Neeja Paulo Freire, divide espaço

Neeja Paulo Freire, divide espaço

Obrigada a dividir espaço com bombeiros, Neeja Paulo Freire ilustra crise na educação de jovens e adultos no RS

Escola que funciona em três turnos perde salas, doa acervo e adapta espaços após decisão da Seduc

Bettina Gehm

Foto: Marcelo Pires/Sul21

 

Quem passa pelo número 59 da rua Felipe de Oliveira, no bairro Petrópolis, pode achar que o prédio abriga somente o Corpo de Bombeiros. Afinal de contas, o muro foi recém pintado de um vermelho vivo e do outro lado da rua funciona o Comando-Geral da corporação. Na verdade, o prédio é uma escola: o Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos (Neeja) Paulo Freire, mais especificamente. Uma escola estadual que divide espaço com os bombeiros e que, por isso, está tendo as salas de aula reduzidas pela metade. Além disso, está doando parte do acervo da biblioteca porque o espaço para os livros também ficou pequeno. Mas, apesar de tudo, um local onde quem não conseguiu concluir os estudos encontra uma nova chance.

O Neeja Paulo Freire passou a funcionar neste endereço em março de 2024. O prédio que ocupava havia 38 anos, no bairro Auxiliadora, foi fechado para reforma do telhado. Já o imóvel da rua Felipe de Oliveira havia recém sido desocupado pela educação infantil do Instituto de Educação, que voltou para o prédio histórico na Osvaldo Aranha após uma reforma que levou oito anos. Foi então que o Neeja se mudou com toda a mobília escolar para a Felipe de Oliveira.

Cerca de uma no e meio depois, em outubro de 2025, a equipe diretiva teve uma surpresa: após decisão da Seduc, que veio “de cima para baixo”, a escola passaria a dividir espaço com a Seção de Controle Escolar (Secoe), responsável pelo histórico escolar e transferência de alunos na rede estadual. O setor teve sua sede na rua Washington Luiz atingida pela enchente, e depois passou por diversas mudanças de endereço. Três salas do Neeja Paulo Freire foram cedidas para o Secoe.

Em fevereiro deste ano, mais uma vez, novos ocupantes chegaram à escola. Passado o feriado de Iemanjá, o diretor Gabriel Bandeira e o vice-diretor Sílvio Alexandre receberam uma visita da equipe da subsecretaria de infraestrutura da Seduc. A nova surpresa: os servidores vieram acompanhados de cerca de 20 bombeiros – o que a equipe diretiva não sabia é que a presença da corporação na escola seria rotina daquele dia em diante.

“Aí que a gente foi informado que iríamos dividir o espaço com o Corpo de Bombeiros”, relembra o diretor Gabriel. “Nós falamos que já estávamos dividindo o espaço com o Secoe, e nem eles [a subsecretaria] sabiam. Mostramos o setor e tudo, os colegas trabalhando aqui em cima. E eles ficaram muito surpresos, disseram que [a vinda dos bombeiros] era uma coisa que estava sendo debatida havia oito meses com a Seduc”.

 
Muro do Neeja Paulo Freire. Foto: Marcelo Pires/Sul21

A sede do Comando-Geral dos Bombeiros na rua Silva Só, cuja lateral fica em frente ao Neeja, está em reformas. Nesse meio tempo, centenas de novos profissionais foram chamados para integrar a corporação. Eles precisam passar por um período de cursos preparatórios, e o local encontrado para que ocorram as aulas foi o prédio do Neeja. Mas, em oito meses de tratativas, ninguém da escola foi avisado sobre isso.

“Num dia a gente recebeu essa informação, no dia seguinte eles estavam pintando o muro de vermelho e se mudando”, relembra o diretor.

A mudança dos bombeiros para o prédio do Neeja reverberou em diversos aspectos. Os alunos ficam confusos sobre o funcionamento da escola, pensando que ela pode vir a fechar. Os professores também se sentem inseguros quanto a isso. Ao mesmo tempo, a rotina escolar foi totalmente alterada com a presença da instituição militar, e o prédio está passando por reformas para comportar todo mundo. As mudanças evidenciam dados que o Censo Escolar mostra há alguns anos: a EJA sendo escanteada e encolhida com o passar do tempo.

