O Moderado
O Moderado
Ele não grita os palavrões — ele os declama. E a imprensa aplaude.
Eu gastei um bom tempo assistindo à manifestação de domingo na Paulista para ver se tínhamos, em Flávio Bolsonaro, o tal moderado que a imprensa anda tentando vender. Confesso que fui com boa vontade. A mesma boa vontade de quem vai a uma churrascaria vegana — torce para funcionar, mas já leva um lanche na bolsa.
O ato "Acorda Brasil" reuniu no mesmo caminhão de som o pré-candidato à Presidência, o deputado Nikolas Ferreira e o pastor Silas Malafaia. Nikolas pediu o impeachment de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli com aquela veemência que lhe é peculiar, a de quem confunde tribuna com ringue. Malafaia foi além: acusou Moraes de corrupção pelo contrato milionário da mulher dele com o Banco Master, chamou o ministro de comprado e exigiu afastamento imediato. Era fogo, enxofre e microfone aberto.
E Flávio? Flávio falou durante 17 minutos. Não citou um único nome de ministro. Criticou Lula. Acenou para as mulheres. Prometeu que seriam "abraçadas e protegidas". E, no grand finale, olhou para a câmera e disse ao pai preso: "Em janeiro de 2027, você vai pessoalmente subir aquela rampa do Planalto junto com o povo brasileiro."
A moderação de Flávio é isso: ele não grita os palavrões — ele os declama. Não quebra o vaso — empurra devagar até a beirada da mesa e faz cara de surpresa quando cai.
A imprensa, encantada com essa diferença de decibéis, resolveu comprar a tese. Flávio seria o "Bolsonaro moderado". Ele próprio se apresentou assim a empresários em São Paulo, com a serenidade de quem anuncia a previsão do tempo: "Sempre pediram um Bolsonaro mais moderado e eu sempre fui assim." A plateia, composta por gente que move PIBs e contrata lobistas, assentiu com a polidez de quem precisa acreditar em alguma coisa para não vender tudo e se mudar para o Uruguai.
Mas o que significa, exatamente, ser o "Bolsonaro moderado"? É como ser o crocodilo vegetariano — a intenção é nobre, mas a dentição compromete.
Porque este é o mesmo Flávio que, em entrevista à Folha de S.Paulo em junho de 2025, explicou com todas as letras que o candidato apoiado pelo pai teria de se comprometer não apenas a conceder indulto ao ex-presidente, mas a garantir que o Supremo não derrubasse esse indulto.
Quando perguntado como isso se daria caso o STF declarasse a medida inconstitucional, o moderado respondeu com uma frase que merecia ser emoldurada e pendurada no Museu da Democracia — se ainda existir um: "É uma hipótese muito ruim, porque a gente está falando de possibilidade e de uso da força. A gente está falando da possibilidade de interferência direta entre os Poderes."
E completou, com a delicadeza de quem puxa o pino de uma granada e diz que é só um exercício teórico: "Tudo que ninguém quer. E eu não estou falando aqui, pelo amor de Deus, no tom de ameaça, estou fazendo uma análise de cenário."
Ah, bom. Falar em "uso da força" contra o STF é só isso — uma análise de cenário. Uma espécie de mestrado em Relações Institucionais pela Universidade do Caos.
O ministro aposentado Celso de Mello, que já viu de tudo neste país, não se deixou embalar pela semântica. Para ele, o golpismo agora é advogado explicitamente, sem qualquer pudor, pela família Bolsonaro. E quem acompanha a trajetória dos filhos do ex-presidente reconhece ali uma velha conhecida — aquela ameaça de Eduardo sobre "cabo e soldado", agora com diploma, gel no cabelo e assessoria de imagem.
Então me perguntei, ali, assistindo ao ato: tá, mas qual é o programa de governo desse candidato?
O silêncio que se seguiu à minha própria pergunta faria inveja a um monge trapista.
Flávio esteve duas vezes com empresários em São Paulo. Em nenhuma delas apresentou uma proposta econômica concreta, um plano de privatizações, uma diretriz fiscal, um rascunho de política industrial. Nem sequer um guardanapo com um gráfico desenhado à mão. O que ofereceu foram críticas genéricas à economia do governo Lula e a promessa de que seria diferente. Diferente como, ninguém sabe. Mas diferente.
O que se sabe, com a clareza de um sol de meio-dia no sertão, é que a missão número um, dois e três da candidatura Flávio é tirar o pai da cadeia. Eduardo Bolsonaro confirmou isso da Flórida, à Fox News, sem o menor constrangimento: se eleito, Flávio concederia perdão presidencial ao pai — e a ele próprio, que também virou alvo de processos. Um programa de governo que cabe inteiro numa tornozeleira eletrônica.
