O racismo no futebol

LF - 11/07/2026
Nos últimos dias publiquei textos sobre o complotismo no futebol, em particular sobre a tendência de transformar cada lance discutível, cada decisão de VAR e cada vitória argentina em prova de uma conspiração mundial montada para favorecer Messi e a seleção argentina.
O debate, porém, rapidamente se deslocou. Vários comentários passaram a insistir em outro ponto: o chamado “racismo argentino”, o racismo da torcida argentina ou mesmo da seleção argentina. Alguns foram além e passaram a fazer campanha nas redes sociais para que ninguém torça pela Argentina na Copa, apresentando esse racismo como argumento definitivo.
Tenho respondido a vários desses comentários. Mas, pela dimensão que essa campanha tomou, vale a pena voltar ao assunto de forma mais ampla.
Começo pelo essencial: há racismo entre torcedores argentinos. Há cantos, insultos, gestos e episódios que devem ser denunciados, investigados e punidos. Também houve episódios graves envolvendo jogadores argentinos. Portanto, não se trata de ignorar, minimizar ou desculpar o problema.
Mas reconhecer a existência desse racismo não autoriza transformar a Argentina inteira, sua torcida inteira, sua seleção inteira ou Messi em culpados automáticos. Racismo não se combate com culpa coletiva. Combate-se identificando responsáveis, punindo atos concretos e recusando todas as formas de discriminação.
O que apareceu em muitos comentários não foi apenas a denúncia legítima de atos racistas. Foi a tentativa de transformar esses atos em essência nacional: “os argentinos são racistas”. Essa passagem é perigosa. Ela deixa de combater o racismo e passa a praticar outro tipo de preconceito — agora contra uma nacionalidade inteira.
Além disso, há uma falsificação evidente: apresentar o racismo de torcedores argentinos como se fosse único, excepcional, uma espécie de especialidade argentina. Não é. O racismo no futebol é internacional, persistente e documentado em vários países, inclusive na Europa que tantas vezes se apresenta como tribunal moral do mundo.
Vejamos os fatos. Casos argentinos incluídos.
Na Copa de 2026, há pelo menos um caso envolvendo torcedores argentinos que deve ser levado a sério. A Fifa abriu investigação depois que o streamer norte-americano IShowSpeed, negro, foi alvo de uma ofensa racista durante Argentina x Cabo Verde, em Miami, no dia 3 de julho. Segundo a AP, durante uma transmissão ao vivo, uma torcedora com camisa argentina teria dito a ele algo equivalente a “vá chorar no zoológico”. A Fifa afirmou que condena racismo, ódio e discriminação em todas as formas e iniciou investigação sobre o episódio. Isso é condenável e não deve ser escondido.
O caso argentino mais grave recente, fora da Copa atual, foi o vídeo de julho de 2024, depois da conquista da Copa América, em que jogadores da seleção foram filmados cantando uma música considerada racista e discriminatória contra jogadores franceses, em especial por referências à origem africana de Kylian Mbappé e de outros atletas da França (o canto circulara entre alguns torcedores na Copa em 2022). A Federação Francesa anunciou que apresentaria queixa, a Fifa confirmou investigação, e Enzo Fernández, que havia publicado o vídeo, pediu desculpas e reconheceu que a letra continha linguagem ofensiva. Esse episódio foi grave. Não há razão alguma para relativizá-lo.
Mas esse canto é condenável não apenas porque insulta jogadores franceses. Ele é sério porque procura negar a esses jogadores sua condição de franceses. A lógica é conhecida: se são negros, se têm pais africanos, se têm nomes de origem africana ou caribenha, então sua cidadania francesa passa a ser colocada sob suspeita.
A cidadania dos brancos é aceita como natural; a dos negros precisa ser sempre explicada, justificada ou negada.
Esse mesmo mecanismo apareceu de forma brutal na Copa atual. Depois da vitória da França sobre o Paraguai, a senadora paraguaia Celeste Amarilla fez ataques racistas contra Mbappé. Ele respondeu chamando-a de “desprezível” e indigna do cargo. A Federação Francesa anunciou que apresentaria queixa, e o governo paraguaio se distanciou das declarações. O episódio mostra que o racismo contra jogadores negros franceses não vem apenas de torcedores argentinos. Ele pode aparecer também em representantes políticos de outros países, usando a mesma lógica: negar a um francês negro sua cidadania francesa.
