Que escola pública queremos
Se é bom para o filho do rico, por que é caro para o filho do pobre?
Entre a disciplina das escolas cívico-militares e a formação integral de Anísio Teixeira, é preciso perguntar que escola pública queremos para nossos filhos.

Escola Parque 308 Sul, em Brasília, símbolo da educação integral idealizada por Anísio Teixeira.
Foto: internet
Fui aluno de escola pública. Depois, a vida me levou para o outro lado da sala: virei professor. Conheci a escola olhando para o quadro e também de costas para ele. Sentei na carteira como aluno e, anos depois, fiquei diante dela com a responsabilidade de transmitir conhecimento e contribuir para a formação de outras pessoas.
Talvez por isso, quando chega uma eleição, eu preste atenção no que os candidatos dizem sobre educação. Tenho lido os programas e alguns apresentam a escola cívico-militar quase como uma solução para os problemas da educação. Falam em disciplina, respeito, organização, uniforme e hierarquia. Não vou dizer que disciplina não seja importante. É. Professor precisa ter autoridade dentro da sala de aula para exercer seu trabalho e transmitir conhecimento. Aluno precisa compreender que existem regras de convivência, e a família precisa participar da educação dos filhos. A escola não pode fazer tudo sozinha.
Mas uma pergunta não me sai da cabeça: será que o principal problema da nossa escola é a falta de militares dentro dela? É aí que sinto falta, nesses programas e nesse debate, de um brasileiro que pensou profundamente a educação pública: Anísio Teixeira.
Anísio defendia uma ideia aparentemente simples, mas profundamente transformadora: a escola pública não deveria ser uma escola menor para quem tem menos dinheiro. Parece óbvio, mas não é. Quem pode pagar procura para o filho uma escola com esporte, teatro, música, biblioteca, laboratório, tecnologia e uma série de outras atividades. Ninguém chama isso de luxo. Chamamos de boa educação. Então por que, quando falamos dos filhos dos trabalhadores, tantas vezes nos contentamos com uma sala, um quadro, um professor sobrecarregado e algumas horas de aula?
Anísio Teixeira pensou diferente. Na Bahia, idealizou o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, que incluía a Escola-Parque, uma das experiências mais importantes da educação pública brasileira. A proposta combinava os conhecimentos fundamentais trabalhados nas Escolas-Classe com arte, esporte, cultura, atividades práticas e convivência social. Não se tratava simplesmente de deixar a criança mais horas dentro de um prédio. Tratava-se de oferecer uma formação integral.
Aí alguém pode dizer: “Mas uma Escola-Parque custa caro.” Claro que custa. Biblioteca custa. Laboratório custa. Quadra esportiva custa. Professor bem remunerado custa. Música, teatro, tecnologia, alimentação de qualidade e escola funcionando o dia inteiro custam. Mas talvez a pergunta esteja errada. Em vez de perguntar quanto custa uma boa escola, deveríamos perguntar quanto custa para um país não oferecer uma boa educação às suas crianças. Educação não é gasto. Educação é investimento.
E aqui cabe uma provocação ainda mais incômoda: “Mas filho de pobre tem que estudar em escola barata?” Por quê? Por que aquilo que chamamos de investimento quando é oferecido ao filho de uma família com dinheiro passa a ser chamado de gasto quando é destinado ao filho do trabalhador?
Se uma família com condições financeiras coloca o filho numa escola com biblioteca, laboratório, esporte, música, teatro, tecnologia, idiomas e atividades no contraturno, dizemos que ela está investindo no futuro da criança. Mas, quando se propõe que a escola pública ofereça oportunidades semelhantes, imediatamente alguém pergunta: “E quem vai pagar essa conta?”
Nós vamos pagar. A sociedade. O Estado. Porque é exatamente para isso que existem políticas públicas.
A escola pública não pode ser uma escola pobre para o pobre. O filho do pedreiro, da empregada doméstica, do motorista, da trabalhadora do comércio, do agricultor ou de quem está desempregado tem o mesmo direito ao conhecimento, à ciência, à cultura, ao esporte e à arte que o filho de quem pode pagar uma escola cara. Se acreditamos que a educação transforma vidas, não faz sentido oferecer justamente a quem mais precisa dela uma educação com menos oportunidades.
E a experiência de Anísio não ficou restrita à Bahia. Quando Brasília estava sendo construída, ele participou da concepção do sistema educacional da nova capital. Surgiu a proposta das Escolas-Classe e Escolas-Parque. Na Escola-Classe, o estudante tinha acesso aos conhecimentos fundamentais; na Escola-Parque, complementava sua formação com atividades artísticas, culturais, esportivas e sociais. Se o Brasil estava construindo uma nova capital, havia também a oportunidade de construir uma nova concepção de escola pública.
Brasília nascia como uma cidade planejada e a educação fazia parte desse planejamento. Escola, cultura, esporte e convivência deveriam estar integrados. Mais de seis décadas depois, é curioso perceber como uma concepção tão avançada ainda parece novidade quando discutimos educação no Brasil.
“Mas isso foi pensado há mais de 60 anos. O mundo mudou.” Mudou mesmo. E justamente por isso a ideia pode ser ainda mais atual. Se Anísio falava em ciência, cultura, arte e formação integral naquela época, imagine essa concepção hoje: laboratórios modernos, internet, programação, inteligência artificial, audiovisual, robótica, idiomas, música, teatro e esporte fazendo parte da formação dos estudantes.
Aí vem outra objeção: “Bonito no papel, mas não temos estrutura.” É verdade. Não se transforma uma rede inteira de ensino de uma hora para outra. Mas nenhuma grande política pública nasce pronta. É preciso começar. Planejar, estabelecer prioridades, formar e valorizar professores, construir estruturas e ampliar gradualmente. Se a falta de estrutura servir como justificativa para nunca começar, daqui a mais 60 anos estaremos repetindo que ainda não temos estrutura.
E certamente alguém dirá: “O problema da escola hoje é falta de disciplina.” Existe indisciplina, sim. Existem conflitos e situações graves de violência. Não adianta fingir que não existem. Mas será que colocar todo mundo em fila resolve o problema da educação? Uma escola pode ter silêncio nos corredores, uniforme impecável e estudantes com enormes dificuldades de leitura, escrita e matemática. Ordem pode ajudar a escola a funcionar. Mas ordem não substitui conhecimento.
Por isso, quando se fala em escola de tempo integral, precisamos perguntar de que escola estamos falando. Não basta manter uma criança oito ou nove horas dentro de um prédio. Escola em tempo integral não pode virar depósito de criança em tempo integral. É preciso oferecer formação integral. É matemática e futebol, português e teatro, ciências e música, história e biblioteca, tecnologia e arte. É transmitir o conhecimento acumulado pela humanidade e proporcionar experiências que permitam ao estudante compreender o mundo em que vive.
Talvez por ter sido professor, outra coisa me incomode nesse debate. Às vezes parece que estamos procurando alguém para devolver autoridade à escola, quando deveríamos começar devolvendo autoridade e condições de trabalho ao próprio professor. Professor não precisa de alguém atrás dele para ter autoridade. Precisa ser respeitado, valorizado, ter formação, salário digno, estrutura e condições para exercer aquilo que é essencial em sua profissão: transmitir conhecimento.
“Mas antigamente o professor era respeitado.” Era. Então precisamos discutir por que essa autoridade foi sendo enfraquecida. Recuperá-la passa pela valorização da profissão, pelas condições de trabalho e também por deixar claros os direitos e deveres de estudantes e famílias. Autoridade pedagógica não nasce de uma farda ao lado do professor. Nasce também do reconhecimento social da importância de sua função.
A família precisa estar nessa conversa. Há responsabilidades que são da escola e outras que começam em casa. Respeito, limites, responsabilidade e convivência não podem ser simplesmente transferidos para o professor. Por isso, não tenho dificuldade alguma em defender regras dentro da escola. O que questiono é transformar disciplina em projeto pedagógico.
Uma escola pode ter alunos em silêncio e continuar oferecendo uma educação ruim. Pode ter fila perfeita, uniforme impecável e aprendizagem insuficiente. Pode produzir obediência sem produzir conhecimento. A escola pública precisa fazer muito mais. Precisa garantir que o filho do trabalhador tenha acesso ao conhecimento, à ciência, à literatura, à história, à cultura, ao esporte, à arte e à tecnologia.
“Mas tudo isso não é utopia?” Talvez tenham chamado de utopia muitas coisas que hoje consideramos direitos. Escola pública para todos já pareceu impossível. Universidade para filho de trabalhador também. O problema não é sonhar com uma escola melhor. O problema é nos acostumarmos com uma escola precária e começarmos a acreditar que o máximo que podemos oferecer às nossas crianças é mais disciplina.
Para uma criança pobre, uma boa escola pública pode significar descobrir um mundo que sua condição econômica talvez nunca lhe permitisse conhecer. A escola pública não existe para reproduzir dentro de seus muros a desigualdade que existe do lado de fora. Ela precisa ser um instrumento para enfrentá-la.
Eu fui aluno de escola pública e depois fui professor. Talvez justamente por ter conhecido os dois lados da sala de aula eu continue acreditando profundamente nela. Não numa escola sem regras, nem numa escola onde o professor perdeu a autoridade ou onde a família entrega o filho no portão e considera encerrada sua responsabilidade. Mas também não acredito que a grande solução para a educação brasileira seja colocar uma lógica militar dentro da escola.
Antes disso, gostaria que experimentássemos colocar plenamente dentro dela aquilo que Anísio Teixeira começou a construir na Bahia e levou para o projeto educacional de Brasília: professores valorizados, educação integral, bibliotecas, ciência, esporte, música, teatro, arte, cultura, alimentação, tecnologia e acesso ao conhecimento para todos.
Vai custar dinheiro? Vai. Vai exigir planejamento? Vai. Vai demorar? Provavelmente. Mas existe investimento melhor para um país do que aquele feito na formação de suas crianças?
Talvez seja mais difícil do que mandar formar uma fila. Mas educação nunca foi uma coisa simples.
E deixo uma última provocação: antes de perguntar quanto custa oferecer uma escola pública desse tamanho para o filho do trabalhador, talvez devêssemos perguntar por que aceitamos tão facilmente que uma educação completa seja direito de quem pode pagar e cara demais quando é para todos.
*Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do ARENA DE NOTÍCIAS.
Sobre o autor: Jorge Francisco de Oliveira Guimarães é Cientista Social, professor de sociologia e escritor, foi sindicalista e trabalhou na Câmara dos Deputados. É um dos fundadores da Associação de Solidariedade e pela Autodeterminação do Povo Saaraui. Trabalhou no INEP, contribuindo com a educação pública, e foi diretor da Fundação de Assistência Social de Porto Alegre.
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