Os Professores e a Praia
PS: a leitura deste texto exige capacidade de interpretação!
Os Professores e a Praia
Lúcia Vaz Pedro
Confesso que dormi melhor depois da explicação ao país sobre a razão pela qual os professores entram em greve. Durante décadas, fui enganada, pensando que os professores estavam em greve devido ao dinheiro que perderam, enquanto os seus salários estavam congelados, à falta de professores, à burocracia sufocante, aos quilómetros percorridos todas as semanas, à instabilidade profissional, aos bancos de horas a que os querem obrigar, pois não há quem queira ser professor, deixando de lhes pagar as horas extraordinárias, ou ao envelhecimento da classe.
Afinal, não.
Afinal, fazem greve para ir à praia.
Que alívio!
Como é que não percebi isto mais cedo? Não é à toa que pagam tanto dinheiro a esses comentadores! São eles que descobrem o verdadeiro motivo das coisas!
É evidente! Eles têm mesmo razão!
Um professor acorda de manhã, olha para a previsão do tempo e pensa: "Hoje é um ótimo dia para perder o salário de um dia." Depois pega na toalha, no protetor solar e no chapéu de sol, abandona irresponsavelmente a escola e corre para a praia mais próxima, levando com ele os próprios filhos para que não aprendam, determinado a destruir a Educação Pública, enquanto aperfeiçoa o seu bronzeado.
É um plano maquiavélico! Mas foi descoberto por alguém que sabe tanto sobre os professores, talvez por já o ter sido, ou por ter ficado inspirado por algum! Nesse plano, os alunos ficam sem aulas. Os pais ficam indignados. Enquanto o país está a debater o estado da Educação, o professor, esse perigoso criminoso social, está ocupado a decidir entre um mergulho ou um bola de Berlim. Confesso que a teoria tem encanto. Especialmente porque resolve um problema antigo: já não é necessário discutir as razões das greves. Para quê falar da falta de professores? Para quê falar de horários insuportáveis?
Para quê falar de professores deslocados a centenas de quilómetros das suas casas? Para quê falar de uma profissão que cada vez menos jovens querem abraçar? É muito mais simples imaginar um exército de professores com chinelos e guarda-sois às costas, determinados a sabotar a educação nacional.
A verdade é que existe uma ideia curiosa sobre os professores: quando trabalham, é sua obrigação; quando se queixam, são privilegiados. Quando entram em greve, são preguiçosos e adoram ir à praia. Ninguém diz que os médicos fazem greve para ir ao spa. Ninguém diz que os enfermeiros fazem greve para aproveitar promoções nos centros comerciais. Ninguém diz que os condutores de metro fazem greve para fazer uma excursão a Benidorm. Mas os professores têm este estranho poder de transformar qualquer reivindicação num piquenique. Será trauma? Ou talvez seja mais fácil caricaturá-los do que ouvi-los. Talvez seja mais conveniente ridicularizar quem protesta do que tentar perceber porque protestam. Ou talvez, em Portugal, toda a gente tenha sido estudante e isso crie a ilusão de que todos compreendem a Educação.
É uma convicção comovente. Eu própria já estive doente e nunca me ocorreu comentar uma cirurgia cardíaca. Mas há aqueles que estiveram na escola há oitenta anos e consideram que isso lhes confere autoridade absoluta para explicar aos professores como devem viver, trabalhar e lutar. Basicamente, o problema não é a greve. O problema é a velha ideia de que os professores devem suportar tudo em silêncio. Têm de ensinar. Têm de educar. Têm de resolver problemas sociais. Devem substituir famílias, psicólogos e assistentes sociais. Têm de sorrir. Sorrir muito! E, acima de tudo, devem sofrer discretamente. Porque, no momento em que levantam a voz, os especialistas em toalhas de praia, pagos a peso de oiro, aparecem sempre para lhes explicar as verdadeiras razões que os levaram a fazer greve. Mesmo quando essas razões nunca existiram.
Talvez um dia percebam uma coisa simples: aqueles que perdem dinheiro para fazer greve não estão de férias. Estão a lutar por algo que consideram importante.
Mas admito que esta explicação é menos colorida do que a imagem de milhares de professores espalhados pela costa portuguesa, armados com guarda-sois, bolas de Berlim, bronzeadores e uma conspiração secreta para destruir a educação pública.
E, sejamos honestos, a sátira oferece sempre melhores audiências do que a realidade.
Lúcia Vaz Pedro
FONTE:





