Projeto de ensino domiciliar no Senado

Projeto de ensino domiciliar no Senado

Extrema direita quer projeto de ensino domiciliar no Senado sem discussão 

Parlamentares querem levar proposta diretamente ao plenário, sem passar pela Comissão de Educação; especialistas veem tentativa de evitar debate sobre impactos de ensino domiciliar

Publicado em 3 de julho de 2026

Foto: Katerina Holmes/Pexels

 

 

Senadores de oposição protocolaram no dia 30 de junho um requerimento de urgência para levar diretamente ao plenário do Senado o projeto que regulamenta o ensino domiciliar no Brasil. Isso dispensaria a análise da matéria pela Comissão de Educação da Casa. A iniciativa, apresentada a poucos meses das eleições, busca destravar uma proposta aprovada pela Câmara dos Deputados em 2022 e que está parada.

Para especialistas da área, a medida representa mais do que uma disputa sobre um modelo de ensino. Revela uma estratégia política para reduzir o debate sobre um tema que envolve direitos das crianças, deveres do Estado e o papel da escola na sociedade.

O pedido foi apresentado pelo senador Magno Malta (PL-ES) e recebeu apoio de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Eduardo Girão (Novo-CE), Damares Alves (Republicanos-DF), Hamilton Mourão (Republicanos-RS) e Sergio Moro (União Brasil-PR).

Para a professora de Políticas Educacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Iana Gomes de Lima, o regime de urgência não é apenas uma escolha de tramitação, mas uma estratégia para evitar a discussão pública sobre um tema que divide especialistas, entidades educacionais e organizações de defesa dos direitos da infância.

“Esse caráter de urgência é uma estratégia política que temos visto nas pautas da extrema direita. Busca impedir uma discussão aprofundada sobre agendas que têm impactos importantes para a sociedade”, afirma Iana.

Segundo a pesquisadora, a Comissão de Educação existe justamente para submeter projetos dessa natureza ao escrutínio de especialistas, pesquisadores e representantes da sociedade civil. “É uma estratégia para que isso possa ser aprovado o mais rapidamente possível. Na comissão, certamente haveria uma discussão bastante acirrada”, entende ela.

A regulamentação do ensino domiciliar foi uma das principais bandeiras da política educacional do governo de Jair Bolsonaro. Desde que o projeto foi aprovado pela Câmara, seus defensores tentaram incluir a proposta em outras votações no Congresso, como as do Plano Nacional de Educação e do Sistema Nacional de Educação, mas não obtiveram sucesso.

Direito das famílias ou direito das crianças?

Os apoiadores do projeto sustentam que cabe às famílias decidir como desejam educar seus filhos. O texto estabelece que os pais apresentem um plano pedagógico, submetam os estudantes a avaliações periódicas e encaminhem relatórios semestrais, acompanhados por uma escola. Também determina que pelo menos um dos responsáveis tenha curso superior ou formação técnica.

Em 2018, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o ensino domiciliar não é incompatível com a Constituição, mas depende de regulamentação por lei federal para ser autorizado.

Para Iana, no entanto, parte dos defensores do chamado homeschooling faz uma interpretação equivocada da Constituição ao afirmar que a educação é dever do Estado e da família.

“A Constituição estabelece que a educação é dever do Estado e da família porque o Estado tem obrigação de oferecer a escola e as famílias têm o dever de garantir que seus filhos frequentem essa escola. A escolarização obrigatória é um direito público subjetivo”, registra.

Segundo a professora da UFRGS, a proposta altera a própria compreensão do direito à educação ao deslocar para as famílias uma decisão que hoje constitui uma obrigação compartilhada entre Estado, sociedade e responsáveis legais.

Escola é mais do que transmissão de conteúdos

Na avaliação da pesquisadora, o debate sobre o ensino domiciliar não se restringe ao local onde as crianças aprendem os conteúdos escolares. O que está em discussão, afirma, é a função social da escola como espaço de convivência democrática.

“A escola é um espaço plural. Nela convivem crianças de diferentes origens sociais, culturais, religiosas e raciais. Essa diversidade faz parte do próprio processo educativo”, explica.

Iana observa que parte dos movimentos favoráveis ao ensino domiciliar, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, está ligada a grupos religiosos fundamentalistas que rejeitam a presença, nas escolas, de debates sobre diversidade, relações étnico-raciais, gênero e sexualidade. Para esses grupos, diz, a convivência com perspectivas distintas costuma ser apresentada como uma forma de doutrinação.

A pesquisadora ressalta, porém, que trabalhar essas diferenças faz parte das atribuições da escola pública e corresponde à realidade de uma sociedade diversa como a brasileira.

Proteção e fiscalização

Além da dimensão pedagógica, especialistas e entidades da área da infância destacam que a escola exerce um papel importante na proteção de crianças e adolescentes.

É frequentemente no ambiente escolar que surgem os primeiros sinais de violência, negligência ou outras violações de direitos, permitindo o acionamento das redes de proteção. A retirada da frequência escolar obrigatória, afirmam essas organizações, pode reduzir esse acompanhamento justamente para crianças em situação de maior vulnerabilidade.

Também há dúvidas sobre a capacidade do poder público de cumprir a fiscalização prevista no projeto. O texto determina que famílias apresentem planos de ensino e relatórios periódicos, acompanhados por uma escola. Na avaliação de especialistas, entretanto, os próprios sistemas de ensino ainda enfrentam dificuldades para localizar e reintegrar milhares de crianças que permanecem fora das salas de aula, o que coloca em dúvida a viabilidade desse acompanhamento.

Iana aponta outro aspecto pouco discutido. O perfil das famílias que efetivamente conseguiriam adotar o modelo. “Quem tem condições de fazer educação domiciliar no Brasil é um grupo bastante restrito. Essa não é a realidade das famílias trabalhadoras, que dependem da escola tanto para garantir o direito à educação quanto para conciliar a vida profissional e os cuidados com os filhos”.

Mais de cem organizações ligadas à educação, à infância e aos direitos humanos já se manifestaram contra a regulamentação do homeschooling. Para essas entidades, o direito de escolha das famílias não pode se sobrepor ao direito das crianças à educação, à convivência social e à proteção assegurados pela Constituição.

FONTE:

https://www.extraclasse.org.br/educacao/2026/07/extrema-direita-quer-projeto-de-ensino-domiciliar-no-senado-sem-discussao/?fbclid=IwY2xjawS2PiVleHRuA2FlbQIxMABicmlkETFjaDRkNjdhd1pVanV5Mnh6c3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHs4s_-SKdIWUX2JCNIn0no-Nkv3hyY4_LME-8IB2dYQDa50Y9nQGXayJOzhU_aem_mjjF1Dx7G_V6HJY640kx3Q 




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