Paulo Freire e a educação
PAULO FREIRE E A EDUCAÇÃO: uma crítica conservadora possível.
Lucas Pinz Graffunder

Conversar sobre Paulo Freire no Brasil costuma ser difícil. De um lado, ele é tratado por alguns admiradores como uma autoridade praticamente incontestável. De outro, é apresentado por certos críticos como responsável por todos os problemas da educação brasileira. Nenhuma dessas posições ajuda muito. Uma crítica conservadora séria não precisa transformar Freire em inimigo, mas também não deve aceitar sua filosofia educacional sem examiná-la. O caminho mais honesto é reconhecer suas contribuições, compreender corretamente seus fundamentos e, então, apontar com clareza aquilo que consideramos insuficiente ou problemático.
Há aspectos importantes no pensamento de Freire que merecem reconhecimento. Sua crítica à humilhação do aluno, ao ensino puramente mecânico e ao autoritarismo escolar toca problemas reais. O estudante não deve ser tratado como uma máquina de copiar conteúdos, nem como alguém sem história, linguagem ou experiência. O diálogo, quando bem conduzido, pode ajudar o professor a compreender as dificuldades dos alunos e tornar o conhecimento mais significativo. Também é importante observar que Freire não afirmou simplesmente que professor e aluno fossem iguais em suas funções. Em seus escritos, ele reconhece a diferença existente entre eles e procura distinguir o diálogo tanto do autoritarismo quanto da permissividade.
Reconhecer isso, porém, não significa aceitar toda a filosofia que sustenta sua proposta. O primeiro ponto de preocupação está na relação que Freire estabelece entre educação, conscientização e transformação social. Para ele, a educação não deve apenas proporcionar conhecimento, mas desenvolver uma consciência crítica capaz de interpretar a realidade e agir sobre ela. O processo educativo tende, portanto, a encontrar seu cumprimento na práxis, entendida como reflexão e ação destinadas a transformar o mundo. Essa concepção está ligada a uma matriz filosófica dialética, fortemente influenciada por Hegel e posteriormente relacionada ao humanismo marxista e à ideia de emancipação histórica.
Aqui surge uma pergunta legítima: até que ponto a educação deve assumir como finalidade a transformação política da sociedade? Certamente a escola deve ajudar o aluno a compreender problemas sociais, reconhecer injustiças e participar responsavelmente da vida pública. Mas existe uma diferença entre formar cidadãos capazes de julgar a realidade e formar alunos para aderirem a um projeto de transformação já imaginado pelo educador. Quando o bom resultado da educação é identificado com determinada consciência política, aparece o risco de que somente uma conclusão seja considerada verdadeiramente crítica. O aluno que concorda com a leitura proposta é visto como conscientizado. O que discorda pode ser considerado ingênuo, alienado ou ainda preso à visão do opressor.
Essa dificuldade não significa que toda educação freiriana resulte necessariamente em doutrinação. Significa apenas que sua estrutura conceitual pode favorecer esse problema. Afinal, quem define o que é uma consciência crítica? Quem estabelece quais relações são opressoras e qual transformação é libertadora? Toda educação trabalha com valores, e nenhuma escola é absolutamente neutra. Porém, reconhecer a inexistência de neutralidade completa não concede ao professor o direito de utilizar sua autoridade para conduzir o estudante a uma posição partidária. A tarefa do mestre é oferecer conhecimento, apresentar argumentos com justiça, corrigir erros e ensinar o aluno a pensar. Seu papel não é decidir antecipadamente o que o aluno deverá pensar. (aliás, isso não se encaixa aos professores de Escola Dominical. Mas isso é outro assunto).
Outro ponto de divergência está na maneira de compreender a autoridade e a transmissão do conhecimento. A crítica freiriana à chamada educação bancária é válida quando descreve uma aula em que o professor fala sem explicar, o aluno copia sem compreender e a memorização substitui completamente o pensamento. Contudo, a metáfora pode tornar suspeito algo que pertence inevitavelmente à educação: a transmissão. Há conhecimentos que o aluno ainda não possui e que precisam ser recebidos de alguém que os estudou anteriormente. O estudante não constrói sozinho a gramática, a matemática, a história, a literatura ou as ciências. Ele recebe uma herança intelectual, assimila conceitos, memoriza elementos básicos, pratica exercícios e, progressivamente, torna-se capaz de analisar e julgar por conta própria.
Receber não é necessariamente permanecer passivo. Um aluno pode escutar com atenção, organizar o que aprendeu, comparar informações, fazer perguntas e formar seu próprio juízo. O bom ensino une transmissão e participação. O professor não deve ser um tirano, mas continua sendo professor. Ele possui conhecimento e responsabilidade que o aluno ainda não possui. O diálogo não elimina essa assimetria. Pelo contrário, o diálogo educacional só é proveitoso quando cada participante reconhece sua função. O professor aprende coisas com os alunos, mas sua responsabilidade específica permanece sendo ensiná-los.
A visão conservadora também se mostra cautelosa diante da tendência de interpretar a sociedade principalmente pela oposição entre opressores e oprimidos. Não há dúvida de que existem injustiças, abusos de poder e estruturas que precisam ser corrigidas. Entretanto, nem toda desigualdade é opressão e nem toda autoridade é dominação. A vida social também é formada por relações de cuidado, gratidão, dever, lealdade, responsabilidade e pertencimento. Pais e filhos, professores e alunos, pastores e membros da Igreja não ocupam funções idênticas, mas essas diferenças não precisam ser compreendidas como antagonismos.
A tradição conservadora entende que instituições como a família, a escola, a Igreja e a comunidade carregam uma sabedoria acumulada, ainda que também sejam marcadas por falhas humanas. Por isso, o conservador não se opõe a reformas, mas pergunta o que determinada reforma poderá destruir junto com os abusos que pretende corrigir. A educação deve preparar o aluno não apenas para questionar o mundo recebido, mas também para compreendê-lo, respeitar aquilo que nele é bom e assumir responsabilidade por sua preservação. Antes de ensinar o jovem a desconstruir uma herança, é necessário permitir que ele a conheça.
Há, ainda, uma questão antropológica. Freire apresenta o ser humano como inacabado, educável, relacional e aberto à transformação. Essa visão contém elementos valiosos, como a esperança, a responsabilidade e a possibilidade de aprendizagem. O artigo sobre sua filosofia educacional mostra que a esperança freiriana está ligada à práxis e à construção histórica de uma humanidade futura. O conservador cristão, contudo, considera necessário acrescentar uma visão mais realista sobre a permanência do pecado e da desordem no coração humano.
O problema do homem não está somente nas estruturas, na ignorância ou na falta de conscientização. O oprimido também pode desejar o poder, o educador libertador pode manipular seus alunos e o revolucionário pode tornar-se tirano. Uma nova estrutura social não produz automaticamente um novo ser humano. A educação pode instruir, disciplinar, civilizar e formar hábitos. Pode corrigir muitos males e contribuir para uma sociedade mais justa. Mas ela não consegue eliminar o egoísmo, o orgulho, a cobiça e o desejo de dominar. Por isso, é prudente desconfiar de toda proposta educacional que atribua à conscientização e à transformação histórica uma capacidade quase redentora.
Do ponto de vista luterano, essa diferença precisa ser preservada com especial cuidado. A educação pertence ao bom governo de Deus no mundo e possui enorme importância. Ela prepara pessoas para suas vocações, transmite conhecimento, disciplina a razão e ensina o serviço responsável ao próximo. Mas a libertação fundamental do ser humano não é produzida pela consciência crítica nem pela ação política. Ela é recebida na obra de Cristo, anunciada pelo Evangelho. A escola pode combater a ignorância. Somente Cristo liberta do pecado e da morte.
Por isso, uma posição conservadora equilibrada não precisa rejeitar tudo o que vem de Paulo Freire. Podemos aprender com sua preocupação com o aluno concreto, sua denúncia da humilhação e sua defesa de uma educação mais atenta ao diálogo. Ao mesmo tempo, podemos recusar a subordinação do ensino a um projeto político, preservar a autoridade legítima do professor, defender a transmissão objetiva do conhecimento e insistir numa compreensão mais realista da condição humana.
Uma educação verdadeiramente boa não precisa escolher entre conteúdo e diálogo, tradição e reflexão, autoridade e respeito, herança e reforma. Ela deve manter essas realidades juntas. O professor transmite o que recebeu, mas também escuta. O aluno é respeitado em sua dignidade, mas é chamado à disciplina. A tradição é examinada, mas não tratada com desprezo. As injustiças são enfrentadas, mas sem transformar toda relação humana numa luta entre inimigos. Assim, a educação pode formar pessoas instruídas, prudentes, responsáveis e capazes não apenas de mudar o mundo, mas também de conservar aquilo que nele merece ser amado.





