Quais são nossos horizontes

Quais são nossos horizontes

2022: “As coisas estão em movimento, mas precisamos saber quais são nossos horizontes”

Ludmila Costhek Abilio - Le Monde Diplomatique
Foto: Di­plo­ma­tique Brasil


Ano novo, vida que, de nova, pa­rece só apre­sentar novas tra­gé­dias. O bra­si­leiro passou o pe­ríodo de festas com o sen­ti­mento de alívio por poder re­viver os ritos de pas­sagem ne­gados pelo hiato de 2020, mas, já antes de os fogos si­len­ci­arem, as ma­zelas do que pro­mete ser outro longo e te­ne­broso ano se acu­mu­lavam: chuvas e en­chentes em Minas e Bahia, mortes, ci­dades des­truídas e vá­rias bar­ra­gens dando si­nais de que es­tamos às portas de re­petir Ma­riana ou Bru­ma­dinho, além de um novo surto de gripe, a com­binar vírus e con­ta­mi­na­ções di­versas. Pa­ra­le­la­mente, um co­lapso so­ci­o­e­conô­mico que não para de se apro­fundar, en­quanto al­guns dos mais im­por­tantes se­tores es­peram nor­ma­li­dade no ainda dis­tante pleito elei­toral que ten­tará evitar a re­e­leição de um ser que, dentre tantos crimes pra­ti­cados à luz do dia, se re­cusa a agi­lizar a va­ci­nação in­fantil. Para re­fletir, sem ousar pre­vi­sões, o Cor­reio da Ci­da­dania en­tre­vistou a so­ció­loga Lud­mila Costhek Abílio, es­tu­diosa do que já se po­pu­la­rizou como “ube­ri­zação do tra­balho”, que con­versou co­nosco a res­peito deste com­plexo quadro por um ân­gulo no qual os in­vi­sí­veis são o eixo gra­vi­ta­ci­onal.

Neste sen­tido, é pos­sível notar o início de uma dis­puta po­lí­tica que ex­prime as ver­da­deiras po­la­ri­za­ções que nos di­videm. De um lado, aqueles que co­meçam a ques­ti­onar os re­sul­tados reais das re­formas li­be­ra­li­zantes; de outro, os que tentam se dis­tan­ciar da imagem de proto-fas­cistas, es­can­ca­rados ou en­rus­tidos, mas não cedem em sua agenda de ajustes econô­micos a gosto do grande ca­pital pri­vado, dono de fato dos des­tinos da nação nos úl­timos anos. Pouco re­per­cu­tida até em se­tores po­pu­lares e pro­gres­sistas, a CPI dos Apli­ca­tivos em São Paulo ofe­rece uma pe­quena fresta do perfil das con­fron­ta­ções que in­ci­dirão na vida do bra­si­leiro médio.

“Acon­teceu que os en­tre­ga­dores mos­traram sua im­por­tância so­cial e a con­tra­dição e a de­si­gual­dade fi­caram muito evi­dentes. Para que os iso­lados se man­ti­vessem em tal pri­vi­légio, esses tra­ba­lha­dores pre­ci­savam cir­cular e se expor ao vírus, en­tre­gando tudo quanto é tipo de coisa. Não foi só co­mida, mas um monte de ser­viços e mer­ca­do­rias. Vá­rios se­tores econô­micos são hoje atra­ves­sados por essa forma de or­ga­ni­zação do tra­balho. E a con­dição de tais tra­ba­lha­dores se evi­den­ciou”, ex­plicou Lud­mila Abilio.

No en­tanto, a so­ció­loga en­fa­tiza que tais mu­danças marcam o mundo do tra­balho há anos, e as novas re­la­ções de tra­balho me­di­adas pelas em­presas de apli­ca­tivos, as­so­ci­adas com a pan­demia, apenas in­ten­si­fi­caram-nas.

“A in­for­ma­li­zação ube­ri­zada é ainda mais com­plexa. Ela se re­fere a uma perda de formas es­tá­veis e re­gu­ladas que regem o pro­cesso de tra­balho. Não tem a ver só com pla­ta­forma di­gital, é algo que atra­vessa todo o mundo do tra­balho. Nós que hoje tra­ba­lhamos iso­lados en­ten­demos per­fei­ta­mente do que se trata. É a perda de re­fe­rên­cias claras do que é tempo de tra­balho ou não; o que é custo do tra­balho ou não. A energia elé­trica da minha casa, o café que tomo, o ma­te­rial que uso, uma série de coisas que não se medem e não se con­se­guem for­ma­lizar. Tal perda se mostra ex­tre­ma­mente pro­du­tiva, opera uma trans­fe­rência de riscos e custos aos tra­ba­lha­dores”.

Es­tu­diosa das novas mo­da­li­dades de tra­balho, pelas quais pra­ti­ca­mente todo jovem bra­si­leiro já passou em algum mo­mento, Lud­mila com­pre­ende aquilo que co­meça a ser ex­pres­sado por essas massas de tra­ba­lha­dores cada vez mais in­for­ma­li­zadas e des­taca o ca­ráter po­lí­tico da­quilo que a pró­pria CPI chamou de “caixa preta”.

“Há uma série de in­for­ma­ções que pas­samos um ano pes­qui­sando e ten­tando des­co­brir e estão ao al­cance de um clique. São in­for­ma­ções to­tal­mente pro­ces­sadas, só não vêm a pú­blico por questão de pri­va­ci­dade das em­presas, ou seja, po­lí­tica. A di­a­lé­tica é assim: as novas tec­no­lo­gias per­mitem o ma­pe­a­mento de tudo, da mul­tidão e do in­di­víduo. Abrir a caixa preta é pensar nisso. E re­fere-se a algo mais com­plexo: o ge­ren­ci­a­mento al­go­rít­mico do tra­balho”.

No en­tanto, ela mostra in­cer­teza ao co­mentar a ca­pa­ci­dade de atores po­lí­ticos com­pre­en­derem essas atuais di­nâ­micas e se apre­sen­tarem como aptos a de­fender os der­ro­tados da re­lação ca­pital-tra­balho, en­quanto a ex­trema-di­reita e os po­lí­ticos que a li­deram se­guem a se apre­sentar como “an­tis­sis­tema”.

“O ho­ri­zonte do mo­mento é juntar os cacos, numa es­pécie de busca de um pa­tamar mí­nimo de jus­tiça, dig­ni­dade. Pensar nos ins­tru­mentos e formas de or­ga­ni­zação que en­frentem as novas formas de ex­plo­ração do tra­balho nos de­manda uma ou­sadia que não es­tamos tendo. Se não en­fren­tarmos as formas de de­si­gual­dade so­cial e con­cen­tração de renda, os ga­nhos fi­nan­ceiros, seus fa­tores his­tó­ricos, iremos sempre en­frentar atu­a­li­za­ções, novas e re­fi­nadas, que per­pe­tuem aquilo que nos es­tru­tura”.

A en­tre­vista com­pleta com Lud­mila Costhek Abílio pode ser lida a se­guir.

Cor­reio da Ci­da­dania: O mundo entra em 2022 com fortes si­nais de es­go­ta­mento, ob­je­tivos e sub­je­tivos. Um forte em­po­bre­ci­mento ma­te­rial acom­pa­nhado de de­sem­prego e pre­ca­ri­zação es­tru­tu­rais em meio a uma pan­demia que não dá si­nais de­fi­ni­tivos de es­tan­ca­mento – além disso, apa­receu nova epi­demia de gripe, o vírus H3N2, que de­riva do H1N1 que as­sustou a hu­ma­ni­dade por volta de 2009, quando uma epi­demia se­me­lhante à atual en­trou no nosso radar. Na en­tre­vista da edição re­tros­pec­tiva, o so­ció­logo do tra­balho Ri­cardo An­tunes no­meou o atual es­tágio do ca­pi­ta­lismo de “pan­dê­mico”, vi­ró­tico”. Isto é, trata-se de um es­tágio desse modo de vida que na­tu­ra­liza a tra­gédia de larga es­cala, cau­sada jus­ta­mente pelo seu me­ta­bo­lismo, e não deixa de fun­ci­onar por conta disso. Di­ante da for­mu­lação aqui ex­posta, o que es­perar para o ano de 2022, em es­pe­cial para as massas tra­ba­lha­dores e via de regra in­vi­sí­veis?

Lud­mila Costhek Abílio: Mais do que dizer que a nor­ma­li­dade se man­teve, talvez vi­vamos algo ainda mais bi­zarro: man­ti­vemos uma nor­ma­li­dade que in­ten­si­ficou uma série de ati­vi­dades do mundo do tra­balho. Ra­pi­da­mente, res­ta­be­le­cemos o modo de fun­ci­o­na­mento da­quilo que chegou a ser sus­penso. Dentro da pró­pria aca­demia vimos uma pro­funda in­ten­si­fi­cação do tra­balho. Mesmo o iso­la­mento – que devia ser um di­reito, não um pri­vi­légio – foi in­tei­ra­mente atra­ves­sado por todas as in­dis­tin­ções que es­tamos vi­vendo: in­dis­tinção entre o que é tempo de tra­balho e o que não é, es­paço de tra­balho ou não, tra­balho re­pro­du­tivo ou não. Toda essa di­nâ­mica se in­ten­si­ficou na pan­demia.

Na pan­demia, a linha di­vi­sória entre quem pode se isolar e quem não pode evi­den­ciou a es­tru­tura e a de­si­gual­dade in­ter­sec­ci­onal do mundo do tra­balho e a nova nor­ma­li­dade que logo se cons­ti­tuiu. E vimos quem foi mais ex­posto, na ter­ri­to­ri­a­li­dade e na au­sência de pro­teção.

Um ele­mento cen­tral do mundo do tra­balho atual é o au­to­ge­ren­ci­a­mento su­bor­di­nado, com uma série de ele­mentos e re­gras que não dão margem in­di­vi­dual de ne­go­ci­ação. Isso se ge­ne­ra­lizou como modo de vida, mesmo agora com a va­ci­nação alas­trada na po­pu­lação.

Com a en­trada do pe­ríodo elei­toral, há uma con­vulsão de fa­tores que de­vemos ver para onde nos con­du­zirá.

Cor­reio da Ci­da­dania: Você é uma es­tu­diosa das novas con­di­ções do mundo do tra­balho e das novas ca­te­go­rias de classes tra­ba­lha­doras, dentro do cha­mado pro­cesso de ube­ri­zação. A Câ­mara Mu­ni­cipal de São Paulo en­cerrou seu ano com uma CPI dos apli­ca­tivos, que, se­gundo seus pró­prios con­du­tores, visa a “abrir a caixa preta dos apps”. Qual seria, em sua visão, essa caixa preta e o que essa CPI pode in­dicar a res­peito dos pró­ximos con­flitos so­ciais, econô­micos e tra­ba­lhistas?

Lud­mila Costhek Abílio: É in­te­res­sante que a ube­ri­zação ga­nhou muita vi­si­bi­li­dade du­rante a pan­demia. Por muitos mo­tivos: pri­meiro que a pre­ca­ri­e­dade, a ins­ta­bi­li­dade e a in­se­gu­rança do tra­ba­lhador fi­caram muito evi­dentes. Apesar de de­pender in­tei­ra­mente de um tra­balho su­bor­di­nado a uma em­presa, não há a menor ga­rantia de quanto se ganha, do valor do tra­balho, da quan­ti­dade de tra­balho a exe­cutar, como re­ceber... Tudo isso ga­nhou mais im­por­tância e ficou evi­dente que tra­ba­lha­dores que sempre foram es­sen­ciais pas­saram muito tempo in­vi­si­bi­li­zados.

Im­por­tante des­tacar que mo­toboy é uma pro­fissão de muitas dé­cadas, não co­meçou nas em­presas de apli­ca­tivos. É uma pro­fissão que foi ex­pan­dida bem antes da apa­rição dos apps, sempre foram tra­ba­lha­dores es­sen­ciais para a dis­tri­buição de do­cu­mentos, mer­ca­do­rias ven­didas on­line, ser­viços car­to­riais, pa­ga­mento de contas, dos mer­cados fi­nan­ceiros... Na pan­demia esses tra­ba­lha­dores ga­ran­tiram nosso iso­la­mento so­cial. Ao mesmo tempo, os mo­to­ristas da Uber, muito in­vi­si­bi­li­zados, ex­pu­seram sua pre­ca­ri­e­dade, pois de­pendem per­ma­nen­te­mente das di­nâ­micas da de­manda.

