Química pela Universität Bielefeld, na Alemanha (1994), e Pós-Doutorado na Université Joseph Fourier, Grenoble, França (2002). Atualmente é professora Titular do Departamento de Química Inorgânica do Instituto de Química da UFRGS, atuando principalmente na Química Geral e Diretora do Instituto de Química da UFRGS (2018). Já foi vice-coordenadora e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Química da UFRGS e vice-chefe do Departamento de Química Inorgânica da UFRGS. Foi diretora-científica e diretora-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS).

 http://www.portaladverso.com.br/noticia/748/Ass%C3%A9dio%20%C3%A9%20real%20e%20impede%20crescimento?fbclid=IwAR3_mZYYCxYFa1CZV7rnB3Z7xOkhUe5HPqUPuw7NH2XhpiHSj7HTZZ3NS-o 

 

CNPq é criticado após perguntar 'qual pesquisadora é sua musa?', no Dia Internacional de Mulheres na Ciência

A pergunta foi feita no Twitter; 'Musa? Virou concurso de beleza?", questionou um internauta

"Só reforça os preconceitos contra os quais lutamos diariamente", apontou outra pessoa no Twitter. Ainda nos comentários, internautas pedem que o CNPq se retrate. Em tom irônico, um perfil provoca: "Essa vergonha aí que o CNPq tá passando vai pro Lattes?".

Para a física e professora do Instituto de Física da UFRJ Tatiana Rappoport, o CNPq incorreu num erro "bastante comum", que é, segundo ela, o de tentar elogiar as mulheres na ciência pela sua aparência. Apesar da iniciativa ser "simpática", ela pondera que o post mostra que as mulheres ainda vão precisar de "muitos 11 de fevereiro" (Dia Internacional de Mulheres na Ciência) para terem o espaço que merecem na área. 

— Foi importante lembrarem da data, mas esse tweet deixa implícito que as mulheres não são vistas como pesquisadoras que se destacam por seu trabalho de pesquisa, e sim por serem musas ou não — diz Rappoport.

Em nota, o CNPq enumerou diversas ações que desempenha com objetivo de "fomentar a participação de meninas e mulheres nas ciências e tecnologias" e projetos "de divulgação sobre mulheres na ciência". Essas iniciativas, aponta, mostram o "compromisso da instituição no combate às desigualdades ainda existentes quanto à participação das mulheres no campo da ciência".

Segundo a instituição, a intenção com o post foi "exaltar as mulheres cientistas em data tão significativa, não só pela importância de suas atuações para a ciência brasileira e mundial, mas, também, como fonte de inspiração para que mais meninas e mulheres estejam à frente de pesquisas e estudos científicos e tecnológicos". 

Unesco pede desculpas após críticas por falta de diversidade

Na última sexta-feira, também no mote da data, a Unesco recebeu críticas por falta de diversidade após publicar no Twitter uma ilustração apenas com mulheres brancas retratadas. O texto que acompanhava a imagem dizia: "A ciência não tem gênero! (...) Precisamos apoiar as mulheres e meninas que escolhem a ciência!".

Em resposta aos comentários dos internautas, o órgão internacional respondeu que o "ponto" trazido havia sido "aceito". "Você está absolutamente certa e pedimos desculpas por isso, porque, na verdade, estamos falando de TODAS AS MULHERES E MENINAS, independentemente de sua origem".

Nesta segunda-feira, O GLOBO publicou reportagem sobre a participação das mulheres na Ciência, mostrando que elas são maioria nas universidades, mas, ainda assim, não coordenam estudos científicos .

Como apontou a reportagem, levantamentos mostram como as mulheres assinam cada vez mais artigos, ampliaram seu registro de patentes e parcerias internacionais. Brasil e Portugal são os países com maior equidade de gênero no mundo científico, deixando para trás os Estados Unidos e a União Europeia. Ainda assim, há muitos desafios pela frente, como debater os cargos e os financiamentos disponíveis para elas.

Leia a nota do CNPq na íntegra

"O CNPq integra, desde 2005, o Programa Mulher e Ciência, cujo objetivo é fomentar a participação de meninas e mulheres nas ciências e tecnologias e tem contado várias ações ao longo do tempo tais como: Encontros Pensando Gênero e Ciências, Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero, Chamada de Apoio à pesquisa sobre mulheres, gênero e feminismos e Chamadas para atração e permanência de jovens e meninas nas Exatas, Engenharias e Computação.  Além disso, o CNPq tem promovido projetos de divulgação sobre mulheres na ciência: Pioneiras na Ciência, Jovens Pesquisadoras, dentre outros. O CNPq também já tomou medidas de equidade importantes como a prorrogação da bolsa em caso de parto ou adoção para algumas modalidades.

Isso mostra o compromisso da instituição no combate às desigualdades ainda existentes quanto à participação das mulheres no campo da ciência, incluindo a luta contra todo tipo de estereótipo construído ao longo dos anos em torno da imagem da mulher.

Reforçamos que, em consonância com todo esse histórico de ações, a intenção da instituição foi exaltar as mulheres cientistas em data tão significativa, não só pela importância de suas atuações para a ciência brasileira e mundial, mas, também, como fonte de inspiração para que mais meninas e mulheres estejam à frente de pesquisas e estudos científicos e tecnológicos".

https://oglobo.globo.com/sociedade/cnpq-criticado-apos-perguntar-qual-pesquisadora-sua-musa-no-dia-internacional-de-mulheres-na-ciencia-23446596 

 

 




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