Todo professor sofreu bullying
Todo professor sofreu bullying na infância
Ensinar é a forma mais elegante de interromper a violência
Fabrício Carpinejar

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Todo professor sofreu bullying na infância, durante seu período escolar. Todo professor – digo sem medo de generalizar.
Esses profissionais teriam todos os motivos do mundo para nunca mais pisar numa sala de aula, para não reprisar o lugar de seus traumas e de injusta rejeição.
Mas por que retornam? Por que escolhem um ofício que é um reencontro com uma cicatriz?
Para salvar crianças parecidas com eles.
Vocação é necessidade. Vocação é ter sofrido antes e não querer que outros sofram como você.
O professor nasce quando sua criança interior decide que ninguém mais ficará sem defesa.
É um herói secreto de sua história. Um herói de suas próprias superações. Um herói particular de seu cotidiano.
Fui descobrindo que meus melhores tutores foram crianças zombadas, excluídas, subestimadas pela turma. Receberam adjetivações cruéis, suportaram brincadeiras de mau gosto.
Trazem em comum a sina da perseguição. Não eram os mais bonitos, os mais populares, os mais influentes, os mais esportivos. Conheceram a dor e a humildade para não se entregar à ilusão das aparências, sempre provisórias. Teimosos em seus princípios, evoluíram em silêncio enquanto os colegas gastavam o grito e a saliva debochando deles.
Fizeram exatamente o contrário das expectativas. Não optaram pelo caminho fácil da fuga e da negação. Enfrentaram o pó dos fantasmas da lousa, agora empunhando o giz para determinar o destino das palavras.
É o que considero uma coragem terapêutica: não se apequenar pelas vivências problemáticas, emergir das dificuldades e das ruínas, localizar autoestima onde havia adversidade.
Os professores converteram cada uma das ofensas em virtude dentro da escola de suas vidas
Regressaram para não deixar para trás nenhuma lágrima, nenhuma ponta solta, para oferecer um propósito às suas versões infantis de CDF, de quatro-olhos, de bolacha Maria, de aeroporto de moscas, de tábua de passar, de cabeça de lâmpada, de nariz de tucano, de orelha de abano, de pescoço de girafa, de magrelo, de varapau, de espantalho, de baleia, de rolha de poço, de botijão, de boca de sapo, de dente de coelho.
Recuperaram o nome, pois só tinham um apelido. Toda lista de chamada é um pedido de desculpas ao passado: aqui, ninguém mais será reduzido a uma característica física.
Voltaram pela reparação, pela generosidade, pela missão de unificar o tempo fatiado pelo sinal do recreio.
Voltaram para derrubar preconceitos, produzir sentido aos sonhos acidentados pela aceitação.
Ressurgiram com a alma dos livros e com a sinceridade da esferográfica. Jamais para se vingar, mas para proteger e acolher. Jamais para inverter humilhações, mas para interrompê-las.
Não esqueceram o que aconteceu, aprenderam a ensinar a partir disso, já que ensinar é a forma mais elegante de não continuar a violência.
No seu dia a dia, não corrigem somente provas e deveres com a tinta vermelha, estendem a revisão ao caráter com a tinta azul de suas experiências.
Os professores são os meus modelos. Notáveis anônimos, doutores de si mesmos. Não levaram desaforo para casa, converteram cada uma das ofensas em virtude dentro da escola de suas vidas.
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