Professores exaustos

Professores estão exaustos. Mas a resposta pode não estar onde imaginamos.
A chamada ciência da felicidade reúne pesquisas da psicologia e das neurociências que investigam, com base em evidências, o que realmente sustenta o bem-estar. Os resultados desafiam nossa intuição: mais produtividade, mais dinheiro ou simplesmente “dar conta de tudo” não são, necessariamente, o caminho. ![]()
A psicóloga Laurie Santos (@lauriesantosofficial), professora da Yale University (EUA) e criadora do curso mais popular da universidade, "Psychology and the Good Life" (“Psicologia e o Bem Viver”), explica por que nossa mente nos engana, como a percepção do tempo influencia a saúde mental e quais práticas simples ajudam a enfrentar o esgotamento docente.
Na entrevista, ela também aborda a produtividade tóxica, a importância da autocompaixão e o papel estratégico das escolas na proteção do bem-estar dos professores.
Leia a entrevista completa no Porvir e compartilhe com outros educadores.
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Professores exaustos: a ciência da felicidade pode mudar esse cenário?
Psicóloga cognitiva e professora da Yale University, Laurie Santos é referência internacional nas áreas de felicidade e bem-estar. Nesta entrevista, ela explica por que nossa mente nos engana, como a sensação de ter tempo influencia a saúde mental e quais práticas simples ajudam a reduzir o estresse nas escolas
por Paige Tutt 3 de março de 2026
A docência costuma ser descrita como uma vocação, mas, para muitos educadores, tem se parecido mais com uma prova de resistência. Ao longo das últimas décadas, as exigências da profissão cresceram em todas as direções: jornadas mais longas, turmas maiores, lacunas de aprendizagem mais amplas a serem superadas e uma pressão crescente para atuar como conselheiros e cuidadores. É uma combinação capaz de deixar até os mais apaixonados exaustos.
O ponto central é que aquilo que muitos professores acreditam que vai aliviar o estresse ou trazer mais bem-estar nem sempre funciona. Assim como acontece com a maioria das pessoas, nossas intuições sobre o que nos faria sentir melhor frequentemente estão equivocadas.
Isso não é culpa delas, explica a cientista cognitiva e professora da Universidade de Yale (Estados Unidos) Laurie Santos, uma das principais pesquisadoras mundiais sobre bem-estar e felicidade. “Nossa mente meio que nos engana”, afirma. “Um dos aspectos mais irritantes da mente é que todos temos intuições sobre o que deveríamos fazer para nos sentir melhor. Mas as pesquisas mostram que muitas dessas intuições simplesmente estão equivocadas.”
A questão de como apoiar e sustentar o bem-estar docente está próxima ao coração de Laurie. Ela vivenciou na prática as pressões de trabalhar na educação e reconhece que discursos sobre “escolher a alegria” ou apelos vazios ao autocuidado dificilmente produzem impacto real. Em vez disso, defende mudanças estruturais nas escolas e redes, baseadas na escuta dos professores, combinadas a ferramentas cotidianas fundamentadas em evidências científicas.
Durante seu período como diretora de um college residencial e professora de psicologia em Yale, Laurie criou o curso “Psychology and the Good Life” (“Psicologia e o Bem Viver”, em tradução livre), voltado a compartilhar o que a psicologia científica ensina sobre como viver melhor.
A disciplina se tornou a mais popular da história da universidade de Yale, com quase um quarto dos estudantes de graduação matriculados. Fora de Yale, seu curso na Coursera, “The Science of Well-Being” (A Ciência do Bem Estar), já atraiu mais de 4 milhões de participantes, e seu podcast The Happiness Lab (O Laboratório da Felicidade), que explora pesquisas recentes e questiona mitos sobre felicidade, ultrapassou 35 milhões de downloads.
Recentemente, o site Edutopia conversou com Laurie Santos sobre o que líderes escolares podem fazer para proteger o bem-estar docente, quais equívocos os educadores costumam ter na busca pela felicidade e quais estratégias baseadas em evidências ajudam a enfrentar os desafios diários da profissão. Confira!
Quais são alguns dos grandes equívocos sobre felicidade e bem-estar que você precisa desmistificar repetidamente?
Laurie Santos – Um dos maiores é a ideia de que mais dinheiro nos tornaria felizes. Se você não ganha o suficiente para pagar as contas, sim, mais dinheiro ajuda. Mas o impacto da renda na felicidade se estabiliza muito antes do que imaginamos. Para a maioria das pessoas, dobrar ou triplicar o salário não faz tanta diferença quanto se pensa.
Outro equívoco é acreditar que felicidade depende das circunstâncias. Se eu conseguir uma promoção, se tiver o relacionamento perfeito, então me sentirei melhor. Em situações realmente difíceis, isso pode ser verdade. Mas, para a maioria de nós, as circunstâncias não influenciam tanto quanto esperamos. A mudança mais relevante costuma vir de ajustes nos comportamentos e na mentalidade.
Por fim, há a ideia de que felicidade significa estar feliz o tempo todo. Ansiedade, tristeza, frustração, sensação de sobrecarga. Precisamos enxergar essas emoções como sinais, um sistema de alerta indicando que algo precisa mudar. Essas emoções, por si só, não são ruins.
Para muitos professores, esse sinal costuma ser o burnout. No passado, você falou sobre sua própria experiência com esgotamento como professora universitária. Quais sintomas você sentiu?
Laurie Santos – Um deles é a exaustão emocional, essa sensação de que acrescentar mais uma tarefa pode te quebrar.
Outro sintoma é a sensação de ineficácia pessoal, a ideia de que, mesmo que você faça seu trabalho perfeitamente, nunca será suficiente ou que existem barreiras estruturais impedindo que você realize o que gostaria. Dirigir uma residência universitária, onde estudantes moram e contam com apoio acadêmico e orientação fora da sala de aula, especialmente durante a pandemia de Covid-19, trouxe uma pressão intensa e constante. Dava a sensação de que, por mais tempo e esforço que eu investisse, ainda assim não seria a experiência que eu esperava oferecer aos estudantes.
Mas o principal sintoma para mim, o ponto de ruptura, foi a despersonalização. Um forte sentimento de cinismo. Quando até as pessoas de quem você deveria cuidar, como os estudantes, começam a te irritar profundamente.
Você já afirmou que a produtividade tóxica também pode prejudicar o bem-estar docente. Como isso se manifesta?
Laurie Santos – Muitas vezes aparece como esse desejo constante de mais. Mais avaliações, mais atividades extracurriculares, mais estudantes, mais demandas. Parte disso é estrutural, com departamentos exigindo cada vez mais dos professores. Mas, às vezes, a produtividade tóxica vem de nós mesmos.
Talvez eu sinta que não estou fazendo o suficiente. Que preciso tornar meus planos de aula perfeitos. Que devo me envolver mais. Esse padrão pode levar ao burnout, porque estamos impondo a nós mesmos expectativas altas demais.
Quais medidas os líderes escolares podem adotar para apoiar os professores diante disso?
Laurie Santos – Não teremos um ensino de qualidade nem atingiremos os padrões que desejamos sem proteger a saúde mental dos professores e enfrentar o burnout. Isso é importante por razões de desempenho, mas também financeiras. A rotatividade, as faltas e as licenças médicas têm custo elevado.
É preciso perguntar aos profissionais como estão e como o burnout tem se manifestado. Perguntar do que precisam. Pode ser mais apoio em sala, mais recursos, mais tempo de descanso. Mas só saberemos o que realmente faz diferença se perguntarmos.
Você disse que tirar um ano sabático ajudou a combater o burnout. Mas muitos professores talvez pensem que não têm essa opção. Como a mudança pode acontecer para eles?
Laurie Santos – As coisas geralmente não melhoram apenas com algumas aulas de yoga ou banhos relaxantes. Normalmente é preciso uma mudança mais significativa na relação com o trabalho. Pode ser tirar um tempo de descanso ou reorganizar as demandas profissionais.
É verdade que o burnout pode vir de uma carga de trabalho maior do que nossa capacidade. Mas, às vezes, essa sobrecarga não vem da gestão, e sim das nossas próprias expectativas. O equilíbrio pode surgir quando revisamos o quanto achamos que precisamos fazer e retiramos algumas tarefas da nossa própria lista.
No seu curso, você fala sobre valorizar o tempo mais do que o dinheiro. Pode explicar a psicologia por trás disso?
Laurie Santos – Falamos muito de riqueza financeira, mas não de riqueza de tempo, e os cientistas sociais estão percebendo que isso é fundamental. Abundância de tempo é a sensação subjetiva de ter algum tempo livre. Não é a quantidade objetiva de horas disponíveis, mas a percepção de que você tem tempo para fazer o que precisa.
O oposto é a escassez de tempo, algo que muitos professores sentem. Pesquisas mostram que essa sensação afeta o organismo de maneira semelhante à fome física, aumentando a inflamação, o estresse e prejudicando o bem-estar. Um estudo da professora Ashley Whillans, da Harvard Business School, mostrou que relatar escassez de tempo impacta o bem-estar de forma tão negativa quanto relatar desemprego. Por isso, precisamos priorizar a sensação de ter algum tempo disponível.
Gostaria de comentar algumas estratégias práticas de bem-estar sugeridas por professores. Um educador recomenda reservar diariamente “uma pequena coisa só para você”, como almoçar sem corrigir provas. Ele diz que esses pequenos respiros ajudam a não se esgotar. O que acha?
Laurie Santos – Gosto muito dessa ideia de espaço para respirar. Você permite que o sistema nervoso parassimpático se reorganize, que é o oposto do sistema de luta ou fuga. O parassimpático é responsável pelo descanso e pela digestão. É extremamente poderoso.
Além disso, você está se perguntando do que precisa naquele momento. Essa é uma pergunta central na prática de autocompaixão: o que eu sei que preciso agora? Se você faz essa pergunta, pode ter pequenos vislumbres da resposta. Talvez seja uma pausa de cinco minutos em silêncio. Sabemos que a felicidade se constrói com pequenos passos e prática constante. Um pouco mais de exercício, mais conexão social. Podemos reconfigurar nosso bem-estar ajustando comportamentos e mentalidade.
Muitas vezes pensamos que felicidade depende de grandes mudanças. Mas pode estar em dois minutos no carro ou no momento de mastigar calmamente o almoço. Pequenos gestos podem ter grande impacto.
Outro professor escreve uma pequena vitória diária no calendário antes de sair da escola.
Laurie Santos – Temos um viés de negatividade. Professores costumam notar mais o que deu errado, quando o plano não funcionou ou quando um estudante disse algo difícil. É preciso esforço para perceber o que deu certo. Registrar uma vitória vem da psicologia positiva e mostra o poder de reconhecer aspectos positivos.
Há muitas coisas boas acontecendo na sala de aula, mas não é isso que costuma chamar nossa atenção. Essa prática ajuda a treinar o olhar. Se você faz isso todos os dias, passa a procurar ativamente os momentos positivos e molda o foco da sua atenção.
Uma última estratégia. Uma professora reserva dois minutos por dia para “conversar com o estresse”, escrevendo um diálogo rápido sobre o que está pesando. Ao reler, sente mais clareza.
Laurie Santos – Isso me lembra a pesquisadora Kristin Neff, da Universidade do Texas em Austin, que estuda autocompaixão e sugere começar perguntando: o que está acontecendo comigo?
A resposta pode ser: estou muito estressada agora. Estou irritada com uma decisão da escola. Recebi um e-mail que me deixou aflita. Não é possível exercer autocompaixão sem primeiro nomear o que está acontecendo. Reconhecer isso com atenção plena pode ser extremamente poderoso.
Essa prática também se aproxima do que os pesquisadores chamam de rotulação afetiva. Você não diz apenas que há muita coisa acontecendo. Você identifica emoções específicas, e isso ajuda a compreender do que precisa. Sentir sobrecarga exige um tipo de resposta. Sentir tristeza exige outra. Entender o que o estresse está sinalizando é essencial para saber como agir.
- Publicado originalmente em Edutopia e traduzido mediante autorização © Edutopia.org; George Lucas Educational Foundation
FONTE:
https://porvir.org/professores-exaustos-ciencia-explica/





