O velho guerreiro
O VELHO GUERREIRO AINDA SABE LUTAR —
Boa noite.
Ontem eu estava acompanhando pela Globo a sabatina do presidente Lula no Jornal Nacional e fiquei pensando em uma coisa: parecia que alguns jornalistas entraram naquela entrevista acreditando que tinham diante deles apenas mais um político para ser colocado contra a parede. Só que esqueceram um pequeno detalhe: estavam diante de um sujeito que passou décadas sendo colocado contra a parede.
E talvez seja exatamente aí que esteja a diferença.
Lula pode ser amado, odiado, criticado, defendido ou rejeitado. Isso faz parte da democracia. Eu mesmo digo tranquilamente: ninguém é obrigado a gostar de Lula. Mas existe uma coisa que, para mim, é muito difícil negar: a capacidade política, a experiência, a memória e a velocidade de raciocínio desse homem.
E ontem ele mostrou novamente isso.
Não foi um debate eleitoral. Foi uma sabatina. E justamente por isso a comparação que muita gente está fazendo precisa ser feita com cuidado. Foram perguntas duras sobre corrupção, economia, investigações, seu filho, o governo e episódios do passado. Lula respondeu, contra-atacou, reconheceu erros quando entendeu que havia erros e voltou várias vezes a um assunto que carrega consigo há anos: a forma como foi tratado durante a Lava Jato.
Quando chegou ao assunto do famoso PowerPoint apresentado por Deltan Dallagnol em 2016, Lula fez questão de lembrar uma história que marcou profundamente sua trajetória política. E aqui é preciso separar as coisas: Dallagnol e Sergio Moro participaram de momentos diferentes da Lava Jato; o PowerPoint foi apresentado por Dallagnol, enquanto Moro era o juiz responsável pelos processos na primeira instância. Não eram a mesma função, embora tenham se tornado símbolos centrais daquele período.
E existe uma ironia histórica nisso tudo.
O homem que durante anos foi apresentado por parte do debate público como alguém politicamente acabado voltou à Presidência da República depois de ter sido preso, depois de ter recuperado seus direitos políticos e depois de ter vencido uma eleição presidencial.
E ontem estava novamente diante das câmeras.
Isso não significa que Lula seja infalível.
Não significa que seu governo não possa ser criticado.
Não significa que todos os questionamentos feitos pelos jornalistas sejam injustos.
Democracia não funciona assim.
O que me chama atenção é outra coisa: a capacidade de sobreviver politicamente a décadas de ataques e continuar tendo repertório para responder.
E isso não começou ontem.
Em 1989, Lula chegou ao segundo turno contra Fernando Collor. Foram dois debates históricos, realizados em 3 e 14 de dezembro, numa eleição que marcou a primeira escolha direta para presidente depois de 29 anos.
Naquela época, Lula ainda era tratado por muita gente como um operário sem experiência suficiente para ocupar a Presidência.
Perdeu.
Mas não desapareceu.
Em 2002, voltou ao segundo turno, dessa vez contra José Serra. E ali a história começou a mudar. O debate da Globo de 25 de outubro daquele ano colocou frente a frente dois candidatos com trajetórias completamente diferentes. Lula não tinha diploma universitário. Serra tinha formação acadêmica e uma longa trajetória política.
E Lula venceu a eleição.
A própria memória da Globo registra que, depois daquele debate, uma pesquisa Ibope realizada após o confronto apontava Lula com 62% dos votos válidos contra 38% de Serra.
Depois vieram outros adversários.
Em 2006, Geraldo Alckmin enfrentou Lula no segundo turno. Anos mais tarde, o mesmo Alckmin que havia sido adversário se tornaria seu vice-presidente.
Em 2018, Lula foi impedido de disputar a eleição enquanto estava preso.
Em 2022, já com seus direitos políticos recuperados, voltou ao segundo turno e enfrentou Jair Bolsonaro.
E venceu novamente.
Olha a trajetória.
Um homem que começou a vida política vindo do movimento sindical.
Um homem sem diploma universitário.
Um homem que passou por derrotas eleitorais.
Um homem que foi presidente, deixou a Presidência, voltou a disputar eleição, foi preso, passou anos enfrentando uma das maiores crises políticas de sua vida, recuperou os direitos políticos e voltou ao Palácio do Planalto.
Isso não transforma Lula em santo.
Mas também não permite que ele seja tratado como um político qualquer.
É preciso reconhecer o adversário para compreender a dimensão da vitória.
E talvez seja justamente isso que algumas pessoas não entendem.
Inteligência não é sinônimo de diploma.
Diploma demonstra formação acadêmica.
Inteligência política envolve leitura de ambiente, memória, capacidade de comunicação, experiência, percepção das pessoas, domínio da linguagem e velocidade para construir uma resposta diante de uma situação inesperada.
Lula possui algumas dessas características de maneira muito evidente.
E isso explica por que, mesmo quando discordamos dele, existe uma capacidade de comunicação que muitos políticos academicamente preparados nunca conseguiram desenvolver.
Porque política não acontece somente dentro de uma universidade.
Política acontece na rua.
Na fábrica.
No sindicato.
Na feira.
Na periferia.
Na conversa com o trabalhador.
Na negociação.
Na derrota.
Na vitória.
Na capacidade de convencer alguém que pensa diferente.
E Lula aprendeu política durante décadas.
É por isso que eu acho interessante quando alguém tenta medir inteligência exclusivamente pelo currículo acadêmico.
Se fosse assim, bastaria colocar os currículos dos candidatos lado a lado e a eleição poderia ser decidida pelo maior número de diplomas.
Mas não funciona.
Um excelente professor pode ser um péssimo administrador.
Um grande economista pode ser um péssimo presidente.
Um advogado brilhante pode ser um péssimo negociador.
E um homem sem universidade pode desenvolver uma extraordinária inteligência política.
Essa é uma das coisas que mais me chamam atenção na história de Lula.
E ontem, quando ele trouxe novamente à discussão os acontecimentos relacionados à Lava Jato e ao famoso PowerPoint, não estava apenas falando de uma imagem apresentada em 2016.
Estava falando de uma ferida política que atravessou sua trajetória.
E também existe outro ponto que precisa ser reconhecido: a própria Globo mantém uma página de memória histórica reconhecendo erros na cobertura política de 1989, inclusive a edição do debate entre Collor e Lula. Depois daquele episódio, a emissora decidiu não editar debates políticos e passou a transmiti-los integralmente ao vivo.
Isso é história.
E história não deveria ser apagada porque incomoda qualquer lado.
O problema do Brasil é que nós transformamos política em torcida organizada.
Se Lula fala alguma coisa, um lado acredita antes de verificar.
Se Bolsonaro fala alguma coisa, outro lado acredita antes de verificar.
Se a Globo publica, uns acreditam automaticamente.
Se a Globo critica, outros automaticamente dizem que é mentira.
E assim a população deixa de pensar.
Eu não quero fazer isso.
Eu quero pensar.
Quero questionar Lula quando ele estiver errado.
Quero questionar Bolsonaro quando estiver errado.
Quero questionar a Globo quando estiver errada.
Quero questionar a esquerda quando estiver errada.
Quero questionar a direita quando estiver errada.
Porque partido político não é religião e político não é Deus.
E talvez seja justamente por isso que eu admire determinados momentos da trajetória de Lula sem precisar transformar Lula em uma pessoa perfeita.
Eu sou de esquerda.
Tenho orgulho disso.
Mas ter orgulho de ser de esquerda não significa desligar o cérebro.
Significa, para mim, acreditar que o Estado deve olhar para quem historicamente ficou para trás, que pobreza não pode ser tratada como fracasso moral, que trabalhador merece dignidade, que educação e saúde públicas são instrumentos de cidadania e que democracia precisa ser defendida inclusive quando o resultado eleitoral desagrada.
E se existe alguma coisa que a trajetória de Lula ensina, independentemente de você gostar ou não dele, é que subestimar um adversário político pode ser um erro monumental.
Muitos já fizeram isso.
Em 1989, ele perdeu.
Em 2002, venceu.
Em 2006, venceu novamente.
Em 2010, elegeu Dilma Rousseff como sua sucessora.
Em 2018, foi retirado da disputa.
Em 2022, voltou.
E hoje, em 2026, continua sentado diante das câmeras, respondendo perguntas de jornalistas e disputando novamente o futuro político do país.
Você pode achar isso maravilhoso.
Você pode achar isso assustador.
Você pode discordar completamente.
Mas não pode dizer que é uma trajetória comum.
Porque não é.
Esse é o motivo pelo qual eu chamo Lula de velho guerreiro.
Não porque ele nunca tenha errado.
Mas porque poucos políticos brasileiros conseguiram atravessar tantas tempestades, acumular tantas derrotas e vitórias, enfrentar tantos adversários e continuar com capacidade de entrar em uma arena política e responder rapidamente.
E ontem, na televisão, eu tive novamente aquela sensação:
tentaram entrevistar o velho guerreiro como se ele estivesse chegando à arena pela primeira vez.
Só esqueceram que ele conhece aquela arena há décadas.
E talvez essa seja a grande lição:
Nunca confunda falta de diploma com falta de inteligência.
E nunca confunda um homem simples com um homem politicamente ingênuo.
Porque às vezes o sujeito que você imagina que vai apenas responder às perguntas já passou a vida inteira aprendendo a fazer perguntas.
E quando ele decide perguntar de volta...
A entrevista muda de lado.
Ass : André Luiz Thiago também conhecido por André negrão.
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