Política internacional de dissimulação
Fim da política internacional de dissimulação
Foram tantas ilusões soterradas nos últimos tempos: fim da mitologia do liberalismo antiprotecionista; ocaso da ideia de soberania nacional incontestável pelo Império; enfraquecimento do sonho de uma comunidade internacional capaz de resolver as suas diferenças sem chantagem e por meio de organismos de arbitragem; fim da utopia de que um país não pode, por ser potência, querer interferir na política interna dos outros, etc.
Donald Trump está dizendo que independência de poderes em país sem poderio militar é balela.
Tudo começou quando Jair Bolsonaro mandou o seu filho Eduardo chorar nos Estados Unidos contra o que considera perseguição a ele: não poder tentar dar um golpezinho de Estado sem ter de responder diante da justiça, sem usar tornozeleira e certamente passar uma temporada na cadeia; não poder mentir sobre as urnas eletrônicas e anular o resultado da eleição que perdeu; não poder manter campanhas de fake news nas redes sociais; não poder inflamar militares contra a democracia; não ser possível a um dos golpistas “digitalizar” pensamento sobre assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes; não ser aceitável escrever cenários de prisão de ministros do STF.
Enfim, coisinhas assim, feitas com ajuda dos chamados setores de “inteligência”, que, com frequência, não fazem jus ao autoelogio. Donald Trump aproveitou a choradeira e acrescentou as reclamações das suas Big Techs: não poder ditar leis no Brasil; não poder manipular eleitores e eleições; sofrer concorrência “desleal” de tecnologias brasileiras mais eficazes como o Pix. Já é tempo, aliás, de o Brasil parar de usar aplicativos como o Uber para chamar táxi. Qualquer guri no quarto faz um aplicativo equivalente. Basta que a vira-latice nacional pare de pensar que precisa pagar royalties para sair de casa.
O mundo atual é comandando por Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin, que contam com seus satélites e seus protegidos. Trump dá cobertura para Benjamin Netanyahu. E a Europa nisso tudo? A Europa dobrou os joelhos, aceitou humilhações e está contentinha com seu acordo com o imperador do mundo. Nem pia. Não vai se comprometer depois de ter engolido sapo para não atrapalhar seus negócios. Montesquieu, Rousseau, Voltaire e outros veem as luzes do Ocidente se apagarem.
O edifício iluminista está ruindo. Deu para ele. Valeu!
Antigamente os Estados Unidos tentavam dissimular seus lances sujos. A “Operação Brother Sam”, de apoio militar ao golpe de 1964, foi mantida em sigilo durante muito tempo. Agora, não. É ameaça explícita, chantagem oficial, bravatas em redes social. O mais impressionante é tudo isso contar com ajuda de brasileiros que se dizem patriotas. Fim do tempo das simulações. Ficam os simulacros. A democracia não morreu. Agoniza. Em situação de simetria, o Brasil deveria retirar seu embaixador dos Estados Unidos e acender a luz amarela para uma ruptura de relações até um pedido de desculpas.
Igualado a ditaduras e países que praticam terrorismo de Estado ou protegem terroristas, o Brasil tenta salvar a face sem perder as calças. Pede-se à nossa diplomacia que invente o círculo quadrado.
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