Sobre quem vota diferente

Sobre quem vota diferente

 

Vi esse comentário e resolvi falar sobre ele, porque ele mostra como uma discussão sobre fé, comportamento e política pode virar julgamento espiritual sobre quem vota diferente.

“a propositora do post escreveu "A fé cristã se revela no comportamento, na forma de tratar as pessoas e na responsabilidade com as palavras, não no voto." Concordo com o que foi dito, mas preciso advertir da omissão (creio proposital) desta afirmação. A Bíblia condena não apenas quem comete um pecado, mas quem aprova ou consente com aqueles que o cometem (Rm 1: 32. Veja também Atos 8: 1; 22: 20). Omissão também é um pecado (Tg 4: 17). A situação do PT, hoje em dia, não é mais duvidosa (é um bom ou mau partido), mas está clara sua situação. Aprovar ou consentir nisso (pelo voto, opinião, defesa ou omissão) é sim fazer-se, segundo a Bíblia, cúmplice de seus erros. A fé cristã se revela também na defesa dos princípios expostos na Bíblia e nunca na omissão quanto a isso. A forma de tratar pessoas, na verdade, nem é muito uma maneira de revelar um verdadeiro cristão, porque essa forma se apresenta conforme os parâmetros bíblicos. E, pode ser que eu precise condenar ou reprovar uma atitude de alguém para me manter cristão. O voto, assim como várias outras formas de expressar a maneira pela qual eu pratico minha fé, é sim uma maneira de afirmar minha fé.”

Agora vamos falar sobre isso.

Quando alguém escolhe votar em um candidato ou em um partido, essa pessoa não está assinando embaixo de tudo que aquele grupo já fez, faz ou ainda pode fazer. Ninguém em sã consciência vota para apoiar erro, corrupção, injustiça, mentira, abuso ou qualquer coisa errada.

A pessoa vota pelo que acredita ser melhor naquele momento. Pode votar por uma proposta social, pela economia, por programas públicos, por rejeição ao outro candidato, por medo de retrocesso, por esperança de melhora ou porque, diante de opções imperfeitas, escolheu aquilo que julgou menos ruim.

Isso não torna ninguém cúmplice automático de todos os erros de um partido.

Também é preciso ter cuidado quando se pega versículos bíblicos para transformar uma escolha política em condenação espiritual. A Bíblia não pode ser usada como atalho para carimbar a fé dos outros. Uma coisa é reprovar erro, corrupção, injustiça e mentira. Outra coisa é dizer que toda pessoa que votou em determinado partido aprovou tudo que esse partido já fez.

Se esse raciocínio for aplicado de verdade, ninguém poderia votar em ninguém. Nenhum partido é puro. Nenhum governo é santo. Nenhum candidato tem uma história sem contradições. Todo campo político tem erros, alianças questionáveis, promessas quebradas, escândalos, omissões e decisões que podem ser criticadas.

Se votar em alguém significa ser cúmplice de tudo que esse grupo fez ou faz, então esse julgamento precisa valer para todos os lados. Não dá para usar esse peso só contra o eleitor do partido que a pessoa rejeita e aliviar quando o erro está no lado que ela defende.

A própria Bíblia também pede cuidado antes de julgar a intenção do outro.

Jesus disse em Mateus 7:1: “Não julgueis, para que não sejais julgados.” Em João 7:24, Ele também ensina: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.” Ou seja, não dá para olhar para o voto de uma pessoa e concluir que ela aprova tudo de errado que um partido fez.

Em 1 Samuel 16:7, a Bíblia diz que o homem vê o exterior, mas Deus vê o coração. Então como alguém pode olhar para uma escolha política e decidir que conhece a intenção, a fé e a consciência do outro?

Romanos 14:4 também traz uma pergunta forte: “Quem és tu, que julgas o servo alheio?” Cada pessoa vai responder diante de Deus pela própria consciência. Isso não impede crítica política, não impede cobrança e não impede reprovação do erro. Mas impede alguém de tomar o lugar de Deus para decidir quem é ou não cristão de verdade por causa de voto.

Tiago 4:12 também diz que há um só legislador e juiz. Quando alguém usa a Bíblia para condenar espiritualmente quem vota diferente, passa muito perto de ocupar um lugar que não pertence a nenhum de nós.

A fé cristã pode influenciar escolhas políticas, sim. Cada pessoa tem o direito de votar conforme sua consciência, seus valores e sua leitura da realidade. O problema começa quando alguém usa a própria interpretação bíblica para acusar o outro de cúmplice do mal, omisso diante do pecado ou menos cristão por votar diferente.

Discordar de um partido é legítimo. Criticar governo é legítimo. Questionar escolhas políticas é legítimo. Mas usar a Bíblia para transformar discordância política em condenação espiritual é algo muito sério.

E sobre comportamento, ele revela muito, sim.

A forma de tratar as pessoas revela caráter. A responsabilidade com as palavras revela caráter. O cuidado para não acusar injustamente revela caráter. A maneira como alguém corrige, discorda e confronta também revela muito sobre a fé que diz carregar.

O cristão pode reprovar o que considera errado. Mas reprovar erro não é a mesma coisa que condenar a fé do outro. Corrigir não é humilhar. Discordar não é tratar como inimigo. Defender princípios não é se colocar no lugar de Deus para decidir quem pertence ou não a Ele.

O voto pode expressar uma parte da consciência de alguém, mas não resume a alma inteira de uma pessoa. Ninguém deveria usar Deus para decidir quem é cristão de verdade só porque o outro não vota igual.

Kelly Maria Ferreira

FONTE:

https://www.facebook.com/raquel.ferreira.824546?locale=pt_BR 




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