Ser ou não ser mulher

Eu nem vou me estender aqui sobre a discussão rasa sobre "ser ou não ser mulher é sobre ter ou não útero e tals" porque sinceramente, só pra começar mulher não é receita de bolo nem conta fechada, me poupem.Me economizem.
Eu quero falar é sobre outra coisa.
Ó, nos últimos anos, muita gente passou a acreditar que o crescimento do discurso anti-trans e anti-LGBT nas igrejas evangélicas era simplesmente por convicção religiosa...
Que era sobre "a vontade de Deus"...
Mas não. Não é sobre vontade de Deus nenhum, é bem coisa de homens mesmo.
Como sempre.
Quando a gente olha mais profundamente pra história e pra a política internacional, fica claro que não é tão simples assim. Existe uma estratégia organizada por setores conservadores internacionais que transformou o tema de gênero em uma ferramenta de mobilização política...
Essa estratégia tá centralizada nos Estados Unidos, onde think tanks conservadores, ou seja, organizações dedicadas a produzir ideias e estratégias políticas, passaram décadas estruturando o que eles próprios chamam de “guerra cultural”. Entre os mais influentes estão a Heritage Foundation, o Family Research Council e a Alliance Defending Freedom. Essas instituições produzem pesquisas ideológicas, financiam campanhas, treinam lideranças e articulam redes religiosas para mobilizar eleitores em torno de temas morais...
Tão vendo né, que de espiritual não tem nada mas sim que é sobre produzir gado, e não tô falando de pecuária?
Tão não?
Pois deixa eu prosseguir...
Durante muito tempo, os principais temas dessa mobilização de formação de repúdio coletivo foram só aborto, feminismo e casamento entre pessoas do mesmo sexo, porém, depois que o casamento igualitário foi reconhecido à custa de muita luta nos Estados Unidos em 2015, os estrategistas conservadores perceberam que precisavam de um novo foco de mobilização emocional. Foi então que as pessoas trans passaram a ocupar o centro dessa guerra cultural...
O motivo é simples do ponto de vista estratégico: pessoas trans representam uma parcela ainda invisibilizada da população e são bem pouco compreendidas por grande parte da sociedade. Isso facilita a criação de narrativas de medo e ódio. Assim surgem campanhas focadas em temas como pessoas trans como ameaças em banheiros, injustiça em esportes ou perigo às crianças, campanhas de desinformação e ódio que são usados para gerar pânico moral...
Esse tipo de estratégia é conhecido na ciência política como "moral panic": cria-se uma ameaça simbólica que mobiliza medo e indignação, o que fortalece bases eleitorais.
É nesse ponto que as igrejas entram como peças fundamentais da engrenagem. Nos Estados Unidos, e tendo esse modus operandi exportado cada vez mais e mais pro Brasil, (começou há décadas) igrejas funcionam não apenas como instituições religiosas, mas também como redes de mobilização política. Elas possuem capilaridade social, comunicação direta com milhões de pessoas e capacidade de organizar campanhas eleitorais e culturais.
É o veículo perfeito de propagação de tudo quanto não presta.
Um exemplo claro disso é a disseminação da expressão “ideologia de gênero”. Muita gente acredita que esse termo surgiu dentro das universidades ou nos movimentos feministas, mas não foi. A expressão foi formulada nos anos 1990 dentro do próprio Vaticano, durante a reação conservadora da Igreja Católica às conferências internacionais da ONU sobre direitos das mulheres. O objetivo era criar um rótulo político para desacreditar estudos acadêmicos sobre gênero e sexualidade...
Com o tempo, esse conceito foi adotado e amplificado por redes evangélicas e por organizações conservadoras internacionais.
Um dos espaços centrais dessa articulação é o World Congress of Families, uma conferência global que reúne políticos, líderes religiosos e ativistas conservadores de vários países para coordenar estratégias contra direitos reprodutivos e direitos LGBT.
Essas redes não atuam apenas nos Estados Unidos. Elas investem fortemente na exportação da guerra cultural para outros países, especialmente na América Latina. O Brasil se tornou um dos principais alvos dessa estratégia por três motivos: o crescimento acelerado das igrejas evangélicas, a forte presença religiosa na política e o grande alcance das redes sociais na disseminação de narrativas morais...
