RS abaixo da meta de alfabetização
RS fica abaixo da meta de alfabetização de crianças em 2025, mostram dados do MEC
No Brasil, percentual superou a meta para o ano. Educação gaúcha ainda sofre com os impactos da enchente de 2024
Sofia Lungui

Jefferson Botega / Agencia RBS
O Rio Grande do Sul (RS) é um dos seis Estados que não atingiram a meta de alfabetização na idade certa em 2025, conforme dados do Ministério da Educação (MEC). Elaborada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a pesquisa revela que o RS foi o Estado que ficou mais distante da meta estabelecida pelo cronograma do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, do governo federal.
Em 2025, o RS atingiu o percentual de 52% das crianças alfabetizadas na idade certa, 17 pontos percentuais abaixo da meta prevista para o ano, que era de 69%. Também ficaram abaixo da meta as seguintes unidades federativas:
- Santa Catarina
- Amazonas
- Pará
- Rio de Janeiro
- Rio Grande do Norte
Os dados são do Indicador Criança Alfabetizada (ICA), divulgados na semana passada, calculado anualmente a partir de um teste aplicado a estudantes do final do 2º ano do Ensino Fundamental.
Em 2025, outros 19 Estados e o Distrito Federal alcançaram ou superaram suas metas – Roraima só implementou a avaliação em 2025 e, por isso, não tinha metas definidas ainda. Na média nacional, o percentual passou de 59% em 2024 para 66% em 2025, superando a meta de 64%.
A partir do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, a União e os Estados estabeleceram objetivos anuais para que, até 2030, 80% das crianças nesta etapa estejam alfabetizadas . No RS, no final de 2027, a expectativa é de que 74% das crianças saibam ler e escrever na idade certa. Ou seja, ainda há um longo caminho pela frente.

Impactos da enchente
Segundo a professora Patrícia Camini, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o resultado do RS é explicado, em grande parte, pelos efeitos da tragédia climática de 2024, que ainda afeta a educação gaúcha.
— O 1º ano do Ensino Fundamental é o ano que tem maior responsabilidade pelo ensino da leitura e da escrita na alfabetização. Então, essas crianças tiveram a alfabetização bastante afetada no primeiro ano por conta da enchente, e acabaram não se desenvolvendo como seria o esperado ao final do 2º ano do Ensino Fundamental — explica.
Essas crianças tiveram a alfabetização bastante afetada no primeiro ano por conta da enchente, e acabaram não se desenvolvendo como seria o esperado ao final do 2º ano do Ensino Fundamental.
PATRÍCIA CAMINI - Professora da UFRGS
No ano passado, o impacto da enchente já vinha sendo percebido nos resultados. O percentual de alunos considerados alfabetizados no RS caiu quase 19 pontos percentuais de 2023 para 2024, passando de 63% para 45%, conforme o levantamento anterior.
Ainda que tenha sido registrada uma recuperação no índice de 2025, com os 52% divulgados na semana passada, o cenário está longe do ideal, destaca Patrícia, com diversas consequências:
— Precisamos de continuidade para consolidar aprendizagens que ainda estão iniciais. Essa interrupção faz com que você tenha que recompor aprendizagens que não aconteceram no período esperado. Com a enchente, também houve um efeito de migração de populações, de famílias que trocaram de municípios, que perderam suas casas, que não retornaram para o ano letivo.
Isso compromete a trajetória escolar a longo prazo, diminuindo o ritmo de progressão do aluno em diferentes áreas do conhecimento, o que acarreta prejuízos na autoestima do estudante.
— Ela vai vendo outras crianças avançarem e percebe que não consegue o mesmo desempenho na leitura e na escrita. Com isso, é muito frequente as crianças acreditarem que não têm capacidade, elas sentem que não vão conseguir avançar. Isso se torna mais um fator difícil para o professor.
A especialista destaca que é necessário, no caso das regiões atingidas pela tragédia climática, realizar um amplo trabalho de diagnóstico para identificar as lacunas de aprendizagem e recompor esses gaps, além de promover políticas públicas para apoiar os professores neste processo.
A Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul (Seduc) também destacou os impactos do desastre climático nas escolas gaúchas, bem como da pandemia. "Entre 2019 e 2021, com a pandemia, houve redução de 61,8% para 48,5% na taxa de alfabetização do 2º ano, recuperada em 2023, quando atingiu 63,4%. E em 2024, com os eventos climáticos, houve nova queda neste indicador que sinalizou 44,7% de alfabetizados, ampliando o desafio para alfabetização na idade certa", ressaltou a pasta, em nota.
Conforme a Seduc, estudos realizados pelo Banco Mundial em colaboração com a secretaria, estimaram a perda equivalente a até 0,9 ano escolar nas escolas mais atingidas pela enchente na Região Metropolitana, o que corresponde a quase um ano de escolaridade perdida. Esses alunos representam cerca de 37% da rede estadual de educação, segundo a pasta.
Quando o estudante é considerado alfabetizado
O Inep, órgão vinculado ao MEC que conduz a pesquisa, considera alfabetizados os estudantes capazes de:
- Ler pequenos textos
- Compreender informações básicas e tirar conclusões, inclusive de materiais visuais, como tirinhas e histórias em quadrinhos
- Escrever textos simples, como convites ou bilhetes, mesmo com alguns erros ortográficos
Ações da Secretaria da Educação do RS para reverter o quadro
Em nota, a Seduc informou que vem executando ações para qualificar o processo de alfabetização das crianças:
"Desde 2023, o Estado desenvolve, em regime de colaboração com 100% dos municípios, o Programa Alfabetiza Tchê, com foco na alfabetização na idade certa.
Tal iniciativa colaborou para que o ICA de 2025 retomasse o patamar de evolução para 52%. As ações envolvem a formação de professores, gestores, avaliação de fluência leitora, diagnóstica e somativa, bem como material pedagógico complementar e apoio à aprendizagem, com investimento de R$ 32 milhões até o momento. A previsão de investimento para 2026 é de mais R$41 milhões.
O Estado também realiza o SAERS, que avalia a aprendizagem dos estudantes do 2º ano do Ensino Fundamental, e a Avaliação de Fluência Leitora, instrumentos que orientam as ações pedagógicas e o acompanhamento dos resultados.
Visando aprofundar a trajetória de evolução do ICA nas próximas edições, e a partir das evidências de aprendizagem consolidadas, serão propostas medidas integradas de diagnóstico, monitoramento e governança focadas na alfabetização dos estudantes da rede estadual, que representam 30% do total, e em colaboração com a rede municipal, que corresponde a 70% dos estudantes analisados."
FONTE:





