O golpe em processo
O golpe em processo, o golpismo em movimento
25.ago.2025

Não há evidência, de qualquer tipo, que permita concluir que se vive uma “normalidade”
política no Brasil - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Buscando outro viés explicativo, Carlos Fico** igualmente nos oferece elementos para concluir que os golpes de Estado, tantos os bem-sucedidos quanto os malsucedidos, são resultados de diferentes interesses e do resultado das confrontações de forças sociais e políticas. Demonstra Fico como em instituições fechadas, como as Forças Armadas, especialmente elas, são forjados e desenvolvidos valores ideológicos que estão na base dos processos golpistas no país. O desprezo pela política e o sentimento de superioridade ética embalam muito dos atos discursivos que alimentam as condições sociais, em especial incidindo na opinião pública, favoráveis aos desfechos golpistas e insurrecionais.
Golpes de Estado são um projeto, não somente uma iniciativa. São resultado de experimentações e organização de ideias e de plataformas políticas, além da decisão de setores contrariados a reverter a ordem política. Mas é preciso haver um contexto de crise econômica que possa ser escalado para uma crise de valores, a fim de se criarem as condições suficientes para algum ousado sujeito político tomar a iniciativa da ruptura e ser seguido e sustentado pelos demais. Foi assim em 1964.
A despeito da contumaz desídia política e intelectual que caracteriza um largo espectro de forças democráticas, de liberais progressistas a comunistas, passando por social-democratas e centristas, a tentativa golpista bolsonarista irrompeu em janeiro de 2023. Os sinais nítidos e contundentes de que a hegemonia democrática liberal de 1985 para cá estava em questionamento já eram perceptíveis. Esta desídia, ou dificuldade de interpretação, levou setores a ilusão de que junho de 2013 significava uma erupção revolucionária. Noutro sentido, diametralmente antagônico, levou à ideia de que estas manifestações não passavam de críticas pontuais por medidas concretas de governo.
Nenhum deles se mostrou acertada. A interpretação predominante nos debates públicos – a exceção foram alguns círculos acadêmicos com audiência obstruída em um mundo de redes digitais- acerca do significado daqueles eventos não foi capaz de identificar o fenômeno central daquele período: a emergência da extrema direita e com ela de um processo de ruptura da ordem democrática.
De crítica em crítica, de bandeira em bandeira, de postagem em postagem, cada vez mais destemperadas e exóticas em relação aos padrões liberais hegemônicos no Brasil, a extrema direita despertou o reacionarismo mais profundo da sociedade, envolta em uma barragem de fogo comunicacional que lhe convenceu que o mundo estava em destruição. Valores e termos como xenofobia, racismo, islamofobia, antissemitismo, supremacismo branco, fascismo, nazismo, neofascismo, neonazismo, eliminação, purificação e substituição étnica, rejeição aos imigrantes, nacionalismo, legislações segregacionistas, regressão democrática, ditadura, tortura, intervenção militar, negação da ciência e da modernidade, eliminação dos adversários, anticomunismo, demônio, anticristo, pecado, “gaysismo” (sic), família tradicional, guerra ao politicamente correto, guerra cultural, – entre outros novos e velhos dogmas e falsificações – ressurgiram na agenda com uma força que não desacelerou até os dias de hoje.
A Ação Penal 2668, que julga a tentativa golpista de 2022/2023, é um fato singular na história brasileira – nenhuma outra tentativa golpista ou mesmo golpe de Estado efetivado foi submetido ao escrutínio de um julgamento na forma do Estado democrático de direito. Lembremos que o Estado Novo foi destituído por um golpe militar em 1945, a Ditadura de 1964 acabou em um processo transacionado firmado pela Lei de Anistia de 1979 e pelo Colégio Eleitoral de 1984 e as impressionantemente inúmeras tentativas golpistas desde a Revolução de 1930 não tenham sido julgadas e apuradas. Por essas e por outras, a força golpista não foi totalmente interditada.
A extrema direita brasileira, em especial a sua fração dirigente – o Bolsonarismo – manteve, de um modo ou outro a ofensiva política. Primeiro mobilizando recursos financeiros, apoios empresariais, bancadas parlamentares para questionar o resultado das eleições e revertê-la, depois articulando-se com o governo estrangeiro de Donald Trump, igualmente de extrema direita e avesso ao rigor da democracia, para obstruir a condenação do núcleo político da tentativa golpista de 22/23.
Este episódio, que envolve a guerra tarifária, a retaliação às instituições soberanas e a tensão militar efetivada por Trump contra o governo Lula e o STF, é a continuidade do processo golpista aberto há anos do Brasil. Porém a gravidade política da situação é que este movimento político, que envolve Trump, não é meramente reativo ao insucesso da intentona de janeiro de 23. Principalmente, é a preparação política para nova tentativa de golpe a partir do resultado das eleições do ano que vem (2026).
A batalha em defesa da democracia não foi vencida, portanto. Passa por enfrentar a guerra de baixa intensidade que Trump promove contra o Brasil, garantir que o STF cumpra seu dever constitucional, tanto na defesa da soberania nacional quanto no julgamento dos golpistas, e que a extrema direita tenha seu caminho em direção a retomada do governo federal interditado. Não há evidência, de qualquer tipo, que permita concluir que se vive uma “normalidade” política no Brasil, no Sul global e no mundo. A ilusão de que o fim da guerra fria significaria a consolidação da democracia liberal levou ao desarmamento do progressismo e da esquerda em todo o mundo. Um custo muito alto para os direitos humanos e para os trabalhadores.
*Dreifus, René Armand. 1964: a conquista do Estado. Ação Política, poder e golpe de classe. Petrópolis: Editora Vozes, 1981.
**Fico, Carlos. Utopia autoritária brasileira: como os militares ameaçam a democracia brasileira desde o nascimento da República até hoje. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025.
***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.