Acon­teceu que os en­tre­ga­dores mos­traram sua im­por­tância so­cial e a con­tra­dição e a de­si­gual­dade fi­caram muito evi­dentes. Para que os iso­lados se man­ti­vessem em tal pri­vi­légio, esses tra­ba­lha­dores pre­ci­savam cir­cular e se expor ao vírus, en­tre­gando tudo quanto é tipo de coisa. Não foi só co­mida, mas um monte de ser­viços e mer­ca­do­rias. Vá­rios se­tores econô­micos são hoje atra­ves­sados por essa forma de or­ga­ni­zação do tra­balho. E a con­dição de tais tra­ba­lha­dores se evi­den­ciou.

Fi­zemos uma pes­quisa, de­pois cor­ro­bo­rada por ou­tras, de que, apesar do cres­ci­mento enorme da de­manda por seus ser­viços, esses tra­ba­lha­dores en­frentam uma queda brutal em sua re­mu­ne­ração, acom­pa­nhada da ex­tensão do tempo de tra­balho e do cres­ci­mento do nú­mero de aci­dentes de en­tre­ga­dores, tanto ci­clistas como mo­to­ci­clistas.

Por fim, tais tra­ba­lha­dores também ga­nharam vi­si­bi­li­dade na me­dida em que se or­ga­ni­zaram. Entre ou­tras mo­bi­li­za­ções, ti­vemos o #bre­que­do­sapps, a greve na­ci­onal dos tra­ba­lha­dores ube­ri­zados (1 de julho de 2020). O nome mesmo su­gere um freio, que nos leva a “abrir a caixa preta” da ube­ri­zação, como diz a CPI. E quais as de­mandas dos tra­ba­lha­dores? Ta­rifas justas, fim das de­mis­sões su­má­rias e in­justas, fim dos blo­queios ar­bi­trá­rios, fim dos sis­temas de pon­tu­ação que criam ló­gicas que se­quer se com­pre­endem e dis­torcem re­mu­ne­ra­ções... Os tra­ba­lha­dores pedem um freio a tal forma de ex­plo­ração, o que só é pos­sível quando se or­ga­nizam co­le­ti­va­mente, e mesmo assim é bem di­fícil.

Quando pen­samos na caixa preta, temos dois ele­mentos cen­trais da ube­ri­zação para pensar: o pri­meiro é que ela trans­forma as pes­soas em tra­ba­lha­dores sob de­manda. Ou seja, passa-se o dia na rua, não em casa, à es­pera da cha­mada, da so­li­ci­tação do ser­viço. E temos cada vez mais tra­ba­lha­dores vi­vendo desta forma, o tra­ba­lhador just-in-time. Este é um ele­mento cen­tral.

O se­gundo ponto é a in­for­ma­li­zação do tra­balho. Ela quer dizer: 1) tra­ba­lha­dores são jo­gados nesta con­dição. Nos úl­timos 6, 8 anos, esse pro­cesso, que já era pre­ca­ri­zado, se apro­fundou. O que era in­sa­lubre, de alta pe­ri­cu­lo­si­dade, ainda con­tava com mais di­reitos, CLT, di­reitos as­so­ci­ados ao tra­balho formal. Em 5, 6 anos a mul­tidão se tornou in­formal;

2) a in­for­ma­li­zação ube­ri­zada é ainda mais com­plexa. Ela se re­fere a uma perda de formas es­tá­veis e re­gu­ladas que regem o pro­cesso de tra­balho. Não tem a ver só com pla­ta­forma di­gital, é algo que atra­vessa todo o mundo do tra­balho. Nós que hoje tra­ba­lhamos iso­lados en­ten­demos per­fei­ta­mente do que se trata. É a perda de re­fe­rên­cias claras do que é tempo de tra­balho ou não; o que é custo do tra­balho ou não. A energia elé­trica da minha casa, o café que tomo, o ma­te­rial que uso, uma série de coisas que não se medem e não se con­se­guem for­ma­lizar. E a perda das formas tra­di­ci­o­nais de tra­balho, com sua não con­ta­bi­li­zação, está em curso há dé­cadas. Tal perda se mostra ex­tre­ma­mente pro­du­tiva, opera uma trans­fe­rência de riscos e custos aos tra­ba­lha­dores, opera formas de in­ten­si­fi­cação e ex­tensão do tra­balho que são di­fí­ceis de con­ta­bi­lizar, pois perdem seu for­mato es­tável.

A in­for­ma­li­zação/ube­ri­zação se in­ten­si­ficou. Não se sabe mais a forma es­tável do tra­balho. Assim, não há nem a es­ta­bi­li­dade e nem a ga­rantia mí­nima for­ma­li­zada a dizer quanto vale a hora-tra­balho. In­for­ma­liza-se também a forma de dis­tri­buição do tra­balho, di­nâ­mica na qual os tra­ba­lha­dores tentam co­ti­di­a­na­mente en­tender porque veio cor­rida pra um e não pra outro. São re­gras e mais re­gras que operam, são oni­pre­sentes e ex­tre­ma­mente fle­xí­veis, mas sem forma de­fi­nida. Não se sabe se o tra­balho é de­man­dado ou deixa de sê-lo porque a pessoa re­cusou uma cor­rida, foi mal ava­liada em algum mo­mento, se está no me­lhor lugar e ho­rário... Não se sabe, o que não quer dizer que tais re­gras não existam. É pro­gra­mado, com big data, in­te­li­gência ar­ti­fi­cial, uma in­fi­ni­dade de ele­mentos que não po­de­riam ser ma­pe­ados hu­ma­na­mente, a com­binar uma enor­mi­dade de va­riá­veis. Isso é hu­ma­na­mente pro­gra­mado, tem um tra­balho hu­mano de­fi­nindo como tais cri­té­rios fun­ci­onam.

Ve­jamos, por­tanto, até onde vai o pro­cesso de in­for­ma­li­zação. De fato, não há mais formas de­fi­nidas de pre­ci­fi­cação do tra­balho, o tempo de tra­balho, a dis­tri­buição do tra­balho, o acesso, os blo­queios, nada disso tem forma clara e con­tra­tu­al­mente de­fi­nida. Fun­ciona como es­paço ale­a­tório que pa­rece terra de nin­guém, mas tem donos bem claros.

Cor­reio da Ci­da­dania: Por­tanto, o termo caixa-preta pa­rece bem ade­quado. Há toda uma ge­rência de tra­balho, cir­cu­lação de di­nheiro e ge­ração de lu­cros ope­rando à margem de qual­quer re­gu­lação so­cial e es­tatal, sem qual­quer trans­pa­rência pú­blica.

Lud­mila Costhek Abílio: Caixa preta, neste caso, é algo que co­meça em coisas mí­nimas, como o con­tin­gente de tra­ba­lha­dores ube­ri­zados no Brasil. E isso é po­lí­tica, não é téc­nica. Há uma série de in­for­ma­ções que pas­samos um ano pes­qui­sando e ten­tando des­co­brir e estão ao al­cance de um clique. São in­for­ma­ções to­tal­mente pro­ces­sadas, só não vêm a pú­blico por questão de pri­va­ci­dade das em­presas, ou seja, po­lí­tica.

Abrir a caixa preta é co­meçar a dis­cussão lá do ponto mí­nimo: quantos tra­ba­lha­dores estão ca­das­trados e ativos na pla­ta­forma? Quantas horas diá­rias eles fazem? Qual a re­mu­ne­ração?

A di­a­lé­tica é assim: as novas tec­no­lo­gias per­mitem o ma­pe­a­mento de tudo, da mul­tidão e do in­di­víduo. Abrir a caixa preta é pensar nisso. E re­fere-se a algo mais com­plexo: o ge­ren­ci­a­mento al­go­rít­mico do tra­balho. Sa­bemos pouco sobre isso, os de­bates apenas en­ga­ti­nham, não temos cla­reza sobre os ins­tru­mentos para re­gular e for­ma­lizar as re­gras que já regem o mundo do tra­balho das pla­ta­formas di­gi­tais.