“A gente recebe mensagem dos estudantes dizendo: tá, mas a escola vai fechar?, porque a gente recebe informações desencontradas de um dia para o outro”, relata Gabriel. 

Quando o Sul21 visitou o Neeja Paulo Freire, muitos aprendizes de bombeiro circulavam pelos corredores. A equipe diretiva garante que eles são educados e solícitos, e reconhece que a corporação não é culpada pela situação peculiar. Mas os gritos de ordem e o barulho de botas marchando frequentemente tiram a atenção dos alunos. No entra e sai de indivíduos fardados, a reportagem presenciou duas pessoas procurando a escola pelo que ela se propõe a ser. Um rapaz foi se matricular – o Neeja recebe matrículas o ano inteiro – e outro, segurando um capacete de motociclista, pedia o certificado de conclusão dos estudos.

 


Bombeiros em formação circulam pelo Neeja Paulo Freire. Foto: Marcelo Pires/Sul21

Inicialmente, foi combinado que os bombeiros ocupariam duas salas da escola. Mas o espaço logo se mostrou insuficiente para a corporação, que partiu para negociações com a Seduc. Foi lhes prometido que, se o Secoe liberasse as três salas que ocupava, elas poderiam ser usadas para o curso de formação dos bombeiros. Assim, o setor foi retirado da escola em março. 

“Então, duas salas viraram cinco e aí a gente, por uma questão de logística, negociou: liberamos todo o segundo andar para os bombeiros, assim ficaria mais fácil eles circularem só por um ambiente e nós pelos outros”, explica Gabriel. “Mas o Corpo de Bombeiros continuou pressionando, porque cinco salas para eles ainda não seria suficiente. Nesse momento, a subsecretaria de infraestrutura entendeu que era hora de negociar com a escola. Só que era uma negociação em que sabíamos que teríamos de fazer um recuo muito grande”.

Em reunião entre os bombeiros, a direção da escola e os representantes da Seduc, ficou decidido que dois andares inteiros do prédio serviriam para a instituição militar e o Neeja ficaria com o restante das salas de aula. Só que nenhuma dessas negociações resultou em algum documento por escrito, até o dia 9 de abril. Nessa data, foi oficializado: o terreno da rua Felipe de Oliveira, número 59, agora está sob responsabilidade do Corpo de Bombeiros. Até que as obras do antigo prédio do Neeja, na rua Coronel Bordini, fiquem prontas, a corporação vai dividir espaço com a escola. Ou seja: a situação do Neeja dividindo espaço com os bombeiros se inverteu completamente. Quando a escola voltar para o endereço antigo, a corporação ficará com todo o espaço do prédio atual.

O problema é que na parte do prédio deixada para o Neeja há mofo no teto, a elétrica está comprometida e faltam lâmpadas. Os espaços serão reformados pela escola com o montante enviado pelo governo do estado através do programa Agiliza. “É um valor que a gente poderia investir em outras frentes, outras questões mais urgentes que a gente poderia enfrentar, mas essa é a questão urgente do momento”, pontua Gabriel.

As salas de aula que sobraram foram divididas ao meio com paredes de MDF para que cada sala seja transformada em duas, bem estreitas. Os professores se preocupam que o som de uma aula vaze para a outra, já que o material não é o melhor em termos de acústica. A divisão dos espaços também foi sendo feita na sala dos professores, e a secretaria vai mudar de lugar. Essas divisórias foram custeadas pelos próprios bombeiros, e as obras levaram menos de uma semana.

 


Divisória de MDF em uma das salas do Neeja Paulo Freire. Foto: Marcelo Pires/Sul21

“As salas não estão sempre lotadas, mas elas poderiam comportar 30 alunos, se fosse o caso. Com a divisória agora no meio, nós vamos ter salas que vão comportar no máximo 14”, detalha o diretor do Neeja. 

