O Velho Pão e Circo

O Velho Pão e Circo

 

A Copa, o Império e o Velho Pão e Circo


Por O Cronista do Malbec

Há mais de dois mil anos, os gregos interrompiam guerras para realizar os Jogos Olímpicos. Os romanos enchiam arenas com gladiadores enquanto os imperadores distribuíam pão e entretenimento para manter a população distraída. Mudaram-se os séculos, mudaram-se as roupas, mudaram-se os estádios. O espetáculo, porém, continua o mesmo.

A Copa do Mundo moderna é a sucessora direta daqueles grandes eventos da Antiguidade. Não é apenas futebol. Nunca foi.

Os gregos usavam os jogos para exibir a grandeza de suas cidades. Os romanos utilizavam as arenas para reforçar seu poder político. Hoje, governos usam a Copa para vender ao mundo uma imagem de força, estabilidade e liderança. A diferença é que agora o palco é global e a audiência chega aos bilhões.

Mas existe uma ironia particularmente interessante nesta Copa.

A FIFA adora repetir que esporte e política não se misturam. É uma frase bonita. Elegante. Quase poética.

Enquanto isso, um árbitro senegalês é deportado. Um jogador iraquiano passa horas sendo interrogado. A seleção iraniana encontra dificuldades para permanecer no país anfitrião. Delegações enfrentam revistas humilhantes. Jornalistas são barrados.

Parece que política não pode entrar em campo. Mas pode muito bem ficar na imigração.

Se algo parecido acontecesse na Rússia ou na China, os comentaristas ocidentais estariam fazendo plantão permanente. Haveria editoriais inflamados sobre liberdade, democracia e direitos humanos. Mas quando acontece no autoproclamado líder do mundo livre, tudo recebe um nome mais elegante: "procedimento de segurança".

A Antiguidade pelo menos era mais honesta.

Os romanos não fingiam que o Coliseu era neutro. O imperador não dava entrevista dizendo que gladiadores e política não se misturavam. Todo mundo sabia quem mandava e para que servia o espetáculo.

Hoje a encenação ficou mais sofisticada.

A FIFA finge que é apenas futebol. Os governos fingem que é apenas esporte. Os patrocinadores fingem que é apenas marketing. E nós fingimos acreditar.

No final, a Copa continua cumprindo exatamente o mesmo papel que os grandes jogos da Antiguidade: mostrar quem tem poder, quem dita as regras e quem pode atravessar os portões do império sem ser tratado como suspeito.

Mas talvez exista uma diferença importante entre nós e os filósofos que observavam os jogos antigos.

Nós sabemos de tudo isso.

Sabemos dos interesses econômicos. Sabemos da propaganda política. Sabemos dos patrocínios bilionários, das disputas geopolíticas, das hipocrisias e dos discursos vazios sobre neutralidade.

E mesmo assim vamos assistir. Vamos parar diante da televisão, do celular ou do telão da praça. Vamos gritar os gols, discutir escalações, xingar o juiz, comemorar vitórias improváveis e sofrer derrotas dolorosas. Vamos rir, chorar, abraçar desconhecidos e viver emoções que nenhum discurso político consegue apagar.

Eu também.

Não vou bancar o intelectual distante nem o revolucionário de sofá que diz boicotar o espetáculo enquanto acompanha o resultado escondido no celular.

Vou assistir.

Vou me indignar com as contradições do evento e, poucos minutos depois, provavelmente estarei comemorando um gol espetacular como qualquer outro torcedor.

Talvez seja exatamente essa a genialidade do pão e circo. Não porque nos torne ignorantes. Mas porque nos lembra que somos humanos.

Os imperadores da Antiguidade entendiam isso. Os dirigentes da FIFA também.

Eles conhecem uma verdade desconfortável: por mais conscientes que sejamos das engrenagens do poder, continuamos vulneráveis à emoção.

E quando a bola começar a rolar, bilhões de nós correremos alegremente para a mesma armadilha.

Como ratinhos.

Sorrindo.

FONTE:

http://facebook.com/O.cronista.do.Malbec?locale=pt_BR 




ONLINE
13