Como es­ta­bi­lizar as re­gras do ge­ren­ci­a­mento de forma a ga­rantir hora de tra­balho, re­mu­ne­ração certa etc.? Não se trata apenas de re­co­nhecer vín­culo de em­prego, que é ur­gente, mas de lidar com o fato do tra­balho in­ter­mi­tente. Porque se se re­co­nhecer o vín­culo, mas não se es­ta­be­le­cerem pa­râ­me­tros mí­nimos de tempo e valor da hora/tra­balho, po­de­remos ter uma mul­tidão que se­guirá a viver sem saber quantas horas pre­cisa tra­ba­lhar por dia e quanto re­ce­berá. São esses os de­sa­fios.

Dessa forma, de­vemos com­pre­ender me­lhor como as novas tec­no­lo­gias são uti­li­zadas po­li­ti­ca­mente, que in­cidem num campo já ex­tre­ma­mente con­fli­tuoso e atra­ves­sado por uma série de de­si­gual­dades pro­fundas que po­ten­ci­a­lizam as formas mais de­gra­dadas de ex­plo­ração do tra­balho, e ao mesmo tempo or­ga­ni­zadas e con­tro­ladas. Mas são meios de con­trole e ex­plo­ração que vão se in­for­ma­li­zando também, perdem suas formas es­tá­veis, re­gu­lá­veis, re­co­nhe­cí­veis.

Quando olhamos a CPI, de­vemos ver bem os in­te­resses em jogo. Uma em­presa como a Uber não in­cide só em seus 500 mil mo­to­ristas ca­das­trados na ci­dade de São Paulo. Ela entra no te­cido so­cial ur­bano de forma pro­funda, re­con­fi­gura toda a questão da mo­bi­li­dade ur­bana, do trans­porte pú­blico... São ques­tões muito pro­fundas mo­bi­li­zadas neste de­bate. A caixa preta en­volve in­clu­sive como tais em­presas pagam seus im­postos, o que mal sa­bemos. Elas têm vá­rias es­tra­té­gias para evitar isso, pagam uma par­cela des­pro­por­ci­onal em re­lação a seus ga­nhos.

As re­formas que in­cidem no tra­balho já acon­te­ceram e de­vemos nos armar para pensar em ins­tru­mentos de pro­teção, se­gu­rança, re­dução das de­si­gual­dades em favor dos tra­ba­lha­dores.

Cor­reio da Ci­da­dania: Não há uma pro­funda des­co­nexão entre as ve­lhas e novas classes tra­ba­lha­doras que se re­flete na re­pre­sen­tação po­lí­tica in­clu­sive de par­tidos e grupos pro­gres­sistas? Isso não pode sig­ni­ficar fortes de­cep­ções com a po­lí­tica em pe­ríodo pró­ximo?

Lud­mila Costhek Abílio: Temos es­pe­rança quando vemos, de fato, mo­vi­mentos – que en­volvam par­tidos, as­so­ci­a­ções – que se pro­po­nham a en­frentar a pro­funda de­si­gual­dade so­cial que marca um lugar. O ho­ri­zonte do mo­mento é juntar os cacos, numa es­pécie de busca de um pa­tamar mí­nimo de jus­tiça, dig­ni­dade. Pensar nos ins­tru­mentos e formas de or­ga­ni­zação que en­frentem as novas formas de ex­plo­ração do tra­balho nos de­manda uma ou­sadia que não es­tamos tendo.

Se não en­fren­tarmos as formas de de­si­gual­dade so­cial e con­cen­tração de renda, os ga­nhos fi­nan­ceiros, seus fa­tores his­tó­ricos, iremos sempre en­frentar atu­a­li­za­ções, novas e re­fi­nadas, que per­pe­tuem aquilo que nos es­tru­tura. Com cer­teza de­vemos nos armar e en­tender o que são as novas tec­no­lo­gias e como pos­si­bi­litam novas formas de ex­plo­ração do tra­balho, olhar di­a­le­ti­ca­mente como as novas formas de ex­plo­ração atu­a­lizam ele­mentos es­tru­tu­rais e per­ma­nentes da ex­plo­ração ca­pi­ta­lista do tra­balho.

