O terrivelmente evangélica

O terrivelmente evangélica

 

 

 

# MENDONÇA: O “TERRIVELMENTE EVANGÉLICO” QUE TRANSFORMOU O SUPREMO NUM INFERNO

Agora ficou mais fácil entender o que Jair Bolsonaro queria dizer quando prometeu colocar no Supremo um ministro “terrivelmente evangélico”.

O problema nunca foi o evangélico. O problema era o terrivelmente.

André Mendonça parece finalmente ter entrado no papel político para o qual Bolsonaro o escolheu. A toga continua preta, o gabinete continua no Supremo, os discursos continuam recheados de juridiquês, mas fica cada vez mais difícil não enxergar por baixo de tudo isso a sombra do projeto político que o levou até lá.

Mendonça entrou em modo eleitoral. E não é um modo discreto.

A proximidade com o universo bolsonarista é antiga. Mendonça foi advogado-geral da União de Bolsonaro, ministro da Justiça de Bolsonaro e ministro escolhido pessoalmente por Bolsonaro para ocupar uma cadeira vitalícia no STF.

Bolsonaro nunca escondeu o que queria. Queria “um nosso” lá dentro. Agora começa a parecer que conseguiu.

E Daniel Vorcaro caiu no centro dessa história como uma bomba que ninguém consegue mais esconder debaixo da toga.

O caso Dark Horse, envolvendo milhões despejados por Vorcaro na produção de um filme para transformar Jair Bolsonaro em personagem cinematográfico, acabou nas mãos de Mendonça por redistribuição determinada pelo presidente do STF, Edson Fachin.

Politicamente, foi quase um presente.

De um lado, temos uma investigação capaz de atingir em cheio a família Bolsonaro em plena campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.

Do outro, temos André Mendonça sentado sobre um processo protegido por sigilo enquanto parlamentares pressionam justamente para que esse segredo seja levantado. A diferença de tratamento virou motivo de questionamento formal dentro do próprio Supremo.

Mas quando apareceu material capaz de atingir Alexandre de Moraes, aconteceu o contrário.

A cortina abriu. Mendonça retirou o sigilo. E jogou Alexandre de Moraes na fogueira pública.

Que coincidência maravilhosa para o bolsonarismo.

A bala jurídica disparada por Mendonça tem o nome de Moraes gravado nela, mas seu destino político pode ser outro: atingir Lula.

Porque o bolsonarismo trabalha há anos para vender à sua militância a fantasia de que Moraes e Lula são praticamente uma única pessoa. Moraes virou o “inimigo” oficial da família Bolsonaro e, portanto, qualquer escândalo envolvendo seu nome será imediatamente transformado em munição eleitoral contra o presidente.

Flávio Bolsonaro já explora exatamente essa narrativa.

Não precisa combinar nada numa sala escura. Basta Mendonça acender a luz na investigação conveniente e apagar na inconveniente. O resto a máquina bolsonarista faz.

Só que Alexandre de Moraes resolveu não assistir calado.

Moraes pediu a Edson Fachin que André Mendonça seja investigado por possíveis crimes de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. Mais grave ainda: acusou o colega de parcialidade e de favorecimento de determinados grupos políticos.

Um ministro do Supremo acusando outro ministro do Supremo de utilizar investigações de maneira politicamente direcionada.

Isso não é uma divergência jurídica. É uma granada dentro do plenário.

Fachin abriu procedimento para esclarecer a situação.

E talvez seja exatamente aí que o castelo comece a desabar.

Porque enquanto Mendonça tenta colocar Moraes sob os holofotes, o cadáver político escondido no porão do Banco Master começa a feder demais.

O celular de Daniel Vorcaro está se transformando numa espécie de diário secreto da República. E cada áudio novo parece abrir outra porta.

Descobrimos que o próprio André Mendonça recebeu Vorcaro reservadamente em março de 2025, fora do Supremo, num instituto em São Paulo. A aproximação foi intermediada pelo advogado Ciro Soares e pelo deputado Cezinha de Madureira, do PL.

Que beleza.

O ministro que abre o sigilo das relações de Vorcaro com Moraes também teve seu encontro reservado com Vorcaro.

O “terrivelmente” começa a ficar cada vez mais interessante.

Depois aparece Nikolas Ferreira.

O mesmo Nikolas que construiu sua carreira vendendo moralidade em vídeos de celular, apontando o dedo para todo mundo e distribuindo sentenças morais como se tivesse recebido procuração de Deus para fiscalizar a humanidade.

Nos áudios revelados agora, Nikolas trata Daniel Vorcaro com intimidade, chama o banqueiro de “Dani”, pede ajuda para destravar um negócio relacionado a um ativo minerário de um conhecido e se coloca à disposição.

Mensagens atribuídas a Vorcaro ainda indicam que o banqueiro bancou voos utilizados por Nikolas.

É a velha moral bolsonarista.

No palanque, Deus, pátria, família e combate ao sistema.

No WhatsApp, “Dani, meu amigo, consegue dar uma forcinha?”

Os revolucionários antissistema parecem ter uma extraordinária facilidade para encontrar o telefone dos banqueiros.

Mas o esgoto continua descendo.

Daniel Vorcaro afirmou numa proposta de delação que R$ 5 milhões destinados oficialmente às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022 faziam parte de um esquema de vantagens indevidas relacionado à manutenção do Credcesta.

A proposta de colaboração foi rejeitada pela PF e pela PGR e as acusações ainda precisam ser investigadas.

Mas elas existem.

E são devastadoras.

Porque Vorcaro não está falando de uma sacola abandonada num estacionamento.

Está falando de milhões oficialmente colocados dentro de campanhas políticas e atribuindo a esses pagamentos uma origem criminosa.

E então chegamos novamente ao filme.

Ah, o filme.

O épico cinematográfico destinado a transformar Jair Bolsonaro em herói.

Uma espécie de Hollywood do cercadinho.

Vorcaro colocou cerca de US$ 12,3 milhões no projeto.

Mais de sessenta milhões de reais.

E apareceu mais um pagamento de US$ 1,6 milhão em setembro de 2025, depois do período que havia sido apresentado publicamente como encerramento dos repasses. Também foram divulgados áudios em que Flávio Bolsonaro pressionava por mais dinheiro para a conclusão da produção.

Sessenta milhões.

Para um filme sobre Bolsonaro.

Dinheiro vindo de Daniel Vorcaro.

Em plena teia do Banco Master.

E querem que ninguém faça perguntas?

Eu faço.

Quero saber para onde foi cada dólar.

Quero saber quem recebeu.

Quero saber quem gastou.

Quero saber quais empresas foram contratadas.

Quero saber quais contas foram pagas.

Quero saber por que tanto dinheiro era necessário.

E quero saber se absolutamente todo esse dinheiro terminou realmente financiando cinema ou se parte dele encontrou outros caminhos.

Inclusive porque já surgiu na própria investigação a hipótese de apurar se recursos relacionados ao projeto poderiam ter servido para outras despesas envolvendo Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Não estou afirmando que isso aconteceu.

Estou dizendo que quero o sigilo aberto justamente para descobrir.

Estranho, não?

Para Alexandre de Moraes, transparência.

Para o filme dos Bolsonaro, segredo.

Para atingir o inimigo do bolsonarismo, abre-se a janela.

Para olhar dentro da casa bolsonarista, fecha-se a persiana.

Talvez seja apenas técnica jurídica.

Talvez.

E talvez Papai Noel realmente more no Polo Norte.

Mendonça chegou ao Supremo carregando uma marca que nenhum ministro deveria carregar: a expectativa pública de representar uma parcela política e religiosa específica do país.

Não fui eu quem inventou isso.

Foi Jair Bolsonaro.

Foi Bolsonaro quem anunciou ao Brasil que escolheria alguém “terrivelmente evangélico”.

Não falou no melhor constitucionalista.

Não falou no jurista mais independente.

Não falou no grande defensor das instituições.

Falou no “terrivelmente evangélico”.

Era praticamente uma descrição de vaga.

E Mendonça conseguiu o emprego.

Hoje, cinco anos depois, o perigo daquela frase está diante dos nossos olhos.

Porque religião no Supremo não é problema.

Ter fé não é problema.

Ser evangélico não é problema.

O problema é transformar fé em identidade política.

O problema é transformar identidade política em militância.

E o problema máximo é quando essa militância encontra uma toga.

O bolsonarismo passou anos berrando que o Supremo fazia política.

Agora, quando um ministro escolhido por Bolsonaro adota decisões que produzem extraordinários benefícios políticos para o bolsonarismo, os mesmos indignados descobrem subitamente que ministro do STF é uma criatura sagrada e suas decisões não podem ser questionadas.

Hipocrisia é pouco.

É método.

O mesmo bolsonarismo que quer Moraes preso praticamente canoniza Mendonça.

Não querem um Supremo independente.

Querem um Supremo deles.

Não querem acabar com o ativismo judicial.

Querem trocar o ativista.

Não querem acabar com ministro interferindo na política.

Querem apenas que o ministro interfira a favor deles.

Essa é a grande fraude moral dessa gente.

Durante anos venderam a história de que estavam combatendo “o sistema”.

Hoje descobrimos que estavam desesperados para possuir um pedaço dele.

E conseguiram.

André Mendonça está lá.

De toga.

Com poder.

Com processos politicamente explosivos nas mãos.

E agora sob a acusação gravíssima, feita por outro ministro do próprio Supremo, de parcialidade e favorecimento político.

O STF vive talvez uma das crises internas mais perigosas de sua história recente.

Ministro investigando ministro.

Ministro acusando ministro.

Relatórios contestados.

Sigilos abertos.

Outros mantidos fechados.

Áudios vazando.

Banqueiros aparecendo.

Políticos surgindo nas mensagens.

Milhões circulando.

Filmes.

Jatinhos.

Favores.

Campanhas eleitorais.

E o cadáver político do Banco Master continua crescendo no meio da sala.

Bolsonaro queria colocar no Supremo um “terrivelmente evangélico”.

Colocou.

Só errou uma coisa.

Talvez tenha imaginado que Mendonça levaria o céu para dentro do STF.

Até agora, aconteceu exatamente o contrário.

O “terrivelmente evangélico” ajudou a transformar o Supremo num inferno.

E a grande preocupação já não é saber quem vai se queimar dentro daquele prédio.

É impedir que, em plena eleição, esse fogo seja utilizado como arma política e se espalhe pelo Brasil inteiro.

Porque toga não foi feita para ser uniforme partidário.

Supremo não é comitê eleitoral.

E ministro não deveria funcionar como cabo eleitoral com poder de quebrar — ou preservar — sigilos.

Se André Mendonça esqueceu disso, talvez esteja na hora de alguém dentro do próprio Supremo lembrá-lo.

Antes que o “terrivelmente” termine sendo muito mais perigoso para a democracia brasileira do que Bolsonaro jamais teve coragem de admitir.




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