Agora, voltemos à Paulista. Enquanto Flávio modulava a voz e evitava nomes, Nikolas Ferreira — que organizou o ato — fazia o serviço pesado. Chamava ministros pelo nome, pedia cabeças, prometia que "se derrubar um, cai todo mundo". Malafaia, ao lado, vociferava sobre corrupção no Supremo.
E Flávio? Flávio, ao final, agradeceu a Nikolas pela organização, agradeceu a Malafaia, abraçou todo mundo, e disse que o alvo "nunca foi o Supremo".
Percebem o truque? O moderado não precisa gritar porque tem quem grite por ele. Ele fica no mesmo palanque, ouve tudo, agradece, e depois sai de mansinho dizendo que ele, pessoalmente, jamais atacaria as instituições. É a versão política daquela dinâmica de escola: o valentão bate e o amigo segura, depois diz que estava só passando.
Para o eleitor que se diz democrata e está cogitando embarcar nessa, vale um inventário.
Flávio Bolsonaro foi denunciado pelo Ministério Público do Rio por organização criminosa, lavagem de dinheiro, peculato e apropriação indébita no caso das rachadinhas. Foram 483 depósitos na conta de Fabrício Queiroz, vindos de assessores do gabinete. Dezessete acusados. O processo inteiro foi anulado por questão processual — o foro privilegiado —, não por mérito.
O mérito nunca foi julgado. Queiroz era amigo íntimo de Jair Bolsonaro e foi encontrado escondido na casa do advogado da família. Michelle recebeu depósitos de Queiroz que até hoje ninguém conseguiu explicar sem tropeçar na própria frase.
E tem mais, coisa fresca: a administradora do escritório de advocacia de Flávio é irmã de um sócio do "Careca do INSS" — o sujeito no centro do esquema que roubou aposentados — numa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. O próprio Flávio é sócio de uma corretora de seguros fundada em 2022, justamente o período em que as fraudes contra idosos estavam sendo montadas. O PT pede sua convocação na CPMI. Flávio responde que é perseguição e que a moça cuida de burocracia.
Pode ser. Como pode ser que todas as coincidências da vida de Flávio Bolsonaro sejam apenas isso — coincidências. Uma atrás da outra. Numa fila organizada. Com crachá.
Então, caro leitor que se considera democrata, eis o que eu trouxe daquele domingo na Paulista:
Você votaria num candidato cujo único programa de governo conhecido é o indulto ao próprio pai? Num homem que, antes de se apresentar como moderado, falou publicamente em "uso da força" contra o Supremo Tribunal Federal? Num pré-candidato que divide palanque com quem pede intervenção e impeachment de ministros, e depois olha para a câmera e diz que o alvo "nunca foi o Supremo"?
Num senador cujo caso de rachadinha nunca foi julgado no mérito, que chamou Alexandre de Moraes de "psicopata", e que agora carrega consigo uma mala extra de conexões com fraudes contra aposentados?
Num herdeiro político de um condenado a 27 anos por tentativa de golpe, que promete ao pai — da Avenida Paulista, de colete à prova de balas — que ele vai "subir a rampa do Planalto"?
Se a resposta a tudo isso for "sim, mas é melhor que o Lula", então a democracia brasileira não é mais uma questão de escolha política. É uma questão de pronto-socorro.
A imprensa compra a tese do moderado porque, comparado aos irmãos, Flávio fala mais baixo. É o critério do manicômio: quem grita menos parece mais são. Mas falar baixo enquanto se promete passar por cima de um poder constituído não é moderação. É técnica. É marketing. É trocar a camisa com o incêndio já aceso e esperar que ninguém sinta o cheiro de fumaça.
O "Bolsonaro moderado" é como o "fogo frio" ou a "guerra humanitária" — uma contradição que só funciona se você não pensar muito. E pensar pouco, convenhamos, nunca foi problema neste país.
Eu assisti àquela manifestação inteira. E o que vi não foi um moderado. Vi um candidato que terceiriza o radicalismo, que fala de democracia enquanto promete subverter suas regras, que se apresenta como solução para um problema que a própria família criou.
Vi, enfim, o mesmo bolsonarismo de sempre. Só que agora de terno, com voz mansa e uma narrativa nova embrulhada em papel de presente velho.
E a imprensa aplaudindo a embalagem.
Por Carlito de Souza
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