Pensando por nós

QUEM ESTÁ PENSANDO POR NÓS?
A política verde-amarela entrou em estágio de terra arrasada. Para vencer uma eleição vale tudo. O que importa é conquistar votos.
Debates, projetos e programas foram substituídos pela disputa nas redes sociais. A política, que deveria ser o espaço da argumentação, tornou-se uma guerra pela atenção.
Nesse ambiente, qualquer fake news tem valor. Basta ser convincente, emocional e repetida muitas vezes.
A mentira ganhou velocidade e transformou-se numa máquina de desinformação capaz de corroer a confiança nas instituições e nas próprias pessoas.
As redes sociais não inventaram a mentira, mas deram a ela uma força inédita.
Os algoritmos aprenderam que medo, raiva e indignação produzem mais engajamento do que informação e reflexão.
Recebemos apenas aquilo que confirma nossas convicções. Criaram-se bolhas onde cada um enxerga o país diferente.
Os grupos de WhatsApp ampliaram o problema. A mentira chega pelo celular de alguém conhecido, um amigo, um parente, um colega. A confiança substitui a verificação.
A mensagem é encaminhada sem fonte, sem contexto e sem responsabilidade. Assim, a ignorância se espalha em velocidade industrial, acompanhada pelo ódio e pela intolerância.
Ao mesmo tempo o jornalismo profissional passou a disputar espaço em condições desiguais.
Apurar uma informação exige tempo e responsabilidade. Produzir uma mentira basta apenas alguns segundos.
O número de seguidores passou a ser confundido com conhecimento. Influencers tornaram-se autoridades simplesmente porque conseguem reunir grandes audiências.
A informação, que deveria servir ao cidadão, passou a servir aos interesses de quem domina a audiência. Uma espécie de prostituição da verdade.
Vende-se aquilo que produz mais cliques, mais seguidores e mais poder. Quanto maior o poder da tecnologia, maior deve ser nossa capacidade de conferir, questionar e desconfiar.
O problema não é apenas tecnológico. É político e humano. Estamos perdendo a capacidade de duvidar. O adversário deixou de ser alguém que pensa diferente e passou a ser alguém que precisa ser destruído.
As consequências são graves. Uma sociedade que já não consegue distinguir fato de mentira torna-se vulnerável à manipulação.
Uma democracia pode manter suas eleições e, ainda assim, perder aquilo que dá sentido a elas: cidadãos capazes de escolher livremente.
Talvez a pergunta mais importante seja simples e incômoda: em que momento deixamos de pensar por nós mesmos?
Porque, quando algoritmos decidem o que devemos ver, influencers o que devemos acreditar e grupos de WhatsApp quem devemos odiar, já não somos apenas usuários das redes.
Estamos entregando a outros aquilo que nenhuma democracia pode terceirizar: a nossa consciência.