Vai faltar espaço para todo o acervo da biblioteca e, por isso, a escola está doando livros. O espaço de convivência dos alunos também foi reduzido. Além disso, a escola não vai poder realizar projetos que a direção idealizava: “antes de o Secoe vir para cá, estávamos discutindo o uso dos espaços para oficinas, parcerias com a Faced [Faculdade de Educação da UFRGS], sarau e outras coisas”, relembra Gabriel. “Tinha até a ideia de trabalhar com alunas de pedagogia da UFRGS para oferecer uma espécie de mini berçário, porque nós temos muitas alunas que vêm com bebê de colo. Infelizmente, a gente não vai mais ter como fazer”, lamenta. 

Os bombeiros receberam mobília escolar nova, a antiga ficou com o Neeja. Mas as salas, agora reduzidas, não comportam todas as carteiras. Parte dos móveis será doada, já que a escola ainda guarda itens usados anteriormente pela educação infantil. São mesas, banquinhos e até privadas de tamanho infantil, que ninguém veio recolher e formam uma pilha de objetos no pátio.

 


Mobília da educação infantil, que não funciona mais no Neeja, segue acumulada
no pátio da escola. Foto: Marcelo Pires/Sul21

“Nunca nos foi dito que a gente mudaria para cá de maneira definitiva. Não, é provisório até o prédio [do bairro Auxiliadora] ser reformado. Mas a gente sabia, olha, uma obra do estado, o Instituto de Educação, demorou dez anos para ficar pronto. Ou seja, a gente já tinha na nossa cabeça, claro que não de uma maneira oficial, que não seria um exagero pensar que a gente ficaria pelo menos uns 10 anos aqui até a obra lá ser finalizada”, pondera Gabriel. “Então a gente estava tentando construir essa identidade local. Só que não se constrói isso de um ano para o outro. As pessoas passam aqui pela Felipe de Oliveira, olham e dizem: será que está funcionando alguma coisa aqui dentro?. Então, isso é muito complicado para nós”.

Procurada pela reportagem, a Secretaria da Educação (Seduc) informou que, em acordo com a direção escolar do Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos (Neeja) Paulo Freire, o Corpo de Bombeiros Militar (CBM) começou a ocupar salas de aula gradativamente no imóvel localizado na Rua Felipe de Oliveira, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre. A Seduc diz que o prédio original da instituição de ensino, localizado na Rua Cel Bordini, no bairro Auxiliadora, em Porto Alegre, entrará em reformas, possibilitando futuramente o retorno do Neeja para o espaço.

Atualmente, a Secretaria de Obras Públicas (SOP) está elaborando o orçamento para a reforma total das instalações originais do Neeja Paulo Freire, mas a Seduc estima que os serviços devem começar até o fim do primeiro semestre.

A pasta diz ainda que realizou um amplo movimento para expansão da oferta de EJA no ano de 2025, “de modo a estimular a conclusão dos estudos por parte de jovens e adultos que tiveram de abandonar sua vida estudantil”. “A partir desta ação, a Seduc oferta aos estudantes da EJA, desde o ano passado, a Educação de Jovens e Adultos integrada à Educação Profissional e Tecnológica  (EJATEC), modalidade que permite formação em educação profissional, além do certificado de conclusão dos estudos, e o Todo Jovem na Escola, que paga bolsas mensais como forma de incentivo à permanência dos estudantes”, diz reposta da Seduc.

No entanto, a Secretaria não respondeu aos questionamentos do Sul21 a respeito dos impactos na rotina pedagógica da escola causados pela mudança.

Daphnée Philogene estava tendo aula de matemática quando o Sul21 visitou o Neeja Paulo Freire. Era o segundo dia dela na escola. Formada em História no seu país de origem, o Haiti, ela não conseguiu validar o diploma no Brasil. Atualmente, Daphnée trabalha como babá e está buscando o diploma brasileiro de ensino médio para depois cursar design gráfico. Ela mora na zona norte da Capital e pega dois ônibus para chegar até o bairro Petrópolis.

“Eu me sinto acolhida, as pessoas acolhem muito bem. Eu tenho que passar por todo esse processo, mas eles também estão me entendendo, eles entendem a dificuldade que eu tenho para fazer tudo e a necessidade que eu tenho de fazer”, comenta sobre a equipe da escola.

 


Imigrante do Haiti, Daphnée Philogene está buscando revalidar o diploma no
Neeja Paulo Freire. Foto: Marcelo Pires/Sul21

Há dez anos no Brasil, Daphnée descobriu recentemente a existência do Neeja. “Para mim, é uma escola que o governo tem que dar mais apoio, porque é uma escola que está fazendo um trabalho extraordinário. Tem muitas pessoas que não conseguem estudar de manhã, de noite, mas aqui dá um espaço para, se a pessoa tem disponibilidade de manhã, estudar de manhã, se tem disponibilidade de tarde, estudar de tarde, se tem disponibilidade de noite, estudar de noite. Uma escola que tem uma estrutura assim, o governo tem que dar mais apoio, para ajudar a divulgar, porque os professores…  o professor de Matemática tem um aplicativo, é muito bacana o jeito que ele está me passando a matéria, uma coisa extraordinária. Mesmo a escola fazendo a parte dela para divulgar, o governo também tem que ajudar”.

Não é incomum que os Neeja recebam imigrantes como Daphnée, que precisam revalidar seus diplomas. Diferente da EJA tradicional, que tem uma grade de horários semestral definida, os Neeja permitem que o aluno crie sua própria grade de horários e estude quando tem disponibilidade.

“Uma vez estando no mercado de trabalho, se o aluno tem que trabalhar no mesmo horário que coincidiu com a aula dele, ele vai abandonar a escola. Ele não vai permanecer na escola, ele precisa botar alimento dentro da casa dele. Infelizmente, essa é a nossa realidade”, explica o diretor Gabriel, exemplificando como o Neeja amplia possibilidades para quem trabalha e estuda. “Também existem pessoas que, por exemplo, não têm um tempo fixo para estudar. Que em alguns momentos têm a noite disponível, em outros não, porque pegam algum bico durante a noite. E geralmente a EJA é oferecida no período noturno, porque pega justamente as pessoas que trabalham no horário comercial”.

Por isso, o público do Neeja é muito diverso, como explica o vice-diretor Sílvio Alexandre. Além de imigrantes, a escola acolhe a população LGBT que abandonou os estudos por sofrer discriminação no ensino regular; ensina quem trabalha como vigilante durante a noite toda e vem direto do serviço; quem trabalha no shopping e tira um dia de folga na semana, dia em que vai passar os três turnos na escola; não “roda por falta” quem só tem dinheiro para a passagem no início do mês e só consegue cursar as matérias nesse período. Funciona em janeiro e fevereiro, atendendo quem usa as férias de verão para concluir os estudos. “A gente brinca: dos 18 aos 90, pode vir”, diz Sílvio.

 


Quadro exposto no Neeja Paulo Freire mostra os sonhos de quem volta a estudar
depois de adulto. Foto: Marcelo Pires/Sul21

Além disso, o Paulo Freire é o único Neeja, dentre os cinco que a Seduc mantém em Porto Alegre, que oferece alfabetização além dos anos iniciais, anos finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio.

Apesar da importância, a EJA – e consequentemente os Neeja – tem encolhido no Rio Grande do Sul. Dados do Censo Escolar compilados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostram que a modalidade de ensino teve, em 2025, 64% menos matrículas do que em 2019 na rede estadual. Em números absolutos, são quase 46 mil pessoas que desistiram de voltar a estudar. 


 

Houve um aumento de 849 matrículas (3,4%) na EJA da rede estadual entre 2024 e 2025. Mesmo assim, a modalidade é a que mais decaiu, percentualmente, nos últimos sete anos. Enquanto isso, o IBGE mostra através da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua que 42 a cada 1.000 pessoas de 14 a 18 anos estava fora da escola e sem concluir o Ensino Médio no terceiro trimestre de 2025.





