Sem bibliotecas e profissionais
Sem bibliotecas e seus profissionais, não há ciência
Por Leonardo Assis, pesquisador do Laboratório de Cultura, Informação e Sociedade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP
Publicado: 11/03/2026
Sempre que uma pesquisa científica se consolida como conhecimento coletivo, os méritos recaem, quase sempre, sobre o autor ou pesquisador responsável pela obra. Nada mais justo, afinal a concepção de uma ideia exige um protagonista. Ainda assim, por trás de cada descoberta existe um trabalho silencioso, frequentemente invisível, realizado por instituições e profissionais sem os quais a própria produção do conhecimento seria inviável. Entre eles estão as bibliotecas, os bibliotecários, os técnicos em biblioteconomia e os demais profissionais que atuam nessas instituições.
Em todas as áreas do saber, das ciências exatas às artes, bibliotecas e seus profissionais desempenham uma função essencial: preservar, organizar e tornar acessível o patrimônio informacional produzido pela humanidade. Não se trata apenas de guardar documentos, mas de estruturar caminhos para que o conhecimento circule, seja recuperado e continue a gerar novos conhecimentos.
É nesse ponto que seu papel se torna decisivo. Organizar acervos, selecionar fontes e, muitas vezes, elaborar estratégias de busca para pesquisadores interferem diretamente na qualidade e no alcance de uma investigação. O acesso, ou a ausência dele, a documentos, estudos preliminares e dados científicos pode determinar os rumos de uma pesquisa. Em grande medida, o avanço da ciência depende dessa infraestrutura informacional e do trabalho de profissionais que sustentam, muitas vezes de forma discreta, a produção do conhecimento.
Nas universidades, esse papel torna-se ainda mais evidente. Ao longo de décadas, bibliotecas universitárias e seus profissionais sustentam um fluxo contínuo de organização, preservação e difusão do conhecimento. No caso das universidades brasileiras, esse trabalho é realizado por profissionais de grande competência e sensibilidade, responsáveis tanto pela gestão do acúmulo do conhecimento quanto pela tarefa de tornar a produção científica acessível à sociedade.
Os desafios tornam-se ainda mais complexos no cenário contemporâneo. Documentos digitais, debates sobre direitos autorais, streaming de acervos, políticas de acesso aberto e, mais recentemente, o uso da inteligência artificial na produção científica têm reposicionado as bibliotecas e o campo dos estudos da informação em um cenário de constantes transformações. A biblioteca, como instituição, repensa continuamente seu papel. Se o espaço físico já não é a única forma de acesso ao conhecimento, surgem novos desafios relacionados à gestão, preservação e organização de acervos digitais. Ao mesmo tempo, bibliotecários, técnicos em biblioteconomia, analistas e outros profissionais atuam na linha de frente dessas mudanças, mediando o encontro entre tecnologia, informação e produção científica.
Nesse contexto, surgem novas perguntas: quais são, afinal, os principais desafios das bibliotecas e de seus profissionais na era digital e da inteligência artificial? Em grande medida, trata-se de uma mudança de eixo. Mais do que administrar acervos, as bibliotecas precisam fortalecer sua relação com os usuários, seja em atendimentos presenciais, seja nas novas modalidades de atendimento remoto. Em um momento em que produtos, fluxos e processos se tornam cada vez mais automatizados e digitais, ganha ainda mais importância aquilo que sempre esteve no centro de sua missão: a atenção às pessoas. Isso implica dominar novas tecnologias da produção científica, apoiar pesquisadores no uso de novas ferramentas, desenvolver competências informacionais e navegar em um oceano de transformações que se renova continuamente, porque a ciência se constrói a todo momento.
Celebremos, portanto, a existência das bibliotecas e de seus profissionais: bibliotecários, técnicos em biblioteconomia e tantos outros trabalhadores que sustentam o funcionamento dessas instituições. Se a ciência busca compreender, explicar e prever os fenômenos do mundo natural e social, esse objetivo passa necessariamente pelas bibliotecas e por aqueles que nelas trabalham.
Espero que chegue o dia em que celebraremos com a devida pompa a existência das bibliotecas e de seus profissionais, reconhecendo-os como essenciais para a sociedade. Na busca constante da ciência por compreender o mundo e melhorar as condições da vida humana, bibliotecas e seus profissionais permanecem no centro dessa roda viva do conhecimento.
Leonardo da Silva de Assis – Foto: Arquivo pessoal
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FONTE:
https://jornal.usp.br/artigos/sem-bibliotecas-e-seus-profissionais-nao-ha-ciencia/





