O novo perfil do alfabetizador

O novo perfil do alfabetizador

O novo perfil do alfabetizador: entre os índices de avanço e o desafio da sala de aula

Com 66% das crianças alfabetizadas no 2º ano, a atuação docente se redefine: deixa de ser uma aplicação de métodos para se tornar a mediação que traduz indicadores em aprendizagem real

por Ana Luísa D'Maschio    6 de abril de 2026

 

André demorava a entrar na sala de aula. Ficava à porta, observando os colegas como se ainda não reconhecesse aquele espaço como seu. Nos primeiros dias, evitava o lápis e o olhar da professora, num gesto que, mais do que timidez, revelava uma relação frágil construída fora da escola. Em casa, os pais diziam que não adiantaria insistir, pois ele não aprenderia. Na comunidade, era rotulado como o mais bagunceiro, alguém de quem a escola não daria conta.

Era aluno do 2º ano do ensino fundamental, série em que se espera que a leitura e a escrita já façam parte da rotina. Naquela turma, porém, ninguém havia sido alfabetizado. O cenário só mudou com a chegada de uma nova professora alfabetizadora: Mara Mansani. Ela assumiu o desafio de virar o jogo.

Meses depois, foi André quem levantou a mão. Leu em voz alta e, mesmo com pausas, chegou ao fim. Ao terminar, olhou para Mara e sorriu. Naquele ano, ele e toda a turma saíram alfabetizados.

 

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O sorriso de André é uma das lembranças mais marcantes da professora Mara, que acaba de completar 41 anos de experiência na educação, e a cena ajuda a explicar por que, mesmo após a aposentadoria, ela não se afastou da escola. Hoje, é formadora de educadores pelo Brasil, mas mantém uma turma de alfabetização em uma escola da periferia de Salto de Pirapora, no interior de São Paulo. Ela diz que esta é a última turma, mas segue movida por um vínculo com a profissão que não se encerra com o calendário.

“Além da paixão, a sala de aula é um laboratório, é a teoria na prática. Ali estão todas as questões difíceis que você pode imaginar, mas, para mim, isso é uma riqueza. É a minha profissão. Por isso, em qualquer lugar que eu vá, mantenho esse olhar atento, esse cuidado.”

Para Mara, o professor hoje deve atuar como mediador e facilitador do processo de aprendizagem, sem ocupar o centro do saber. “Ele precisa se reconhecer como aprendiz permanente e entender que o conhecimento se constrói na relação com os alunos.”

No caso de André, assim como da turma, não houve solução única. “Era falta de acesso, de oportunidade e de escuta.” E é neste nível, o da prática cotidiana, que a política precisa chegar. Para os especialistas ouvidos pelo Porvir, é ali, entre o que pode ser medido e o que precisa ser interpretado, que a alfabetização acontece.

 

Quem é o professor alfabetizador hoje?

É quem interpreta como a criança aprende e transforma isso em ação na sala de aula. Mais do que ensinar o código, ele articula leitura, compreensão e sentido, tomando decisões constantes a partir do que observa nos alunos.


No Brasil, esse trabalho é realizado majoritariamente por mulheres, que representam cerca de 79% dos docentes da educação básica, em sua maioria formadas em cursos de pedagogia, nem sempre com aprofundamento específico em alfabetização.

Em um cenário em que 66% das crianças estão alfabetizadas no 2º ano, mas 1 em cada 3 ainda não aprende no tempo esperado, esse professor segue no centro dos avanços e também das limitações do sistema.

 O avanço dos dados

Embora situações como a vivida por André venham se tornando menos frequentes desde os anos 1990, elas ainda persistem. Dados mais recentes do Indicador Criança Alfabetizada mostram que 66% das crianças brasileiras estão alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental. O resultado representa o melhor desempenho desde o início da série histórica, em 2023, e sinaliza uma recuperação após os impactos da pandemia.

Esse indicador resulta de uma definição técnica construída a partir da escuta de professores. Ele integra a política nacional de monitoramento e compõe a 2ª edição do Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização, que certificou mais de 4,8 mil instituições da rede pública de ensino pelo desempenho em políticas voltadas à área.

No recorte por estados, o Ceará mantém a liderança com 84% de alfabetização, sendo o único a superar a meta prevista para 2030, seguido por Goiás e Paraná, com 80%, e por Piauí e Espírito Santo, com 77%. Os avanços, contudo, não se distribuem de maneira homogênea pelo país.

