Povo das igrejas

O recente escândalo envolvendo o reverendo Arival Dias Casimiro, pastor titular da Igreja Presbiteriana de Pinheiros (IPP), não é um fato isolado e isso precisa ser dito. É o sintoma terminal de uma patologia sistêmica. Acusado de assédio sexual e abuso espiritual por uma ex-funcionária, o caso foi encerrado por um acordo trabalhista de R$ 106 mil e um "ressarcimento" interno de R$ 128 mil feito pelo próprio pastor. Do ponto de vista técnico-jurídico, a ausência de uma sentença de mérito impede que se fale em condenação legal. Contudo, pro cristão que ainda preza pela fé que abraçou, a reação eclesiástica diante do pecado expõe uma realidade muito perturbadora que é que o sistema religioso atual faliu moralmente e funciona pra proteger a si mesmo, não pra manifestar a crença num "Reino de Deus".
Sociologicamente, o que a gente testemunha no meio evangélico brasileiro é o fenômeno da institucionalização do sagrado. A igreja que figura no Novo Testamento bíblico como um organismo vivo (a Eclésia), tornou-se uma corporação burocrática e política...
Quando um sistema prioriza a manutenção do seu patrimônio, da sua reputação e do seu poder político - exemplificado pelo fato de a IPP abrigar autoridades do mais alto escalão da República, como o ministro do STF André Mendonça, os valores do evangelho são os primeiros a serem sacrificados no altar da conveniência. Lamento.
A engrenagem desse sistema é intrinsecamente perversa porque utiliza o nome de Deus pra validar assimetrias humanas de poder. Daí surge o "abuso espiritual", quando o líder religioso não usa apenas de sua força hierárquica como chefe, ele sequestra a autoridade divina pra subjugar a consciência do liderado.
Criou-se no ambiente evangélico uma blindagem teológica herética, onde questionar as atitudes de um pastor influente é rotulado como "rebeldia", "falta de submissão" ou "ataque ao ungido do Senhor". Isso é uma distorção sociológica e teológica perigosa, que instrumentaliza a fé para silenciar os vulneráveis.
Enquanto as instâncias eclesiásticas se apressam em aprovar resoluções contra a "maledicência digital" pra punir quem expõe os erros da liderança na internet, opera-se uma inversão ética escandalosa. O sistema religioso passou a tratar o "escândalo" como o ato de denunciar o pecado, e não como o pecado em si. Há uma podridão estrutural em um ambiente que ensina sistematicamente às mulheres o dever do perdão incondicional, do silêncio obsequioso e do suportar o sofrimento para "não envergonhar a obra", enquanto estende tapetes vermelhos, coloca panos quentes e acumula resoluções protetivas a homens poderosos que tratam abusos graves como meros erros cabíveis de perdão e esquecimento...
"Importante é que a obra desses homens prossiga, que continuem a pregar o evangelho"...
Com que moral?
O dinheiro que circula nesses bastidores...
Ô meu povo...
Milhares de reais transferidos pra "ressarcir" vítimas após conflitos jurídicos funciona como uma indulgência moderna. Compra-se o silêncio, homologa-se o esquecimento e preserva-se o púlpito. O sistema se comporta exatamente como as corporações seculares mais corrompidas, calcula o custo financeiro de conter um dano reputacional e segue a engrenagem administrativa como se nada tivesse acontecido...
Pra a igreja evangélica, o sistema tornou-se um fim em si mesmo. Ele idolatra os seus templos, as suas marcas e as suas lideranças influentes e quando uma vítima precisa recorrer à Justiça dos homens pra conseguir o mínimo de dignidade que lhe foi negada dentro da "casa de Deus", o sistema religioso confessa a sua própria falência espiritual. E atenção: o verdadeiro escândalo que a igreja evangélica precisa encarar de frente não é nem a exposição pública de seus líderes, mas o fato de que a estrutura eclesiástica tornou-se um lugar seguro pros poderosos, só pra eles, enquanto é cada dia mais um ambiente de desamparo absoluto pra quem ousar clamar por justiça...
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Gi Stadnicki
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Sobre o caso: "Você mexe comigo": Igreja faz acordo de R$106 mil após acusação de assédio https://www.metropoles.com/.../voce-mexe-comigo-igreja...
FONTE:





