PCC e do CV são terroristas?

PCC e do CV são terroristas?

 

A classificação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos Estados Unidos está sendo apresentada ao público como uma medida salvadora, messiânica, de combate ao crime organizado...

E só o que tem é desavisado aplaudindo!

Só que tem um detalhezinho indigesto que não levam em consideração: tipo, quem criou as condições históricas, políticas e econômicas para que essas organizações surgissem, crescessem e se transformassem em potências criminosas transnacionais?

Hein?

Quem?

Nenhuma facção brota do nada. Nenhuma organização criminosa surge por geração espontânea. O crime organizado é produto de estruturas sociais, políticas estatais, mercados ilegais e interesses econômicos bem concretos. No caso brasileiro, a história das facções está profundamente ligada à ditadura militar instaurada em 1964, golpe que contou com apoio político, diplomático e logístico dos Estados Unidos. Foi dentro do sistema prisional criado e expandido por aquele regime que presos políticos e presos comuns passaram a conviver nas mesmas unidades. Dessa experiência surgiram formas de organização coletiva que mais tarde dariam origem à Falange Vermelha e, posteriormente, ao Comando Vermelho.

Isso a turminha de direita que reza dia e noite pro Trump vir dar jeito no Brasil nem sonha né?

Vamos adiante que não é só isso. Ao longo do século XX e início do século XXI, os Estados Unidos construíram uma política internacional baseada na chamada "guerra às drogas", uma estratégia que consumiu trilhões de dólares, militarizou países inteiros e produziu resultados desastrosos. O consumo de drogas continuou existindo, os cartéis se fortaleceram, a violência aumentou e as redes criminosas expandiram suas operações globais. A própria história norte-americana está repleta de escândalos envolvendo relações ambíguas entre agências de inteligência, grupos armados e mercados ilegais. O caso Irã-Contras permanece como um dos exemplos mais conhecidos de como interesses geopolíticos podem se cruzar com circuitos do narcotráfico...

Ao mesmo tempo, o sistema financeiro internacional deixou claro, repetidamente, que o crime organizado não sobrevive apenas com fuzis e traficantes de rua. Isso aí é praticamente só estética. Ele depende mesmo é de bancos, paraísos fiscais, empresas de fachada e mecanismos sofisticados de lavagem de dinheiro...

Diversas instituições financeiras globais já foram investigadas ou punidas por falhas graves relacionadas à circulação de recursos provenientes do narcotráfico. Ainda assim, é raro ver executivos presos ou estruturas financeiras desmontadas com a mesma intensidade empregada contra os operadores mais visíveis do crime. A repressão costuma atingir em cheio, de forma bruta e desproporcional é a periferia do sistema, enquanto os centros financeiros permanecem protegidos...

Existe também a questão do mercado internacional de armas. Grande parte do armamento utilizado por organizações criminosas na América Latina tem origem direta ou indireta em circuitos internacionais de comércio legal e ilegal. O fortalecimento das facções brasileiras não pode ser explicado jamais apenas por fatores internos. Ele está conectado a fluxos globais de armas, dinheiro e mercadorias que atravessam fronteiras sob os olhos passivos e cúmplices de governos, agências de inteligência e instituições financeiras...

Por isso, quando Washington anuncia que PCC e Comando Vermelho são organizações terroristas, é legítimo perguntar quais serão as consequências políticas dessa classificação. O terrorismo não é apenas uma categoria criminal, ele é também uma categoria geopolítica. Ela abre espaço para sanções, pressões diplomáticas, monitoramento financeiro ampliado e, em determinadas circunstâncias, justificativas para intervenções externas. A história recente mostra que o discurso da segurança frequentemente foi utilizado como instrumento de expansão de influência política e estratégica.

E por favor, o que eu estou abordando aqui não significa em momento algum negar a violência óbvia das facções ou relativizar seus crimes. PCC e Comando Vermelho são responsáveis por assassinatos sim, extorsões sim, tráfico sim e controle armado de territórios sim, sem atenuantes. O problema é outro. O problema é transformar essas organizações em monstros extra-sistema, desconectados das condições históricas que as produziram, impedindo qualquer compreensão séria do fenômeno.

A grande denúncia que precisa ser feita é que os mesmos centros de poder que hoje se apresentam como "combatentes heróicos", "justiceiros honrados" que vão livrar o mundo do crime organizado, muitas vezes participaram, de forma bem direta ou indiretamente, da construção do ambiente que permitiu sua expansão! Enquanto a narrativa oficial aponta pra traficantes e facções, raramente se discute o papel das ditaduras apoiadas externamente, da indústria global de armas, dos sistemas financeiros que reciclam dinheiro ilícito e das políticas fracassadas de guerra às drogas.

A história do crime organizado não é apenas uma história de criminosos locais, regionais. É também uma história de Estados, mercados, interesses geopolíticos e estruturas de poder. E enquanto essas conexões permanecerem fora do debate público, continuaremos assistindo ao mesmo roteiro hipócrita sem vergonha que demoniza periferias e favelas, age sob a mão pesada do racismo estrutural, lucra com programas de segurança pública ineficazes e extremamente violentos, com a explosão da máquina carcerária, com o medo constante da população sendo pressionada o tempo todo a apoiar projetos de poder cada vez mais reacionários!

Muito pouco nesse mundo é o que parece.

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Gi Stadnicki

FONTE:

Giovanna Stadnicki




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