Por exemplo, a re­mu­ne­ração por peça – que Marx em O Ca­pital já apon­tava como o ideal do ca­pi­ta­lista – se ge­ne­ra­liza com a ube­ri­zação. Mas não é a mesma re­mu­ne­ração por peça do sé­culo 19. Ela se atu­a­liza, traz no­vi­dades, a forma de or­ga­ni­zação, ge­ren­ci­a­mento e trans­fe­rência de ta­refas é nova. Não é sé­culo 19. É uma atu­a­li­zação per­versa de ele­mentos es­tru­tu­rantes das re­la­ções entre ca­pital e tra­balho. Nós po­demos de­mandar a for­ma­li­zação do tra­balho, temos de brigar por uma Cons­ti­tuição que am­plie e uni­ver­sa­lize a rede de di­reitos e pro­teção so­cial. Mas não po­demos fazer vista grossa para as pro­fundas de­si­gual­dades e in­jus­tiças so­ciais que his­to­ri­ca­mente atra­vessam o mundo do tra­balho e sempre atra­ves­saram, in­clu­sive por dentro do mundo do em­prego formal. Isso porque pre­ci­samos en­tender porque o mo­toboy não está pe­dindo CLT. Temos de en­tender as ex­pe­ri­ên­cias desses tra­ba­lha­dores, e não pensar que eles se au­to­en­ganam e se con­si­deram um em­pre­en­dedor, um chefe de si mesmo. Não é assim que eles se per­cebem.

O que cha­mamos de pauta pro­gres­sista é só uma pauta mí­nima. Quando olharmos além, aí sim, po­de­remos falar em trans­for­ma­ções reais, e essas não ocorrem do dia para a noite. Mas a ube­ri­zaçao está na ordem do dia, atra­vessa pro­gramas de go­verno, está no dis­curso de can­di­datos. O pró­prio PT vem fa­lando cons­tan­te­mente da ube­ri­zação, temos vá­rios Pro­jetos de Lei, CPIs, de­ci­sões ju­di­ciais que en­volvem a questão do vín­culo de em­prego. As coisas estão em mo­vi­mento, a questão é sa­bermos dos nossos ho­ri­zontes po­lí­ticos.

Cor­reio da Ci­da­dania: Es­ta­ríamos vol­tando a um pe­ríodo mais aberto de lutas de classes e con­fron­ta­ções do tipo es­querda-di­reita, algo que os 30 anos de he­ge­monia ne­o­li­beral ti­nham ofus­cado? Em termos de ho­ri­zontes po­lí­ticos, o caso chi­leno e a eleição de Ga­briel Boric, após amplo pro­cesso de mo­bi­li­za­ções so­ciais que abriram ca­minho para uma nova cons­ti­tuinte onde a di­reita não tem poder de veto sobre ques­tões fun­da­men­tais na al­te­ração do es­copo po­lí­tico e econô­mico, mas também com a apa­rição de um can­di­dato de ex­trema-di­reita no se­gundo turno, deixam quais si­nais?

Lud­mila Costhek Abílio: Não me ar­risco a fazer pre­vi­sões. Es­tamos di­ante de uma série de po­la­ri­za­ções, e vamos com­pre­endê-las na me­dida em que as­sen­tarmos nossa com­pre­ensão nas de­si­gual­dades es­tru­tu­rais que com­põem nosso país. Pra en­tender, por exemplo, os evan­gé­licos, de­vemos olhar para o mundo do tra­balho. Este mundo se in­vi­si­bi­liza muito fa­cil­mente em nossas in­ter­pre­ta­ções, in­clu­sive quando de­cre­tamos que há uma massa de tra­ba­lha­dores des­car­tá­veis, quando na ver­dade as pes­soas estão ra­lando cada vez mais, em formas cada vez menos re­co­nhe­cí­veis, ins­tá­veis, pre­cá­rias, que al­gumas vezes nem são re­co­nhe­cidas como tra­balho.

