Ocupar uma cadeira no STF

Ocupar uma cadeira no STF

 

 

André Mendonça não deveria mais ocupar uma cadeira no STF por razões que cabem em qualquer livreto de preceitos mais básicos da ética pública, não no dicionário da seita que quer transformar o Judiciário em sucursal de palanque. O rótulo com o qual chegou ao tribunal nunca foi um detalhe folclórico. Foi o critério político da indicação. Jair Bolsonaro vendeu ao mercado evangélico a promessa de um ministro “terrivelmente evangélico”. Mendonça tentou, na sabatina e depois, suavizar a fórmula para “genuinamente evangélico”. A troca de advérbio não altera o problema. Um magistrado da mais alta Corte não é pastor com toga. É servidor vitalício de um Estado que se declara laico e de uma Constituição que não pede credencial de templo para ser aplicada.

O que se vê, quatro anos e meio depois da posse, é o inverso: um ocupante do cargo que trata a função como fardo quando a Corte faz o trabalho de defender a democracia, que transforma o salário do teto republicano em lamento de classe média ofendida, que converte prestígio institucional em carteira de contratos públicos e que não consegue, ou não quer, separar dogma de jurisdição.

1 –A tristeza no “momento errado”

Há poucos dias, diante de magistrados evangélicos reunidos em seminário na Universidade Presbiteriana Mackenzie, Mendonça descreveu os dois primeiros anos no Supremo como “períodos de muita infelicidade”.

A toga não é um divã. Quem ocupa o topo do Judiciário aceita, no ato da posse, que o cargo pesa.

2 –Reclamar do salário no teto da República

No mesmo encontro, o ministro ofereceu uma teodiceia financeira. Um juiz, disse, “não pode ter a pretensão de ficar rico”. O subsídio daria apenas “condição média” de vida, “classe B”, privilegiada, mas ainda sujeita ao controle de despesas no fim do mês. Os números desmentem o tom de privação. Se a remuneração constitucionalmente fixada não basta para a expectativa de vida do ocupante, a consequência republicana não é o discurso de humildade em congresso de juízes evangélicos. É a porta da rua, que certamente é a serventia da casa.

3 –Milhões via instituto com contratos públicos

A terceira razão é a que rasga de vez o véu da imparcialidade. O Instituto Iter, sociedade ligada a Mendonça e à mulher, estruturada como companhia fechada e com gestão formal deslocada para nomes de confiança, entre eles o ex-ministro da Educação Victor Godoy, transformou-se em máquina de receita com o setor público. Apurações jornalísticas apontaram cerca de R$ 4,8 milhões em contratos com órgãos estatais em pouco mais de um ano, em 2025.

4 –O pastor que não cabe no Estado laico

A quarta razão é a mais estrutural. Ninguém precisa saber, e ninguém deveria precisar levar em conta, qual é a religião de André Mendonça. Fé é direito. Culto é liberdade. O que um ministro do STF não pode fazer é admitir, na prática e no discurso, que os preceitos da própria denominação atravessam o critério com o qual decide a vida de 220 milhões de pessoas que não frequentam o mesmo templo. Mendonça voltou ao púlpito da Igreja Presbiteriana. Prega. Discursa em marcha religiosa. Aparece como reverendo e como ministro no mesmo ciclo de notícias. Estado laico não pede que o juiz seja ateu. Pede que o juiz não transforme dogma em razão para decidir.

O que essas quatro razões somam?

Isoladas, cada uma dessas razões já seria grave. Juntas, desenham um perfil incompatível com a permanência no Supremo: o ministro que se declara infeliz no ciclo em que a Corte enfrenta o golpismo; o ministro que acha o teto salarial estreito demais para sua ideia de vida; o ministro cujo instituto coleta milhões do mesmo Estado que ele julga; o ministro que não separa o reverendo do relator.

Não se pede aqui o linchamento moral de uma biografia. Pede-se o óbvio e que a República anda adiando. Há formas de deixar o STF sem transformar o pedido em imitação do bolsonarismo predador. Aposentadoria. Renúncia. Recuo voluntário diante do acúmulo de conflitos. O que não há é espaço honesto para fingir que tudo isso é “perseguição” ou “incompreensão da fé”.

