Trabalho docente alienado
O trabalho docente alienado na sociedade do espetáculo
Para o capitalismo é fundamental que o trabalhador não se reconheça na sua própria criação. No caso do professor, isso se reflete da seguinte maneira: o conhecimento que adquiriu com montanhas de livros, congressos, dissertações e teses não deve estar no produto final. O capitalismo não quer um cidadão crítico
De acordo com o professor Eugênio Bucci, o capitalismo superindustrial foi capaz de promover o “esvaziamento do significado em favor do significante”.[1] Esse movimento representa o domínio da imagem sobre o conteúdo. Mais do que a utilidade do produto, “as imagens, os signos e os discursos” passaram a ter valor de troca em si.[2]
Estamos imersos na sociedade do espetáculo, na qual as relações sociais entre as pessoas são mediadas pela imagem. Desse modo, “todas as indústrias e todos os mercados convergem para um centro único: a imagem”.[3]
Como o desejo da administração neoliberal é transformar a escola em uma empresa,[4] logo o principal produto produzido pela instituição escolar será também a imagem. O objeto físico que a escola produzia, o cidadão, não é mais necessário para o funcionamento do capital (se é que um dia foi, já que a cidadania parece ser apenas um estorvo que o capital era obrigado a conviver). O objetivo, na configuração atual do capitalismo, é formar consumidores em meio a um processo de descidadanização, no qual as “operações algorítmicas substituem os sujeitos”.[5] Mas com a ascensão das big techs, esses consumidores também se tornam produtores de imagens, signos e discursos que alimentam algoritmos que vão devolver imagens em forma de publicidade e entretenimento.
Contudo, se o capital exige que tudo se transforme em imagem, como a escola irá sobreviver? Como a escola deve produzir imagens?
Primeiramente, a realidade da sala de aula, do processo ensino-aprendizagem, não é capaz de produzir as imagens que tanto cativam essa sociedade do espetáculo. Como dizem meus alunos: “estudar é chato”. E é verdade. Em muitos casos é tedioso. Lembro de quantas xícaras de café tive que beber para ler determinados textos. Foram fundamentais, mas reconheço que muitos eram enfadonhos.
Além disso, aprender com critério, de forma reflexiva, é demorado. O instantâneo não é um dos ingredientes da dialética entre o conteúdo aprendido e o cotidiano, o “mundo da vida”, como diria Habermas. Necessita de tempo. É, inclusive, contraproducente à lógica do mercado, como destaca o sociólogo Christian Laval: “Supervalorizando o que é visível e quantificável, o modelo do mercado vai de encontro à lógica educacional, que, como sabem os pedagogos desde a época de Rousseau, exige tempo”.[6]
Portanto, como algo enfadonho irá atrair os olhares? Como, em meio à produção e consumo em massa de imagens, um indivíduo disperso terá sua atenção capturada pelo que é tedioso?
O problema será resolvido alterando a função da escola. Já que a intenção não é formar cidadãos ativos, a comunidade escolar é convocada a promover uma alteração do cotidiano escolar, construindo uma realidade muito mais apta a se espetacularizar.
Prefeitos e secretários de educação postam inaugurações, eventos, competições, viagens para a Disney, para a Nasa… Fotos de projetos são tiradas, vídeos anunciando que a escola fornecerá milk shake ou hambúrguer são postados nas redes sociais da prefeitura. A escola precisa estar nos trends da semana. Precisa fabricar imagens que circulam nas redes para fomentar a carreira política dos gestores. Não há problemas pedagógicos, mas de gestão de imagens.
Os diretores pressionam os professores a fazerem parte de projetos. Um projeto diferente para cada data comemorativa. A meta é a produção em massa. Quando estamos digerindo as informações de um evento, outro já se avizinha, mobilizando toda a escola. Os gestores escolares correm para tirar fotos dos professores que realizam qualquer atividade em sala de aula que não seja um jovem com um caderno na mão ou lendo um livro. A escola deve se enquadrar aos padrões das mídias sociais, antagônicos aos dos pedagogos desde a época de Rousseau. Jesus Martin-Barbero constata que “o modelo humanista de educação, baseado na leitura de livros, ficou defasado no que se refere aos medos, às angústias e aos sonhos que hoje temos”.[7] O que podemos complementar com o argumento de Byun Chul Han, que admite que “as mídias eletrônicas de massa destroem o discurso racional marcado pela cultura livresca. Produzem uma midiocracia”.[8]
O professor não deve ser visto como alguém que detém o conhecimento, e sim como um organizador de eventos. Os alunos – treinados pela sociedade do espetáculo – adoram, pois fazem qualquer coisa para não ter que se submeter à chatice que é estudar. Desse modo, o velho problema de fazer com que o educando goste de estudar foi resolvido.
