Mulheres Feministas

Mulheres Feministas

 

 

 

Então meu povo, o que está me incomodando mesmo nesse auê todo em torno da tal pastora que viralizou não é a importância indiscutível do tema que ela abordou. Jamais. Quem argumenta isso vê a coisa muito superficialmente. O que me incomoda é a tentativa POLÍTICA de transformar uma figura alinhada a estruturas conservadoras em símbolo inquestionável da libertação das mulheres -- como se DÉCADAS de luta feminista pudessem ser substituídas por um momento viral emocionalmente satisfatório pro público.

E isso realmente chateia porque existe uma assimetria brutal na compreensão popular sobre relevância.

Feministas estão há décadas sendo ridicularizadas, perseguidas, chamadas de histéricas, destruidoras da família, inimigas de Deus, “feminazis”, demoníacas, sujas, imorais. Mas, foram mulheres feministas que apanharam e apanham politicamente, socialmente e institucionalmente TODO SANTO DIA para que hoje exista linguagem, leis, prevenção, justiça e acolhimento institucional e também debate público sobre violência doméstica. Ou seja, enfrentamento de fato.

Daí vem uma figura validada pelo conservadorismo religioso, faz um discurso esterilizado* aceitável dentro de um espaço historicamente hostil às feministas, e imediatamente setores da sociedade, inclusive setores historicamente demonizados pelo universo conservador e começam a enxergar a coisa como um puta salto evolutivo pras mulheres cristãs...

Ô gente, misericórdia, isso apaga história política concreta.

Entendam que existe uma lógica-base impossível de ser simplesmente ignorada uma hora dessas:

O feminismo constrói estrutura de proteção para mulheres.

O conservadorismo combate, destrói o que com tanto custo essa construção.

E piora tá? Porque tudo que é perverso EVOLUI:

Depois, quando só combater e destruir abertamente a coisa, pega muito mal, aprimora-se a tecnologia: o conservadorismo absorve parcialmente a pauta...

E então recebe aplauso como se tivesse protagonizado tudo!

Esse mecanismo não é novo. Aconteceu com direitos trabalhistas, combate ao racismo, direitos LGBT e agora, violência doméstica. Primeiro demonizam quem sempre denunciou e lutou contra. Depois, quando a pressão social fica incontornável, reciclam parte da pauta numa versão domesticada, emocional e despolitizada, sem tocar nas estruturas que produzem o problema.

Será que tão me entendendo?

Porque tem horas que eu acho que estou falando uma língua alienígena aqui...

E existe uma camada ainda mais grave nisso tudo: dentro de muitos ambientes religiosos conservadores, a violência contra mulheres quase nunca é tratada como estrutura patriarcal. Ela é reduzida a “desvio moral individual”. Jamais vão esclarecer os fiéis sobre que a base estrutural da religião cristã é o patriarcado e que este não admite subversões.

Não há reformas possíveis dentro de algo que é o sustentáculo do que chamam "palavra de Deus " -- a Bíblia.

Fala-se do “homem agressor”, mas não da CULTURA CRISTÃ ser edificada sobre a submissão feminina, biblicamente. Não vão afrontar a autoridade masculina de verdade, no dia a dia, causando rupturas no sistema. Não vão deixar de colocar as vítima como "insubordinadas", por tentarem se livrar de quem as oprime e violenta. No dia a dia, fora do espetáculo dos grandes congressos, a realidade é bruta!

Não vão fortalecer a independência econômica feminina.

Não vão parar de demonizar o feminismo histórico.

Não vão dar apoio político a projetos que promovam realmente políticas públicas de proteção às mulheres.

A irmãzinha da igreja X do pastor fulano de tal que se vire!

Que se salve sozinha, se puder, ou se lasque.

Essa é a realidade nua e crua que NÃO VAI VIRALIZAR no Congresso mais fodástico das galáxias neopentecostais.

Então não, isso não é sobre uma implicância pessoal com uma pastora específica.

Não é que eu estou "descredibilizando a fala de uma mulher..."

Não é que eu "não conheço o mundo evangélico..." kkkkkkkkkkk será que não?

É sobre perceber um mecanismo histórico de apagamento: mulheres feministas, inclusive mulheres feministas evangélicas -- porque sim, elas existem, há décadas constroem a luta no mundo todo, enfrentam a violência estrutural das formas mais pesadas possíveis, produzem teoria, pressionam o Estado, dão a cara pra bater, sofrem com a violência estatal, conquistam direitos na raça -- PRA TODO TIPO DE MULHER, INCLUSIVE AS EVANGÉLICAS NÃO-FEMINISTAS, e depois figuras conservadoras são projetadas POLITICAMENTE como “salvadoras” sem jamais terem sustentado historicamente o peso dessa batalha.

E detalhe: ninguém salva ninguém. Meios de libertação de opressões, de conquista de autonomia, de acesso a justiça, de enfrentamento das desigualdades sociais, PRA TODAS, são construídos coletivamente.

Ninguém tem poder pra revolucionar nada sozinha.

Discurso emocionante sem transformação estrutural não basta.

Mulheres não precisam de heroínas ocasionais legitimadas pelo conservadorismo.

Precisamos de direitos, proteção, autonomia e enfrentamento real das estruturas que produzem violência todos os dias. Isso sim. E nisso, geralmente, não contamos com o apoio de lideranças evangélicas conservadoras como a pastora em questão.

Mulheres como Damares Alves, Michelle Bolsonaro e afins são exemplo disto.

Eu realmente lamento.

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* Por que esterilizado? Por não ter substância revolucionária. Por não oferecer suporte institucional nenhum, por jogar nas costas das próprias mulheres e crianças abusadas, que elas que deem conta ~sozinhas~ de cavar sua libertação. Por ter por trás do belo discurso uma máquina potente gigantesca, histórica, QUE NÃO FOI QUESTIONADA NO DISCURSO, máquina religiosa de massacre de mulheres e crianças, sem intenção nenhuma de recuar de sua missão opressora.

Apontar que há maridos e pastores, isoladamente, que são abusivos, não é questionar o sistema. É pinçar desvios individuais.

Quem questiona sistema ~ DE CIMA À BAIXO~ desde sempre, são as mulheres feministas.

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Gi Stadnicki

FONTE:

https://www.facebook.com/giovanna.stadnicki?locale=pt_BR 




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