O Pix do Centrão

O Pix do Centrão

O Pix do Centrão: quando a democracia vira transferência instantânea

25/08/2025

 
PIXão Nacional - Imagem gerada por IA ChatGPT

Por CASTIGAT RIDENS*

 

O nascimento da criatura

As emendas Pix surgiram no governo de Jair Bolsonaro. Não por acaso: um presidente inapto para governar precisava terceirizar seu poder a quem soubesse jogar o jogo. Assim, inventou-se a modalidade “fast food” das emendas: dinheiro público depositado direto na conta de estados e municípios, sem burocracia, sem plano de trabalho e, sobretudo, sem transparência. O que para Bolsonaro foi a saída preguiçosa para evitar crises com o Congresso, tornou-se um presente envenenado que hoje engole o próprio sucessor.

Lula refém do condomínio

No governo Lula, o modelo não só sobreviveu como se expandiu. Resultado: um presidente eleito com a promessa de reconstrução nacional agora precisa pedir bênção a deputados oportunistas sempre que quer aprovar qualquer pauta. O Centrão percebeu que não precisa mais de ministérios, de projetos ou de lealdade ideológica. Basta a senha do cofre. E Lula, para não perder a base mínima no Congresso, paga a conta com a autoridade presidencial.

O caixa eletrônico da República

O caso mais recente expõe a dimensão do problema: quase R$ 700 milhões em emendas Pix sem plano de trabalho. Repito: setecentos milhões. Não se trata de um banco clandestino operado no subsolo do Congresso, mas do próprio Orçamento da União, convertido em transferência instantânea para prefeitos e governadores amigos de parlamentares. Plano de trabalho? Bobagem burocrática, diriam. O importante é o dinheiro cair na conta antes da próxima eleição.

Dino e a faxina impossível

Coube ao ministro Flávio Dino, do STF, cobrar explicações e mandar a Polícia Federal investigar a farra. O Tribunal de Contas da União terá dez dias para apontar quem são os felizardos que receberam o “pixão” sem sequer explicar em quê gastariam. Dino, que não nasceu ontem, sabe bem que por trás dos números se esconde a engrenagem da política mais arcaica do país: a compra de lealdades via emendas.

O Centrão no comando

Aqui entra o papel do Centrão, o condomínio partidário mais caro do mundo. É o presidencialismo às avessas. O presidente, seja ele quem for, virou uma espécie de síndico decorativo, cortando fitas e posando para fotos, enquanto quem realmente decide o destino dos bilhões públicos são os deputados e senadores que dominam o orçamento.

O novo “orçamento secreto”

Chamaram de “emenda Pix” para parecer moderno, quase tecnológico. Mas, no fundo, é o velho coronelismo com senha de aplicativo. Não por acaso, já se fala em “novo orçamento secreto”. Um orçamento onde o segredo não é só o destino do dinheiro, mas também o silêncio cúmplice de quem deveria fiscalizar. Afinal, quem vai cutucar a mão que garante a próxima campanha?

Todos no mesmo balaio

E aqui está a ironia mais amarga: não é só a direita que se lambuza. Parlamentares de esquerda também se beneficiam das emendas Pix. Quando se trata de garantir a boquinha, perpetuar o mandato e encher de placas eleitorais os municípios amigos, as diferenças ideológicas se dissolvem como açúcar no café. O discurso muda no plenário, mas a prática é idêntica: ninguém abre mão da falcatrua que garante voto fácil. Extinguir as emendas Pix? Só se fosse extirpar também a compulsão dos políticos por se reeleger.

A conta da omissão dos democratas

O mais grave é que os partidos ditos democráticos seguem repetindo o mesmo erro histórico: concentram todas as energias na eleição dos cargos do Executivo — presidente, governadores e prefeitos — e tratam o Legislativo como apêndice. Resultado: elegem líderes que tentam governar com bancadas que sabotam, barganham e impõem sua pauta paroquial. Para mudar minimamente esse quadro, será preciso inverter prioridades. Sem uma Câmara e um Senado comprometidos com equidade social, soberania e desenvolvimento nacional, não há governo que resista.

Lula não governa sozinho. Precisa da Câmara, do Senado, de governadores, prefeitos, deputados estaduais, vereadores — e, acima de tudo, da população. Sem esse pacto, o Brasil seguirá refém de um Congresso convertido em caixa eletrônico.

Em tempos de governo fraco e Centrão forte — com aplauso discreto também da esquerda parlamentar — a única certeza é que o Pix vai cair. E a conta, como sempre, sobra para nós.


*Castigat Ridens é um pseudônimo criado a partir da abreviatura da expressão latina “Castigat ridendo mores” que significa “corrige os costumes rindo” ou “critica a sociedade pelo riso”, muito usada no contexto da comédia como instrumento de crítica social.

Ilustração da capa: PIXão Nacional – Imagem gerada por IA ChatGPT

 

FONTE:

https://red.org.br/noticias/o-pix-do-centrao-quando-a-democracia-vira-transferencia-instantanea/ 




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