Sem laudos e inclusão

A escola está recebendo, a cada dia, mais alunos com laudos de neurodivergência. Isso é um avanço e também um desafio. Mas precisamos conversar seriamente sobre uma questão: E quantos professores passaram a vida inteira sem diagnóstico?
A sala dos professores ainda está cheia de adultos que cresceram ouvindo que eram “esquisitos”, “difíceis”, “desatentos”, “antissociais”, “desorganizados”, “lerdos”, “intensos demais” ou “frios demais”.
Pessoas que sobreviveram à infância sendo punidas por características que hoje talvez fossem compreendidas clinicamente.
Professores que esqueceram compromissos não por descaso, mas por sobrecarga cognitiva. Que evitam certos ambientes não por arrogância, mas por exaustão sensorial.
Que parecem “grossos” porque passaram décadas tentando mascarar desconfortos internos para sobreviver socialmente. Que são vistos como “difíceis de lidar” quando, na verdade, talvez estejam apenas cansados de fingir normalidade o tempo inteiro.
Enquanto a escola aprende a acolher crianças neurodivergentes, existe uma geração inteira de educadores que precisou aprender a sobreviver sem acolhimento nenhum.
E isso produz um efeito perverso:
muitos professores conseguem identificar sofrimento nos alunos, mas nunca aprenderam a reconhecer o próprio.
A inclusão escolar não pode parar no estudante. Porque há profissionais ensinando todos os dias enquanto carregam silenciosamente dores, inadequações e exaustões que ninguém investigou.
Nem toda pessoa difícil é neurodivergente. Mas a facilidade com que transformamos diferenças humanas em defeitos morais ainda diz muito sobre a violência emocional presente na cultura escolar.
FABIO FLORES
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