Entendam: pessoas trans/travestis NÃO REPRESENTAM PERIGO NENHUM À SOCIEDADE - mas ideólogos desses think tanks conservadores criaram esse pânico moral em torno delas pra provocar medo, ódio, repúdio na população, principalmente a população religiosa cristã, que por viver num contexto de altíssima ideologização nas igrejas, acabam sendo presas muito fáceis pros planos políticos da extrema-direita, que é quem compõe essas organizações conservadoras, presas usadas como capital eleitoral.
Ou seja, ao invés de informar a população sobre pautas de fato relevantes, urgentes, pra classe trabalhadora, por exemplo, as assombram com ameaças ridículas, enganosas, inexistentes, usando uma parcela inocente desta população como bode expiatório.
Outro personagem central nessa internacionalização da guerra cultural é Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump. Bannon defende explicitamente a criação de uma aliança global entre movimentos nacionalistas, conservadores e religiosos para combater o que ele chama de “globalismo liberal”...
Outra falácia tá?
Dentro dessa estratégia, a pauta de gênero se tornou uma ferramenta de mobilização política extremamente eficiente.
Durante o governo do ped*filo Trump, essa agenda saiu do campo retórico e virou política pública. O governo tentou restringir a presença de pessoas trans no exército, atacou políticas de saúde voltadas para essa população e incentivou estados a aprovarem leis que limitassem direitos civis de pessoas trans. Mais do que simples políticas administrativas, essas medidas serviam para sinalizar à base conservadora que o governo estava travando uma batalha cultural.
Essa mobilização tem uma lógica eleitoral muito clara. Temas ligados a gênero, sexualidade e infância provocam reações emocionais muito fortes nas pessoas. Quando estrategistas políticos conseguem associar essas emoções a uma narrativa de ameaça cultural, eles conseguem mobilizar eleitores de forma muito mais intensa do que com debates tradicionais sobre economia ou políticas públicas.
(E o fato do presidentão moralistão ser um ped*filo enfiado num mega esquema de tráfico e abuso sexual de crianças e adolescentes será que tá provocando reações emocionais fortes?)
Tudo isso pra não agirem em busca de soluções pros problemas reais das pessoas, problemas estruturais, envolvendo trabalho duro em prol da dignidade humana, no que diz respeito a custo de vida, saúde, educação, moradia, segurança, aposentadorias, criação de postos de trabalho , melhores salários...
Enfim, pautas sérias, reais, que simplesmente são ofuscadas, praticamente desaparecem do clamor público quando a sociedade tá ocupada com pânico moral cristão.
Se eles se ocupam nisso, de fato, como os milionários, bilionários, trilhardários, entre os quais esses caras se encaixam, vão lucrar ainda mais?
Pensemos nisso!
Por isso a pauta anti-trans ganhou tanta força em determinados setores religiosos e políticos. Ela funciona como um símbolo dentro de uma disputa maior sobre valores culturais e poder político. E quando uma pessoa trans conquista visibilidade e poder institucional, como acontece com a deputada Erika Hilton, essa presença desafia diretamente a narrativa construída pela guerra cultural. Isso explica por que figuras públicas trans se tornam alvos constantes de ataques.
No fundo, a ofensiva política contra pessoas trans não é sobre identidade de gênero. Ela faz parte de uma estratégia mais ampla de mobilização conservadora global, que busca fortalecer alianças entre religião cristã, nacionalismo cristão e política fascista.
Quando a gente entende essa engrenagem completa, think tanks, redes religiosas, campanhas internacionais e estratégias eleitorais fica bem claro que o debate sobre gênero não está acontecendo no campo da moral ou da religião. Está profundamente inserido em uma disputa política global sobre quem controla a narrativa cultural e o poder dentro das sociedades.
Eu repito o de sempre: bora acordar meu povo, bora acordar!
Essa galera tem nos feito de idiotas e nós deixando...
E nós deixando...
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Gi Stadnicki
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Obs: Esse tema não se limita a essa análise. Essa só é uma faceta bem pouco abordada que eu considero muito importante: a das guerras culturais que são aprofundadas e amplificadas, à partir do ambiente religioso cristão, principalmente de orientação evangélica, mas não somente.
FONTE:





