Reputação ilibada

As contas e a “reputação ilibada”
— Eliane Cantanhêde
A colunista argumenta que a trajetória de Jhonatan de Jesus simboliza o enfraquecimento dos critérios técnicos e institucionais na ocupação de cargos de controle no Brasil. O foco da crítica está em sua atuação como relator de processos envolvendo o Banco Master, onde, segundo a autora, teria adotado posições favoráveis aos interesses do banqueiro Daniel Vorcaro e contrárias ao Banco Central do Brasil.
O artigo destaca ainda questionamentos sobre a destinação de cerca de R$ 42 milhões em emendas parlamentares indicadas por Jhonatan quando era deputado federal por Roraima. Segundo a coluna, obras financiadas por esses recursos apresentariam indícios de abandono ou execução precária, levantando dúvidas sobre a efetividade da aplicação do dinheiro público.
Cantanhêde também critica o processo político que levou Jhonatan ao Tribunal de Contas da União. Segundo ela, a nomeação ocorreu com forte apoio do então presidente da Câmara, Arthur Lira, priorizando articulações políticas em detrimento de critérios como experiência técnica, currículo ou histórico de gestão.
A autora amplia a crítica para o sistema de indicações nos tribunais de contas, citando casos em que esposas de governadores ou ex-governadores foram nomeadas para tribunais estaduais responsáveis justamente por fiscalizar os governos aos quais possuem vínculos familiares. A conclusão é que práticas de apadrinhamento político, nepotismo indireto e corporativismo enfraquecem a credibilidade das instituições de controle e tornam cada vez mais distante o princípio constitucional da “reputação ilibada” exigido para funções dessa natureza.
FONTE
Jonas De Almeida Federighi Jr.
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O estrangeiro
05/07/2026
É estarrecedor, mas também revelador”, escreveu o jornalista Glenn Greenwald, sobre o ministro “permanecer no STF, continuar julgando e prendendo pessoas”. Ele se referia às revelações dos diálogos da esposa do ministro diretamente no WhatsApp de Vorcaro, com o tal contrato de R$ 129 milhões. Glenn diz que não conhece escândalo judicial pior, mundo afora, na última década. E que, “mesmo assim, ele permanece impassível, com o mesmo imenso poder sobre o País”.
Glenn diz que o ministro não deveria mais estar no STF. Pode-se concordar ou não, mas há uma pergunta anterior: haverá ao menos alguma investigação? Alguma ação da PGR? Do Congresso? Penso que a resposta já foi dada. Por muitas razões, nos tornamos um estranho tipo de república com um núcleo de poder inimputável. E não apenas neste caso. O caso Master traz um elemento ético crucial, mas o tema central do Brasil dos últimos anos é o desrespeito à regra do jogo. A longa cauda de flexibilizações legais feitas no País. Quem duvidar, vale observar o destino de Eduardo Tagliaferro. Algo que deveria constranger o Brasil. O país que, diante de informações graves, não só empurra tudo para debaixo do tapete, como converte o denunciante em réu. Desconfio de que ninguém saiba disso melhor do que Vorcaro. E, por isso, procrastina sua delação há mais de três meses.
O ponto central da frase indignada de Glenn é o estranhamento. Ele está dizendo o seguinte: vocês, brasileiros, foram se acostumando. Vocês são como aquele sapo na panela, que foi relaxando enquanto a água ia esquentando, até ser devidamente cozinhado. Isto aconteceu por muitas razões. A primeira delas foi o apoio de boa parte da sociedade, que, por muitos anos, aplaudiu nosso estado de exceção tropical para “salvar a democracia”. Outra razão é o poder de fato. Algo do tipo: sou eu que decido o que é a lei. A estranha ideia de que o que vale por aqui não é propriamente a lei ou a Constituição, mas o que certas autoridades dizem que são a lei e a Constituição. De modo que é ilegal a censura prévia. Mas não é. Deve-se respeitar a instância devida. Ou não, a depender do contexto e da interpretação.
É por estas razões que fomos deslizando. Aceitamos que se criasse uma lógica de exceção, no País, que agora anda por conta própria. O poder é como um organismo. Posto em movimento, não recua. Daí a obsessão moderna com os limites, pesos e contrapesos. Com tudo isso a que assistimos ir perdendo força, no transe brasileiro.
De modo que é bom observar o espanto de um estrangeiro. Ele conhece o Brasil, mas nos enxerga a distância. Quem sabe como a Justiça italiana e espanhola, por estes tempos, negando extradições por razões que nos deveriam fazer pensar. O olhar do estrangeiro tem esta vantagem. Suas palavras nos dão uma pista sobre coisas com as quais não deveríamos, definitivamente, ter nos habituado em nossa vida republicana.





