Sucesso nos índices e a realidade
Educação: entre o sucesso nos índices e a realidade da sala de aula
Entre metas e resultados, a rede estadual vive momento complexo com menos alunos e Ideb estagnado
por Nilson Carlos da Rosa
Foto: Bettina Gehm/Sul21
A rede pública estadual do Rio Grande do Sul enfrenta um paradoxo complexo. De um lado, a gestão da Secretaria da Educação (Seduc) adota o modelo gerencial e corporativo da ISO 9001, priorizando fluxos padronizados e tabelas de metas. Do outro, os dados do Censo Escolar revelam um cenário em mutação: entre 2019 e 2025, a rede estadual registrou um encolhimento de 20,2% nas matrículas, o que representa menos 169 mil estudantes em sala de aula. No Ensino Médio, o estado patina em um Ideb de 4,2, mantendo-se estagnado e sem atingir as metas esperadas para o desenvolvimento educacional.
Essa busca por números favoráveis expõe o engessamento causado pela aplicação mecânica da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Ao converter o currículo em planilhas de competências, o sistema reduz o papel do professor ao de um mero executor e afasta o conteúdo das necessidades dos estudantes. Soma-se a isso a precarização estrutural da carreira: dados sindicais apontam que apenas 48,21% do magistério estadual é composto por profissionais concursados, um reflexo direto do avanço dos contratos temporários que fragilizam a continuidade pedagógica.
Para romper esse ciclo burocrático, iniciativas como o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) e o fortalecimento da formação contínua surgem como alternativas essenciais. O Pibid oxigena as escolas ao levar universitários de licenciatura para criar metodologias inovadoras e conectadas com a comunidade gaúcha. Da mesma forma, a formação continuada de professores efetivos precisa ser resgatada como um direito de reflexão crítica, e não como um treinamento de competências empresariais.
A qualidade do ensino no Rio Grande do Sul não pode ser medida apenas por painéis estatísticos. Os índices servem como diagnóstico, mas o foco central da escola pública gaúcha deve permanecer no acolhimento, na permanência do estudante e na autonomia de quem ensina.
(*) Professor de Filosofia (SEDUC-RS), Doutor em Educação (UFRGS).
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