É um de­safio enorme e en­quanto não con­se­guirmos cons­truir essas pontes ana­lí­ticas é di­fícil fazer pre­vi­sões. E é uma questão séria a nossa di­fi­cul­dade em en­tender porque uma base que era pe­tista passou a bol­so­na­rista e dá si­nais de que está mu­dando no­va­mente para o lado do PT. A questão do tra­balho dessas pes­soas de­sa­pa­rece ra­pi­da­mente de muitas aná­lises.

Por exemplo, o #bre­que­do­sapps evi­dencia a re­lação ca­pital-tra­balho, nas ruas, nas di­versas es­feras da cir­cu­lação. Os en­tre­ga­dores, assim como os ca­mi­nho­neiros, têm esse poder: quando eles freiam, in­ter­rompem um ele­mento cen­tral da di­nâ­mica ca­pi­ta­lista, que é a cir­cu­lação. Mas não sei se ve­remos con­flitos tão claros entre ca­pital e tra­balho, porque não sei se par­tidos e grupos estão dis­postos a en­carar este con­flito.

Cor­reio da Ci­da­dania: Dessa forma, quais se­riam as con­di­ções es­sen­ciais para uma nova fase de “nor­ma­li­zação”, se po­demos chamar assim, das re­la­ções so­ciais, isto é, o es­tan­ca­mento da atual con­jun­tura de dis­so­nância e es­tra­nha­mento entre grupos e classes so­ciais e a ma­nu­tenção dos pactos de­mo­crá­ticos, num con­texto onde a di­reita mais ex­tre­mada e proto-fas­cista se vende como “an­tis­sis­tema” ao passo que fo­menta ódios e busca por bodes ex­pi­a­tó­rios em grupos so­ciais his­to­ri­ca­mente des­fa­vo­re­cidos?

Lud­mila Costhek Abílio: Temos um di­lema ter­rível. Apesar de se­guirmos na de­fesa da de­mo­cracia, a re­a­li­dade é que vi­vemos há tempos um to­ta­li­ta­rismo fi­nan­ceiro. Temos po­pu­la­ções mun­diais e eco­no­mias na­ci­o­nais amar­radas por ins­tân­cias e formas de or­ga­ni­zação que se­quer com­pre­en­demos. A con­cen­tração de renda é mun­dial e global, cada vez mais per­versa e pro­funda. A eco­nomia do Brasil é to­tal­mente fi­nan­cei­ri­zada, até os po­bres são cada vez mais fi­nan­cei­ri­zados.

Re­co­mendo a fala da pro­fes­sora Lena La­vinas na úl­tima Con­fe­rência de Es­tudos do Tra­balho (aqui), na qual ela mostra bem como tra­ba­lha­dores são atores da fi­nan­cei­ri­zação, via cré­dito, en­di­vi­da­mento. Tal questão atra­vessa nossa vida in­di­vi­dual e co­le­tiva, e não com­bina com de­mo­cracia, ex­ceto em apa­rên­cias e for­ma­li­dades. E nosso ho­ri­zonte por ora não é de trans­for­mação disso, mas de juntar os cacos.

Eu não sei qual a ex­pec­ta­tiva. A nova classe média, que se tornou “novos po­bres”, quer voltar a ser nova classe média. Isso não é pouco, sair da po­breza no Brasil é sig­ni­fi­ca­tivo. Mas é o pa­tamar mí­nimo, re­pito. Pre­ci­samos en­tender a base da po­pu­lação, en­tender seus mo­vi­mentos elei­to­rais da úl­tima dé­cada, e tirar o foco da classe média alta, res­sen­tida, com ca­misa da se­leção bra­si­leira. Tenho a im­pressão de que até hoje não com­pre­en­demos tal base e co­lo­camos nossas fi­chas na ideia de que ela só quer ser nova classe média de novo. Sa­li­ento que não é pouco, mas a mu­dança re­cente virou fu­maça em pouco tempo porque não houve mu­dança es­tru­tural na so­ci­e­dade.

Ga­briel Brito é jor­na­lista e editor do Cor­reio da Ci­da­dania.

 

https://www.correiocidadania.com.br/34-artigos/manchete/14890-2022-as-coisas-estao-em-movimento-mas-precisamos-saber-quais-sao-nossos-horizontes 




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