Pior país do mundo para ser professor

Pior país do mundo para ser professor

O pior país do mundo para ser professor

Um menino colocou um caco de vidro no copo d’água da professora e a turma assistiu em silêncio. O tamanho da plateia ficou muito maior

Reprodução @profmichele5 / Instagram
Michele desabafou sobre o caso nas suas redes sociais.
Reprodução @profmichele5 / Instagram

 

 

Na terça-feira passada, em uma escola municipal de São José dos Campos, a professora Michele Ramos conta que um menino pegou um caco de vidro, mostrou para os colegas e colocou no seu copo d’água. Ele não escondeu o gesto. Exibiu. A turma viu, ficou no murmurinho, e ninguém a avisou a tempo. Alguns cochicharam baixinho: “Se eu fosse você, não beberia essa água, professora”.

Foi assim que Michele, 37 anos, descreveu a manhã que a levou ao hospital. Ela não bebeu a água e gravou, aos prantos, um desabafo em vídeo que viralizou no país. A escola suspendeu três alunos até o fim do semestre, e a Polícia Civil investiga o caso como tentativa de lesão corporal.

Antes de qualquer outra coisa, é preciso dizer isso com todas as letras: entre os sistemas comparados pela TALIS, o Brasil é o pior lugar para ser professor quando o assunto é intimidação e abuso verbal de alunos. Em 2013, a TALIS, a maior pesquisa internacional sobre docentes, feita pela OCDE, já colocava o Brasil em primeiro lugar em agressão verbal e intimidação relatadas por professores. Onze anos depois, refeita em 55 sistemas de ensino, a pesquisa encontrou o Brasil de novo em primeiro: 47% dos nossos professores apontam a intimidação e o abuso verbal de alunos entre o que os adoece no trabalho, contra 18% da média internacional. O relatório inteiro só destaca um país nessa medida, e é o nosso. O mesmo estudo calcula o custo: professores sob essa pressão têm o dobro de probabilidade de querer abandonar a sala de aula em cinco anos. O relatório saiu, o dado era devastador, e ainda assim não houve nada parecido com uma comoção nacional.

Talvez porque a gente insista em olhar para o lugar errado. O menino do caco de vidro é a parte pequena da história. A parte grande está no resto da turma. Uma sala inteira assistiu a um risco de vida virar suspense compartilhado e escolheu o papel de plateia silenciosa. Essa lógica a gente conhece de outro lugar: é a lógica do feed. A crueldade como conteúdo, os colegas como audiência, o segredo como forma de engajamento. O menino não agrediu apesar de estar sendo visto. Agrediu porque estava sendo visto.

E há uma simetria que dói. A dor de Michele só foi ouvida pelo país quando virou vídeo viral. A resposta oficial veio rápida, com suspensão, acolhimento e Justiça, mas veio na velocidade da repercussão. Proteção que depende de viralização chega tarde por definição. A professora que não grava desabafo, e é a imensa maioria, engole o episódio, pede transferência ou adoece em silêncio estatístico.

O terreno para isso foi preparado em camadas. Ensinaram o país a desconfiar do professor: ou doutrina, ou trabalha pouco, ou tem férias demais. E ensinaram também a santificá-lo: guerreiro, herói, vocacionado, palavras bonitas que custam bem menos que salário e carreira. Quando uma profissão vira caricatura por tempo suficiente, agredi-la fica menos absurdo. A normalização não é um ato. É uma omissão acumulada.

Agora repare no que nós fizemos com o vídeo de Michele. Assistimos. Comentamos indignados. Compartilhamos. E seguimos rolando a tela. Uma sala de aula viu o copo e ficou no murmurinho; um país viu o vídeo e também ficou no murmurinho. A plateia só mudou de escala.

Por isso a pergunta mais útil da semana talvez caiba na mesa do jantar, e não serve só para os filhos: se você visse o menino, o que faria? Vale ouvir a resposta sem corrigir na primeira frase. É no silêncio entre a pergunta e a resposta que se forma, ou não, a coragem.

Porque o contrário da violência contra professores não é a indignação depois do vídeo. É alguém que se levanta e faz alguma coisa, antes do próximo copo.

FONTE:

https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/rafael-parente/noticia/2026/07/o-pior-pais-do-mundo-para-ser-professor-cmr9iwze4006n013vf0peu7af.html 




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