 

Criança observa copo com lápis de cor organizados sobre a mesa
Joédson Alves/Agência Brasil       Momentos de escolha e exploração de recursos estimulam autonomia e engajamento no processo de alfabetização.

 

Para Alexsandro Santos, diretor de Políticas da Educação Integral Básica do MEC (Ministério da Educação) e subsecretário da Política Nacional Integrada da Primeira Infância, esse movimento reflete uma mudança concreta de prioridade. A alfabetização passou a orientar decisões de gestão e a produzir resultados consistentes, ainda que esse avanço não elimine a necessidade de enfrentar o fato de que cerca de 1 em cada 3 crianças permanece sem aprender no tempo esperado. “A alfabetização deixou de ser só discurso e passou a orientar decisões concretas nas redes”, comenta.

Diretora do Instituto Reúna e ex-secretária de Educação Básica do MEC, Katia Smole alerta que o dado precisa ser interpretado com cautela. “O indicador mostra um ponto de chegada, mas não garante que a aprendizagem se sustente ao longo do tempo”, afirma. Isso significa que o crescimento do índice não assegura, por si só, a qualidade do que foi efetivamente aprendido.

 

Qual o papel do professor alfabetizador hoje?

O professor de alfabetização é o responsável por um dos momentos mais decisivos da trajetória escolar. Seu papel vai além do conteúdo: ele atua na formação da autonomia dos estudantes, na construção da autoestima e no estímulo ao pensamento crítico.Pesquisas do Instituto Ayrton Senna mostram que o alfabetizador articula competências cognitivas e socioemocionais para sustentar a aprendizagem ao longo do tempo.

Esse perfil se organiza em quatro dimensões:

Domínio do conhecimento específico: compreender o sistema de escrita e os usos sociais da linguagem.

Capacidade de interpretar a aprendizagem: analisar o processo, identificar hipóteses e ajustar as intervenções pedagógicas.

Tomada de decisão pedagógica: selecionar estratégias, textos e caminhos a partir da realidade da turma.

Competências socioemocionais: exercitar a persistência, a organização, a abertura ao novo e a colaboração.

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 Onde estão as desigualdades

Os problemas na alfabetização estão diretamente relacionados às desigualdades do sistema educacional brasileiro. Eles se manifestam entre escolas de uma mesma rede ou entre municípios de um mesmo estado. Expressam-se, também, nas condições concretas de funcionamento das unidades escolares. 

Diante desse cenário, Alexsandro argumenta que a análise dos resultados do IAC precisa ser mais precisa e orientada por fatores que permitam compreender as diferenças de desempenho. “Não basta olhar o resultado geral; é preciso entender o que está por trás dele”, sugere.

Ele destaca três dimensões: as condições de funcionamento da escola, que envolvem infraestrutura e organização pedagógica; as condições de trabalho docente, que incluem tempo de planejamento, tamanho das turmas e acesso a recursos; e a qualidade da gestão escolar, responsável por articular esses elementos e influenciar diretamente o que acontece na sala de aula.

Katia acrescenta que essas desigualdades não se limitam às condições materiais, mas também se refletem na organização do ensino. “Mesmo em contextos semelhantes, práticas pedagógicas diferentes produzem resultados diferentes”, diz. Isso reforça a necessidade de olhar para o interior da sala de aula como espaço decisivo da aprendizagem.

 

Alunos realizam atividade pedagógica em sala de aula
Tomaz Silva/Agência Brasil  Sala de aula evidencia o papel do professor na mediação do aprendizado e no desenvolvimento das competências de alfabetização.

 O que significa, de fato, aprender a ler

A partir dessa leitura, a discussão se desloca para uma questão fundamental, que diz respeito ao próprio significado de aprender a ler. Entende-se esse processo não apenas como o acesso ao sistema de escrita, mas como capacidade de compreender, interpretar e utilizar a linguagem em diferentes contextos.

Para Katia, a alfabetização não se esgota no domínio do código. “Saber ler não é só decodificar, é construir sentido”, afirma. Embora o indicador capte o início do processo, ele não garante a compreensão, o que se evidencia quando a aprendizagem se estabiliza em níveis iniciais, nos quais a criança reconhece palavras, mas não sustenta a construção de sentido.

Ao tratar do tema, Mara destaca sua dimensão social ao considerar que a alfabetização permite o exercício da cidadania, enquanto sua ausência expõe o sujeito à vulnerabilidade. “Quando a pessoa não se apropria da leitura e da escrita, ela não consegue se posicionar no mundo”, diz. Nessa perspectiva, próxima à do patrono da educação brasileira, Paulo Freire (1921-1997), alfabetizar deixa de ser apenas ensinar a ler e escrever e passa a significar a compreensão do mundo e a capacidade de agir sobre ele. O risco, aponta Katia, é produzir uma alfabetização “suficiente” para responder ao indicador, mas frágil como base para a trajetória escolar. “A criança até lê, mas não sustenta a compreensão ao longo do texto”, afirma. Isso torna visível a necessidade de repensar o modo como o ensino se organiza.

 

Como ser um bom alfabetizador

Segundo Mara Mansani, a prática docente se constrói no cotidiano da sala de aula, a partir da observação do que a criança já sabe e das decisões que o professor toma diante disso. Confira recomendações:

Privilegiar o texto, não o código: a leitura desde o início amplia o vocabulário e a compreensão, bases da própria alfabetização.

Observar antes de intervir: o erro indica o percurso do pensamento da criança e orienta o próximo passo do ensino.

Fazer curadoria de materiais: o livro didático é um guia, mas deve ser combinado a outros textos e recursos.

Estudar continuamente: a formação não se encerra no diploma; exige leitura, experimentação e revisão constante da prática.

Garantir sentido social: ler e escrever devem servir para interpretar o mundo e participar dele.

Adaptar em vez de apenas aplicar: métodos precisam ser ajustados à realidade da turma, e não seguidos como receita.

Incluir diversidade e representatividade: um repertório cultural amplo aumenta o interesse e a capacidade de compreensão.

Usar tecnologia com intenção: a proposta pedagógica é sempre mais importante do que a ferramenta digital.

Defender condições de trabalho: turmas menores e tempo de planejamento são essenciais para a qualidade do ensino.

Cuidar de quem ensina: a saúde física e emocional do corpo docente impacta diretamente o sucesso da aprendizagem.

 Decodificar não basta

Parte dessa fragilidade decorre da persistência da visão sequencial de que a decodificação antecede a compreensão. Esse modelo contrasta com o entendimento de que ambos os processos se constroem simultaneamente.

Katia sustenta que a compreensão começa quando a criança escuta textos, amplia vocabulário e estabelece relações. “A criança não espera saber ler para começar a compreender. Esse processo já está em curso desde o início”, afirma. O trabalho com o código, portanto, não pode ser dissociado do sentido, sob pena de produzir uma aprendizagem fragmentada.

Na prática, contudo, essa integração ainda não se consolidou, e muitos contextos escolares seguem adiando o contato com textos reais. Mara Mansani reorganiza essa lógica ao propor que o texto seja um ponto de partida. “Por que deixar o texto só para o final? É ele que faz a criança pensar”, diz. Assim, o texto deixa de ser etapa final e passa a funcionar como instrumento de pensamento ao longo de todo o processo.

 

Relembre a homenagem que a Editora Moderna fez para Mara Mansani, em 2025

 

O professor que decide

Nesse cenário, o papel do professor se redefine, deixando de se limitar à aplicação de métodos para assumir a leitura do processo de aprendizagem. Segundo Alexsandro, isso exige articular o domínio da linguagem escrita, a compreensão de como se aprende e a capacidade de transformar esse saber em ação pedagógica. 

“Essas dimensões não operam de forma isolada, mas se encontram no momento da decisão, quando o professor escolhe um texto, interpreta um erro ou reorganiza uma atividade, mobilizando simultaneamente saberes que sustentam a qualidade da prática”, explica o representante do MEC.

Formação docente: onde o processo começa

Se a alfabetização se constrói na prática, o alicerce deve ser a formação do professor. Mara Mansani atribui o problema ao isolamento institucional da universidade em relação ao cotidiano escolar. “Cobramos muito do educador sem oferecer uma formação que dialogue com o que ele vai encontrar na sala de aula”, pontua a professora.

Essa lacuna aparece também na metodologia de ensino. Katia Smole identifica uma falha na transposição didática: a dificuldade de transformar ciência em prática de sala. “O professor precisa entender como a criança aprende e como isso se traduz em ação pedagógica, e essa conexão nem sempre está presente na formação inicial”, diz.

Do ponto de vista das políticas públicas, Alexsandro Santos destaca que o desafio está em garantir continuidade. “Não basta oferecer cursos pontuais; é preciso acompanhamento, tempo de estudo e condições para que o professor incorpore esse conhecimento à prática”, afirma.

O resultado desse cenário é um descompasso: exige-se do professor capacidade de interpretar, decidir e adaptar o ensino, mas nem sempre lhe são oferecidas as condições para desenvolver essas competências ao longo do tempo.

 

 

Duas crianças sentadas leem materiais didáticos em sala com cartazes de letras ao fundo
Ana Volpe/Agência SenadoAo mediar o contato com os textos, o professor ajuda a transformar a leitura em construção de sentido — e não só em decodificação.

 

Repertório e construção profissional

A trajetória de Mara evidencia que essa prática não nasce pronta. Sua formação inicial no magistério foi insuficiente para a complexidade da alfabetização. A competência veio ao longo da carreira, por meio de estudo contínuo, curiosidade intelectual e experimentação. “Eu nunca fiquei só com o que aprendi na formação inicial, fui atrás de cursos, leituras e fui testando na prática”, relembra. 

Ao buscar referências clássicas como Emília Ferreiro e Magda Soares, Mara reorganizou sua compreensão do processo e deslocou o foco do ensino centrado no código para o uso social da linguagem. “Eu leio, acompanho pesquisas e me interesso por temas contemporâneos, como o uso da inteligência artificial na educação, as orientações para a educação antirracista e levo tudo para a sala de aula. É ali que você vê o que funciona com as crianças”, diz.

Esse tipo de atuação, no entanto, depende de condições estruturais que nem sempre estão garantidas. A docência na educação básica é majoritariamente feminina, representando cerca de 79% das profissionais, especialmente nos anos iniciais. A formação se concentra em cursos de pedagogia que nem sempre aprofundam o ensino da leitura e da escrita, dando início ao descompasso apontado pelos especialistas entre a prática exigida e as condições oferecidas. Com isso, a qualidade do trabalho docente acaba dependendo mais do esforço individual do que de uma estrutura de suporte.

O que os dados não mostram

Os dados de alfabetização precisam ser lidos em articulação com outros indicadores que evidenciam a continuidade do problema. Resultados do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), aprova nacional que mede a aprendizagem dos estudantes em diferentes etapas, mostram que cerca de 1 em cada 2 alunos do 5º ano não atinge níveis adequados de leitura.

Esse cenário se repete em avaliações internacionais, como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), que indica que aproximadamente metade dos estudantes brasileiros de 15 anos não alcança o nível básico de proficiência. 

Para Alexsandro, isso revela um problema de continuidade. “Estamos falando de estudantes que passaram anos na escola e ainda não conseguem compreender o que leem”, afirma. Sem articulação entre educação infantil e ensino fundamental, a alfabetização inicial não se consolida. “O problema não começa no 5º ano. Ele se constrói ao longo do percurso e aparece com mais força depois”, diz.

Entre o possível e o necessário

O panorama da alfabetização no Brasil indica um processo de reorganização. Avanços importantes convivem com desafios persistentes, o que demanda interpretar resultados sem simplificações. Nesse ponto, as leituras convergem.

De acordo com Katia Smole, o desafio é articular elementos que ainda são dissociados na prática escolar. “Não é separar fluência, vocabulário e compreensão, mas entender que tudo isso se constrói junto”, afirma.

Para Alexsandro Santos, a questão passa pela capacidade de transformar avanços em política pública consistente. “Não basta ter experiências que funcionam; é preciso garantir que elas se sustentem no sistema”, diz.

Já para Mara Mansani, a questão se resolve no cotidiano da sala de aula. “É ali que a gente entende onde a criança está e o que precisa fazer para ela avançar.”

É nesse espaço, entre o dado que mede e a vida que se interpreta, que a alfabetização deixa de ser apenas um número frio. Ela ganha como um processo real, que toma tempo e depende de condições dignas e de escolhas pedagógicas que, de fato, sustentam o aprendizado.

 

FONTE:

https://porvir.org/perfil-alfabetizadores-competencias-desafios/ 




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