Esse ponto precisa ser sublinhado. A extrema-direita francesa faz isso há décadas: trata franceses negros, árabes ou muçulmanos como estrangeiros dentro do próprio país. Mas, nas redes sociais, setores que se dizem de esquerda ou “anti-imperialistas” às vezes repetem o mesmo gesto simbólico. Para denunciar o colonialismo francês, acabam negando a cidadania francesa de jogadores negros. Pensam estar atacando a França imperial; na prática, dizem a mesma coisa que a extrema-direita: esses jogadores não seriam realmente franceses.
A crítica ao colonialismo francês é legítima e necessária. Mas ela não autoriza negar a franceses negros sua nacionalidade. Mbappé é francês. Camavinga é francês. Tchouaméni é francês. Koundé é francês. Dizer isso não apaga suas origens familiares, africanas ou caribenhas. Apenas reconhece uma coisa elementar: a cor da pele não decide a cidadania de ninguém.
A prova do absurdo é simples. Alguém aceitaria que se dissesse que Pelé não era brasileiro porque era negro
Que Garrincha não era brasileiro porque era mestiço? Que Didi, Jairzinho, Romário, Ronaldo ou Ronaldinho não eram brasileiros porque sua cor de pele ou sua origem familiar os afastariam de uma suposta “brasilidade verdadeira”? Evidentemente não. Seria reconhecido imediatamente como racismo. Então por que aceitar esse raciocínio quando se trata de Mbappé ou de outros jogadores negros da seleção francesa?
Se a cor da pele é invocada para negar a nacionalidade de alguém, o nome disso não é crítica política, nem anti-imperialismo. É racismo.
Mas, se o tema é racismo no futebol, a honestidade intelectual exige olhar o quadro inteiro. A Argentina não é exceção.
Comecemos pelo México, talvez o caso mais persistente de sanções da Fifa por cantos discriminatórios. Na Copa de 2026, torcedores mexicanos voltaram a usar o conhecido canto homofóbico contra goleiros adversários em México x Tchéquia (24 de junho) e México x Equador (30 de junho). A Associated Press lembrou que esse canto já custou à Federação Mexicana várias multas. Em junho de 2026, o Tribunal Arbitral do Esporte (CAS) manteve as multas impostas pela Fifa por cantos homofóbicos em amistosos de 2024, mas reverteu a punição que previa o fechamento parcial do estádio por considerá-la desproporcional — embora tenha reconhecido a natureza coletiva e recorrente da conduta.
A Europa também está longe de ser um tribunal moral. Em 2026, antes da Copa, a Fifa abriu procedimento disciplinar contra a Federação Espanhola por cantos islamofóbicos e xenófobos no amistoso Espanha x Egito, disputado em 31 de março. O canto dizia que "quem não pula é muçulmano", e o jogador espanhol Lamine Yamal, muçulmano, condenou publicamente os cânticos.
E a França tampouco pode posar como país imune. Após França x Marrocos, o Ministério Público de Nice abriu investigação por "provocação pública ao ódio ou à violência" após vídeos com saudações nazistas e slogans racistas contra marroquinos, incluindo "La France aux Français" e "Marocains hors de France". O caso foi revelado pela Libération/CheckNews.
Há ainda o caso emblemático de Vinícius Júnior, que sozinho desmonta a tese de que o racismo no futebol seria uma "especialidade argentina". Desde 2021, o jogador foi alvo de uma sequência brutal de ataques racistas na Europa, sobretudo na Espanha. Em maio de 2023, o caso de Mestalla, contra o Valencia, tornou-se emblemático. Em 2024, três torcedores foram condenados a oito meses de prisão — a primeira condenação desse tipo na Espanha. Em 2025, cinco torcedores do Valladolid também foram condenados por insultos racistas contra Vinícius, e quatro pessoas receberam penas no caso da efígie pendurada antes de um clássico entre Real Madrid e Atlético. O clube afirmou que 14 pessoas já haviam sido condenadas criminalmente por ataques racistas contra seus jogadores.
Em 2026, no jogo Benfica x Real Madrid, pela Champions League, Vinícius denunciou insulto racista de Gianluca Prestianni. A Uefa abriu investigação e, posteriormente, suspendeu o jogador por conduta discriminatória, enquadrando-a como homofóbica — um desfecho que, embora não confirme a denúncia racial específica, atesta a persistência de diferentes formas de discriminação no futebol europeu.
Voltando a mundiais anteriores: em 2022, a Fifa puniu Equador, México, Sérvia e Croácia por cantos discriminatórios ou violações de conduta. Em 2018, a Rússia foi punida por uma faixa neonazista com o número 88, código usado por neonazistas para "Heil Hitler", e a Sérvia por uma faixa celebrando um grupo nacionalista da Segunda Guerra.
O que dizer de Messi?
Messi tem um histórico público de engajamento. Em 2011, participou com Piqué e Seydou Keita da campanha "Put Racism Offside", da parceria FC Barcelona/Unesco. Em 2013, integrou a campanha da Uefa "No to Racism". Em 2014, participou da campanha global da Fifa "Say No To Racism" durante a Copa do Mundo no Brasil. Além disso, em 2021, Messi manifestou-se em suas redes sociais contra racismo, abuso e discriminação, dirigindo-se diretamente a seus seguidores — argentinos, espanhóis, franceses, brasileiros, norte-americanos e milhões de torcedores de todas as partes do mundo.
Isso não absolve torcedores argentinos racistas. Não absolve jogadores argentinos que entoaram cantos discriminatórios. Não absolve ninguém. Mas impede uma narrativa falseadora: a de que o racismo seria uma característica nacional argentina e que, por isso, Messi ou qualquer argentino famoso deve carregar uma culpa coletiva.
Se alguém não quer torcer pela Argentina, tem todo o direito. Futebol também é paixão, rivalidade, antipatia, memória e preferência. Eu torço pelo bom jogo e menos pela cor da camisa. Ninguém é obrigado a torcer por Messi, pela Argentina ou por qualquer seleção. O problema começa quando uma preferência esportiva tenta se vestir de superioridade moral e passa a dizer que não se deve torcer pela Argentina porque "os argentinos são racistas".
O racismo existe nas torcidas argentinas. Existe nas torcidas francesas. Existe nas torcidas espanholas. Existe nas torcidas mexicanas. Existe nas torcidas inglesas, italianas, croatas, sérvias, russas, brasileiras. O que muda são as formas, os alvos, os contextos e a intensidade. O que não muda é a obrigação de combatê-lo.
A história do futebol já mostrou até onde pode ir a transformação da rivalidade esportiva em ódio nacional. O exemplo extremo é a chamada 'Guerra do Futebol', entre El Salvador e Honduras, em 1969. Por trás da eliminatória para a Copa de 1970 havia migração, disputa agrária e crise política, mas os estádios e seus arredores se tornaram o palco simbólico dessa escalada — bandeiras humilhadas, hostilidade nas arquibancadas, intimidações e confrontos em torno dos jogos. Poucas semanas depois, os dois países estavam em guerra. O futebol não criou o conflito, mas serviu de catalisador. A lição permanece: quando a camisa de uma seleção vira pretexto para transformar um povo inteiro em inimigo moral, o futebol deixa de ser paixão e passa a alimentar monstros políticos.
Combater o racismo exige rigor. Exige provas. Exige punição. Exige não relativizar quando o racista veste a camisa de uma seleção de que gostamos. Mas exige também não fabricar uma nacionalidade culpada por natureza. A frase "os argentinos são racistas" não é antirracismo. É generalização nacional. E generalização nacional é uma forma de preconceito.
O antirracismo exige precisão cirúrgica: identificar o agressor, não a nacionalidade; punir o ato, não a camisa; pressionar as federações, e não estigmatizar torcedores inocentes. Se você não quer torcer pela Argentina, tudo bem. Mas que isso seja uma escolha esportiva ou afetiva, e não uma falsa bandeira moral baseada em um preconceito de nacionalidade. O racismo não tem passaporte — e o combate a ele também não pode ter.
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