“As matrículas na EJA diminuíram, mas não é porque há menos interessados. É porque o governo cria dificuldades: fecha turmas, fecha turnos”, pontua Sílvio. “Nós atendemos 1.100 alunos no ano passado. Mas, nesse modelo de funcionamento do Neeja, nós poderíamos atender 3.000 pessoas ou mais, desde que a mantenedora, que é a Seduc, nos deixasse trabalhar”.

A escola, como detalha Sílvio, funciona manhã, tarde e noite – mas dispõe de apenas um secretário, que trabalha 40 horas. Além disso, não tem o quadro completo de professores. “O aluno já tem uma série de dificuldades, tem a violência urbana, tem a Prefeitura de Porto Alegre dificultando ao máximo o Tri Escolar. E o governo estadual ainda desestimula. Nós não temos nem merenda aqui”, salienta o vice-diretor. “Quando a gente briga com o governo, a gente não está brigando só por brigar. Estamos brigando pelo direito dos jovens, adultos e idosos estudarem com dignidade”, acrescenta.

A mudança do Neeja Paulo Freire, em 2024, aconteceu para que o telhado do prédio no bairro Auxiliadora fosse consertado. No entanto, de lá para cá, nenhuma obra foi executada, e a situação do imóvel piorou. “Foi vandalizado, saqueado. A Secretaria de Educação simplesmente abandonou o prédio”, afirma o diretor.

A equipe do Sul21 esteve no local e sobrevoou o prédio com drone, confirmando que o imóvel está abandonado. Há lixo no chão, o quadro de luz foi retirado e os bancos foram depredados. O telhado continua esburacado. 

A direção fez boletins de ocorrência sobre as invasões e os encaminhou à Seduc, mas não teve retorno até hoje. A solução encontrada pela equipe foi, por conta própria, acorrentar o portão do prédio antigo e ficar com a chave do cadeado. 

 


Antiga sede do Neeja Paulo Freire, no bairro Auxiliadora. Foto: Marcelo Pires/Sul21

Antiga sede do Neeja Paulo Freire, no bairro Auxiliadora.
Foto: Matheus Leal/Sul21

Quanto às obras no prédio antigo, a Seduc chegou a dizer que tudo estaria pronto até agosto deste ano. Até agora, a reforma não começou. Em uma segunda reunião, no mês de março, a Secretaria de Obras revelou a situação real do imóvel no bairro Auxiliadora: nas invasões, toda a rede elétrica foi roubada. O que era apenas um problema no telhado deu lugar à necessidade de uma reforma total no imóvel. 

“Foi tudo muito ruim, tudo muito atropelado, e aí a gente tinha que ir sempre pescando as informações”, afirma Gabriel. Dentre as parcas informações obtidas, a de que o processo de licitação para contratação da empresa que vai fazer a reforma leva 90 dias. “A gente fez o cálculo que, se a partir do dia da reunião fosse aberto o processo – e a gente sabe que não foi no dia –, só em junho a gente teria a contratação da empresa. As obras vão iniciar após essa contratação. A partir de julho ou agosto se iniciariam as obras, de fato”.

Foi então que surgiu uma segunda promessa da Secretaria: a de que o Neeja Paulo Freire voltaria ao endereço original no início do ano letivo de 2027. No entanto, outra informação “pescada” pela direção é que a obra levaria cerca de um ano. Ou seja, se começar na metade deste ano, não vai ficar pronta no início do ano que vem. 

 


Antiga sede do Neeja Paulo Freire, no bairro Auxiliadora. Foto: Marcelo Pires/Sul21

Antiga sede do Neeja Paulo Freire, no bairro Auxiliadora. Foto: Marcelo Pires/Sul21

Quando o Neeja Paulo Freire estava prestes a mudar de endereço, essa era uma preocupação da comunidade escolar. Em entrevista ao Sul21 na época, o então professor e agora vice-diretor Sílvio Alexandre explicou que a localização da escola, que funcionava na rua Coronel Bordini, era favorável para os alunos atendidos pela instituição. “É um bom local para os alunos, que vêm de mais de 40 bairros da Zona Norte e de cidades da Região Metropolitana”, disse.