Por Henrique Rodrigues

FONTE:

TaMara Baranov 

 

 

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TIMING PERFEITO

Por Graça Lago*

 

Nesta terça-feira, dia 1º de setembro, à tarde, o ministro André Mendonça, do STF, retirou o sigilo do inquérito e expôs ao público a relação entre o ministro Alexandre de Moraes, seu colega na corte, e Daniel Vorcaro, o maior fraudador da história financeira do país. Revelações aparentemente chocantes vieram à tona, envolvendo até um ex-ministro do governo bolsonaro, o Fabio Faria, que teria intermediado a aproximação dos dois personagens principais.

Curiosamente – mas só curiosamente – também nesta terça-feira, dia 1º de setembro, pela manhã, a revista “Piauí" publicou uma ampla reportagem mostrando que Flávio Bolsonaro mentiu (mais uma vez) sobre os repasses de Vorcaro ao “filme” sobre Jair. Embora o candidato pinóquio tenha jurado que os repasses milionários de Vorcaro pararam em maio de 2025, a reportagem da “Piauí” comprova que Vorcaro enviou mais 1,6 milhão de dólares, em 16 de setembro, oito dias depois de ser cobrado pelo próprio Flávio, elevando o total para 12,3 milhões de dólares. Há ainda evidências de um novo repasse em outubro, que levaria a soma a 14 milhões de dólares, cerca de 72 milhões de reais.

Também curiosamente, na segunda-feira, dia 31 de agosto, o ICL e a Agência Pública publicaram uma reportagem investigativa mostrando a vida caríssima e requintada de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, “bolsonaristas abrigados nos EUA, que choram miséria e dizem viver sem dinheiro, sem renda, fazendo vaquinha”, como diz a jornalista atenta Eliara Santana.

A coisa estava muito ruim pro lado da famiglia quando vem a providencial decisão do ministro. Se ele quisesse ajudar o tariflavio rachadinha bolsomaster, não haveria momento mais indicado. O candidato pinóquio já ocupa as manchetes vociferando contra Moraes e o assunto dos novos repasses de Vorcaro recém-descobertos fica para trás, esquecido.

*Graça Lago é jornalista

FOTO: JAB com Gemini IA

André Mendonça em entalhe de madeira

 

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 Pode ser uma imagem de texto que diz "OPINIÃO Mendonça declara guerra contra Moraes e coloca STF em sua maior crise em anos Fronteira 360rs ACOMPANHE POR PORNOSSAS REDES SOCIAIS f Fronteira 360 fronteira360.rs"

 

 

GUERRA NO STF

O que André Mendonça fez no caso Master está longe de ser uma movimentação rotineira do Supremo. Um ministro da Corte determinou que a PF levantasse informações envolvendo outro ministro e, diante do material encontrado, acionou a PGR para avaliar os próximos passos.

Não há, na história recente do tribunal, episódio claramente comparável em que um ministro tenha colocado outro colega tão diretamente sob o foco de uma possível investigação.

E as informações envolvendo Moraes são difíceis de ignorar.

Mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro mostram o banqueiro recorrendo ao ministro para tentar obter informações e ajuda diante da pressão da PF, do Ministério Público e do Banco Central.

Vorcaro chegou a perguntar se deveria deixar o país e, às vésperas da prisão, quis saber se a operação poderia acontecer na manhã seguinte.

Há ainda a informação de que Moraes teria editado o contrato de R$ 131 milhões firmado entre Vorcaro e o escritório de sua esposa.

Mais grave: a investigação levantou a suspeita de que informações sobre a Operação Compliance Zero poderiam ter chegado ao banqueiro por meio do ministro.

Mas a crise agora também é interna.

Nos bastidores revelados por Daniela Lima, do UOL, ministros descrevem o ambiente como de “guerra” e “vale-tudo”.

Um dos motivos é o precedente de Dias Toffoli, que foi ignorado. Quando informações sobre sua relação com Vorcaro chegaram à investigação, o material foi levado à Presidência do STF e Toffoli deixou a condução de casos relacionados ao banqueiro. Por que o mesmo não foi feito com Moraes?

Fachin está no meio do confronto: de um lado, Mendonça; do outro, Moraes, seu vice-presidente.

E há um componente político impossível de ignorar em um STF cada vez mais politizado: Mendonça foi indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro, enquanto Moraes foi o ministro que condenou o ex-presidente pela tentativa de golpe.

Isso não prova motivação política na atuação de Mendonça. Mas torna inevitável que a disputa seja observada também por esse ângulo.

No fim, a pergunta é simples: o STF aplicará a mesma régua quando a investigação chegar a um ministro da própria Corte?

📰 Texto: Maicon Schlosser

FONTE: Fronteira360RS




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