Professor na escola pública por um ano

Educação em Pauta | Matheus Teotônio de Sousa reflete sobre sua profissão, relatando as dificuldades e as aprendizagens na rede pública, em que percebe o ensino como um ato de resistência
*Foto: Flávio Dutra/Arquivo JU
Escrevo este texto às vésperas do Dia dos Professores, um momento em que geralmente me ponho a refletir sobre a minha profissão. Há um tempo tenho vontade de contar um pouco sobre o meu cotidiano para quem é leigo, mas reconhece a importância do nosso ofício. Importância essa que eu não entendia muito bem quando entrei na universidade, mas sobre a qual tinha ideias meio precipitadas.
Caso ainda não saiba, o domínio técnico de uma área do conhecimento é pré-requisito, mas os cursos de licenciatura também têm que oferecer uma formação humanística, que nos ajude a lidar com o nosso foco de trabalho: o ser humano. Isso porque me formei em Química, e as Ciências Exatas não tiveram, em princípio, uma cultura de formação que valorizasse o papel humano, pois isso poderia deturpar a objetividade do conhecimento científico. A área de educação em Ciências — datada, no Brasil, de meados dos anos 1970 —, mais recentemente, vem incentivando o pensamento crítico, a reflexão sobre a prática e outros valores antes desconsiderados. Nesse sentido, acaba se opondo a uma cultura há muito engessada e que não entende muito bem como os humanos influenciam a Ciência.
Em meio a esse contexto, me formei, com muitas dificuldades, num dos cursos cuja taxa de evasão é das maiores na Universidade. Logo entendi que poucos conseguiam trabalhar com o ensino. Ao ingressar na rede pública estadual de Ensino Médio, na experiência com os alunos, fui entender o porquê.
Paulo Freire demonstrou que nosso trabalho nas escolas é uma grande troca. Não há docência sem discência. Quem ensina aprende, e quem aprende também ensina.
Aprendi que o trabalho é uma necessidade, e que muitos veem mais sentido em trabalhar do que em estudar. Aprendi que, para a maioria, a hora da merenda é sagrada e é o que mais gostam na escola. Aprendi que os conflitos familiares dificultam a aprendizagem. Aprendi que o estado emocional dos alunos afeta o seu desempenho na escola. Aprendi que as questões de saúde afetam o corpo e a mente, sobretudo os muitos casos de transtornos de aprendizagem mal diagnosticados. Aprendi que muitos suportam diariamente dificuldades que eu não vivi como estudante. Aprendi que a saúde mental da nossa juventude importa, e muito. Aprendi que o estudante de escola pública, na “corrida da vida”, larga atrás de quem estudou a vida toda em escola privada. Por fim, resta pouco tempo para exercer nossa função por ofício: ensinar.
Maria Helena de Souza Patto, em seu livro A Produção do Fracasso Escolar: histórias de submissão e rebeldia, analisa as ideologias envolvidas nas dificuldades de escolarização de crianças das classes populares. Constatou que muitos docentes focavam nas vulnerabilidades de várias ordens e não reconheciam as potencialidades individuais. Somos falhos e sofremos influências pretensiosamente neutras e naturais no ambiente de trabalho. Somos limitados.
Sou de classe média; nasci, cresci e vivo em Alvorada, cidade com menor desenvolvimento da região metropolitana. Uma cidade onde muitas pessoas dormem; trabalham, no entanto, na capital. A periferia é a grande parte do meu público escolar.
Haja serotonina e terapia em dia. A nossa disposição nem sempre é suficiente para cumprir o nosso papel no ensino. O cotidiano escolar acaba nos colocando em “n” funções: lidar com os alunos, planejar as aulas, corrigir as avaliações. Se der tempo e se a frustração não nos corromper, conseguimos ensinar. Pena que, também, nem tudo o que se ensina se consolida como aprendizagens nessa via de mão dupla.
Nossa juventude não parece saber para onde vai. Ao serem perguntados sobre o que fazer depois de terminar o Ensino Médio, muitos não sabem. Não os julgo por se sentirem perdidos nem por terem dúvidas sobre suas vidas. Os poucos que resistem e tentam a universidade encaram as barreiras e dificuldades de um ensino que não os prepara bem o suficiente e notam as lacunas da sua formação. Por isso, estudar é um ato de resistência e a maior rebeldia que alguém pobre pode fazer. Estou ali por esses rebeldes do nosso sistema de ensino. Por fim, aprendi que aprender pode ser um grande luxo. E ensinar é um ato de coragem.
Matheus Teotônio Kucharski de Sousa é licenciado em Química pela UFRGS e professor da rede estadual de Ensino Médio do Rio Grande do Sul pela 28.ª Coordenadoria Regional de Educação.
FONTE:
https://www.ufrgs.br/jornal/o-que-aprendi-sendo-professor-na-escola-publica-por-um-ano/