A aluna Daphnée, por exemplo, pegaria somente um ônibus e depois teria uma caminhada de cerca de 15 minutos para chegar ao endereço no bairro Auxiliadora. Para chegar à escola no primeiro dia de aula, no entanto, ela gastou R$ 60 em transporte por aplicativo por causa das informações desencontradas sobre onde fica o Neeja – por mais que a direção se esforce para informar os alunos.

Embora mais acessível para os moradores da Zona Norte, o bairro Auxiliadora, onde funcionava o Neeja até 2024, é um dos bairros mais caros da Capital. A especulação imobiliária atua com força por ali. Atualmente, o prédio está cercado por empreendimentos novos ou quase prontos.

Outro questionamento da comunidade escolar na época era quanto à transferência do Neeja para uma região onde já existem mais duas escolas estaduais com a mesma proposta. Em Porto Alegre, há cinco Neejas.

Eles estão distribuídos conforme o mapa abaixo.

 

“Aqui acaba sendo, de uma certa maneira, mais central do que o nosso endereço na Auxiliadora. Lá, a gente atendia público de toda Porto Alegre, mas majoritariamente da zona norte. Aqui, a gente atende um público da Grande Porto Alegre e de Porto Alegre mesmo, só que o nosso público agora é muito mais variado”, explica o diretor Gabriel. “Pensando um pouco a logística da cidade, às vezes é muito fácil uma pessoa da zona norte chegar no bairro Auxiliadora, mas não é tão fácil para essa mesma pessoa da zona norte chegar no IAPI. Mas aqui, por exemplo, se a gente pega um ônibus para ir até o Julinho [Colégio Estadual Júlio de Castilhos], na João Pessoa, leva nem dez minutos. Então, está tudo concentrado aqui. Há três Neejas concentrados nessa região”.

“Tem pessoas para quem seria muito importante ter mais turmas de EJA, por exemplo, lá no Sarandi, lá na Restinga, aquelas pessoas que chegam do trabalho, passam em casa e vão para a escola. Vão para a aula de EJA, que é aquela aula semestral, com controle de frequência. É um outro perfil, e tem público”, acrescenta Sílvio. “Para pôr em prática o discurso da educação dos políticos, teria que abrir turmas de EJA nas escolas, nas associações de bairros, nas igrejas. Um mutirão, na verdade”.

Já a especulação imobiliária continua sendo uma preocupação no novo endereço. “Daqui a pouco, quando finalizarem as obras ali do outro lado da rua [na sede do Comando-Geral dos Bombeiros], não sei se eles vão abandonar o prédio aqui…”, pondera Gabriel.

“Aqui [na esquina da Av. Ipiranga com a rua Silva Só, próximo ao Neeja] tinha o Ginásio da Brigada, foi feito um acordo e vendido para a Melnick. Aqui [ao lado da escola] recém foi entregue um prédio novo”, exemplifica.

Enquanto esse futuro nem tão distante não chega, o objetivo da equipe diretiva é que a população fique informada: na rua Felipe de Oliveira, número 59, funciona um Neeja. Apesar de uma placa indicativa no endereço e de uma faixa, no endereço antigo, comunicando a mudança, muita gente se confunde. A pesquisa no Google mostra o endereço do bairro Auxiliadora e, ao chegar lá, as pessoas se deparam com um prédio abandonado. Mas, no bairro Petrópolis, a escola está funcionando, com matrículas abertas o ano todo.

A Secretaria Estadual de Educação foi procurada pela reportagem, mas não respondeu até o fechamento da matéria. O espaço segue aberto. 


Equipe diretiva do Neeja Paulo Freire: o diretor Gabriel Bandeira (centro) e os
vice-diretores Sílvio Alexandre e Danúbia Ethur. Foto: Marcelo Pires/Sul21FONTE:

https://sul21.com.br/noticias/educacao/2026/04/obrigada-a-dividir-espaco-com-bombeiros-neeja-paulo-freire-ilustra-crise-na-educacao-de-jovens-e-adultos-no-rs/?ref=matinal.org




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