Solidariedade à professora Conceição
Educação RS: Solidariedade à professora Conceição, contra os ataques etaristas e a precarização na educação
A educação no Rio Grande do Sul pede socorro. 28% da categoria está afastada, principalmente por problema de saúde. A realidade das escolas no RS estão muito distantes do que aparece nas propagandas do governo Leite. Casos de agressões, ofensas e situações vexatórias contra professores se proliferam não só no RS, mas, em todo o Brasil, resultado das contínuas políticas de cortes na educação e contra-reformas federais e estaduais que retiram direitos dos servidores. No entanto, um exemplo em uma das maiores escolas do estado do RS aponta um caminho democrático e de auto organização contra a precarização e em solidariedade a uma professora que sofreu ataques e ameaças nas redes sociais.
Diego Nunes - sábado 23 de agosto

Maria Conceição, professora de mais de 70 anos, há mais de 30 anos lecionando sob um regime de contrato temporário, sem direitos, vinha sofrendo com situações vexatórias de cunho etarista em um sétimo ano. Essa situação culminou em xingamentos absurdos e ameaças em um grupo privado nas redes sociais. Na quarta-feira, ela tomou conhecimento deste grupo por meio de outros alunos e entrou em colapso nervoso no seu ambiente de trabalho. Seu filho foi buscá-la. A direção chamou imediatamente os alunos, seus responsáveis e também a polícia por meio da Divisão Especial da Criança e do Adolescente (DECA) para registrar o ocorrido. Os comentários na internet eram extremamente perversos e chegaram a ameaçar incendiar a professora e a escola. A polícia alegou que não havia flagrante e então não poderia conduzir ninguém até a delegacia. Alguns pais de alunos debocharam da direção da escola.
A violência nas escolas vem aumentando exponencialmente nos últimos anos e é parte de um crescimento dos discursos de ódio e preconceito que crescem na internet. A violência contra professores está inserida nessa crescente de desrespeito contra toda a educação pública, a cultura e o pensamento crítico, que setores da extrema direita propagam. A desvalorização da educação e a precarização do trabalho docente é também uma das causas do aumento da violência nas escolas de todo o Brasil. O que aconteceu com a professora Conceição não é um fato isolado, é um fato carregado de contexto. Faz parte do mesmo espectro que levou uma professora a ser esfaqueada em Caxias do Sul e, mais recentemente, uma professora ser agredida no Morro da Cruz em Porto Alegre. Precisamos nos levantar contra a violência nas escolas com nossa luta coletiva pela educação pública.
O Estado é responsável. Os cortes na educação que ocorrem em todo o país, a retirada de direitos como o fim do plano de carreira dos professores aqui no RS, a evasão escolar crescente, as turmas superlotadas para não contratar mais professores, a falta de concursos públicos e a divisão da categoria por meio de salários e direitos diferentes no mesmo ambiente de trabalho, sem contar escolas com o teto caindo ou problemas estruturais que colocam todos em risco. Tudo isso faz parte de uma precarização que traz a violência para dentro das escolas. Diante dessa situação, surgem propostas de criminalização, como se tudo fosse simplesmente um “caso de polícia”, mas a situação é bem mais complicada e sabemos como a polícia costuma responder tudo com ainda mais violência. A precarização da educação tem o objetivo de militarizar e privatizar nossas escolas, a fim de aumentar o controle e a exploração sobre a nossa classe.
O problema é complexo e não tem solução fácil. O nosso trabalho é lutar pela educação pública de qualidade, contra a precarização do ensino por meio do Novo Ensino Médio e chamar o apoio de toda a comunidade. O governo de Eduardo Leite tenta nos dividir de diversas formas, mas nós sabemos o potencial do nosso coletivo. Tudo pode ser respaldado por decisões democráticas em assembleias que reúnam toda a comunidade escolar. É de suma importância que, como educadores, nos comuniquemos com a sociedade, e nos manifestemos, coletivamente. O Ildo Meneghetti é possivelmente a maior escola do estado em número de alunos, conta com aproximadamente 2 mil alunos, conta também com professores e funcionários de alta qualidade, sejam concursados, contratados ou terceirizados. Assembleias de base que expressem para toda a sociedade o que ocorre na educação pública e que encaminhe decisões coletivas pode servir de exemplo para todas as escolas do RS. Quem sabe assim não podemos virar esse jogo de precarização da educação e fazer cair a máscara da propaganda enganosa que os governos vendem?
Somos todos Conceição! O absurdo que ocorreu com a prof. Conceição poderia ter ocorrido com qualquer um dentro da escola. Então, os professores se reuniram por turno na quinta-feira e votaram a suspensão das aulas na sexta, para que a escola toda pudesse realizar uma reunião e decidir democraticamente o que fazer diante do ocorrido. Pois, não podíamos simplesmente seguir como se nada tivesse acontecido. A suspensão das aulas foi uma decisão unânime dos professores e funcionários.
Na sexta-feira, reunidos, a situação foi exposta para todos. Todos puderam se expressar e o encaminhamento foi pedagógico. O conjunto dos professores, monitores e funcionários decidiram que na segunda-feira, e em toda a semana que vem, a aula não vai ser normal. Os professores se dividiram em equipes para preparar uma apresentação em slides sobre etarismo, abrindo para todos o que ocorreu com a prof. Conceição. Os alunos deverão produzir cartazes sobre o assunto, em solidariedade à professora atacada e contra a precarização da educação. Depois retornarão para o saguão para uma foto segurando os cartazes que devem ser fixados na parede. A semana seguirá com o tema gerador violência na escola, respeito, cultura da paz e combate aos preconceitos. Cada professor irá organizar como esses assuntos poderão ser abordados nas suas disciplinas. Essa mobilização mostra um caminho importantíssimo de defesa não apenas da Conceição, mas de todos os educadores, dos nossos jovens e da escola pública em geral. É através da nossa auto-organização e mobilização que vamos dar respostas efetivas a toda essa situação.
Como encaminhamento também foi proposto que os pais e responsáveis dos sétimos anos sejam chamados para uma reunião na escola, após as 18h, em dia a ser definido. Momento em que a direção e os professores devem expor a gravidade do ocorrido e o que outros professores vêm sofrendo nessas turmas. Após, os responsáveis dos alunos do sexto ano também serão chamados. Outro encaminhamento foi organizar uma grande assembleia com toda a comunidade escolar.
Uma assembleia com toda a comunidade escolar pode ser um evento extraordinário em que os professores poderão explicar as dificuldades que vem enfrentando na realização do seu trabalho, devido aos cortes na educação, ao Novo Ensino Médio, cortes nos seus direitos, na questão do número exagerado de alunos por sala, entre outros, e, como tudo isso está ligado com a dívida pública e também com o Arcabouço Fiscal do governo Lula-Alckmin (que corta bilhões da educação); os pais e responsáveis poderão compartilhar suas preocupações e angústias e os alunos também além de encaminhar suas demandas. Ao fim, poder-se-á encaminhar propostas de atividades que envolvam toda a comunidade escolar neste espaço que é público, bem como meios de se manifestar contra os ataques à educação pública e em defesa de trabalho digno aos educadores. Sempre de forma independente dos governos ou instituições privadas como o Itaú-Unibanco que faz parceria com Eduardo Leite aqui no RS para abocanhar nossa educação pública. O conjunto dos professores e funcionários poderão votar também medidas de exigência de que a direção do CPERS saia da paralisia e construa uma grande campanha que mobilize o estado todo pela educação pública contra a precarização na educação e os projetos de privatização da educação de Eduardo Leite.
Meu nome é Diego Nunes, eu sou professor do Colégio Estadual Ildo Meneghetti, militante do Movimento Nossa Classe Educação e do Esquerda Diário, e colega e amigo pessoal da professora Conceição. Tudo isso com muito orgulho. Escrevo essa reflexão como um convite a todos a se solidarizar com a professora Maria Conceição em nome de uma educação pública de qualidade construída coletivamente desde baixo.
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