Isso cria uma nova alienação do trabalho docente. Para Karl Marx, “o produto do trabalho é o trabalho que se fixou num objeto, que se transformou em coisa física, é a objetivação do trabalho”.[9] O cidadão crítico seria o fruto do trabalho do professor. É parte da sua dedicação. Horas de estudo e formação são voltadas para a socialização do conhecimento científico produzido na academia. Esse conhecimento servirá de instrumento para interpretar as mensagens que o cidadão formado receberá diariamente. É através da crítica que esse indivíduo irá digerir essas mensagens, selecionando-as e se apropriando das mesmas para participar da esfera pública, contribuindo para a sua dinâmica rumo a uma sociedade mais justa, humana e igualitária.
No entanto, para o capitalista “o trabalho é exterior ao trabalhador, ou seja, não pertence à sua característica”.[10] E o que isso significa? Para Marx, diferente do animal, o trabalho do ser humano não consiste apenas na sua sobrevivência. “O animal identifica-se prontamente com a sua atividade vital. Não se diferencia dela. É a sua própria atividade. Mas o homem faz da atividade vital o objeto da vontade e da consciência”. Genericamente, o ser humano é livre e consciente para produzir o que imagina. Trata-se de uma atividade vital lúcida. “A atividade vital lúcida diferencia o homem da atividade vital dos animais. Só por esse motivo é que ele é um ser genérico. Ou então, só é um ser lúcido, ou melhor, a sua vida é para ele um objeto, porque é um ser genérico. Exclusivamente por esse motivo é que a sua atividade surge como atividade livre. O trabalho alienado inverte a relação, uma vez que o homem, enquanto ser lúcido, transforma a sua atividade vital, o seu ser, em simples meio de existência”.[11] Isto é, o trabalho livre e consciente é o que caracteriza o ser humano. O trabalho não é um simples meio de sobrevivência para o ser humano, mas a sua realização enquanto humano.
O animal produz apenas para si, “ao passo que o homem reproduz toda a natureza”. O trabalho do ser humano não é apenas para ele, mas para toda a natureza. Assim como o trabalho do professor de formar cidadãos não é para si, mas para toda a sociedade.
Enquanto o produto do trabalho do animal pertence imediatamente ao seu corpo físico, “o elemento do trabalho é a objetivação da vida genérica do homem: ao não se reproduzir somente intelectualmente, como na consciência, mas ativamente, ele se duplica de modo real e percebe a sua própria imagem num mundo por ele criado”.[12]
No entanto, para o capitalismo é fundamental que o trabalhador não se reconheça na sua própria criação. O objeto que produz deve ser estranho a ele, para que não opine, não se apegue e faça apenas o que o patrão exige. Exatamente como uma máquina. No caso do professor, isso se reflete da seguinte maneira: o conhecimento que adquiriu com montanhas de livros, congressos, dissertações e teses não deve estar no produto final. O capitalismo não quer um cidadão crítico. O conhecimento necessário para formar um indivíduo que exercerá a cidadania plena não deve ser incorporado nos alunos. Ou seja, o sistema capitalista não quer que parte do saber do professor esteja na sua criação.
Isso irá desembocar no aumento dos problemas de saúde mental, na fadiga e nos casos de burnout envolvendo os professores. Porque, tal como os outros trabalhadores, “ele não se afirma no trabalho, mas nega-se a si mesmo, não se sente bem, mas, infeliz, não desenvolve livremente as energias físicas e mentais, mas esgota-se fisicamente e arruína o espírito. Por conseguinte, o trabalhador só se sente em si fora do trabalho, enquanto no trabalho se sente fora de si. Assim, o seu trabalho não é voluntário, mas imposto, é trabalho forçado. Não constitui a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer outras necessidades”.[13]
O professor perde o interesse pelo seu trabalho. Não se reconhece no objeto que produz, pois não coloca nesse objeto o que cultivou e o que acredita ser fundamental para a cidadania. É esse o objetivo do capital ao alienar o trabalho do professor.
Mas o objeto continua a carregar parte do docente, não daquilo que este se preparou para transmitir, mas daquilo que foi forçado a se tornar: um promotor de eventos, um animador de palco. Ele continua colocando parte de sua vida, seu tempo, seu esforço físico e mental no objeto, mas esses elementos que vieram das suas entranhas não mais o pertencerão. Porque o seu produto não é mais o cidadão (algo que seria de usufruto social), mas imagens (de usufruto privado). Imagens que não são para satisfazer os seus desejos, mas para sustentar e fortalecer a situação de outro. De um sistema que não quer mais formar cidadãos, de um Estado que adotou o mesmo mecanismo do mercado: a imagem como centro de tudo.
“Finalmente”, explica Marx, “a exterioridade do trabalho para o trabalhador transparece no fato de que ele não é o seu trabalho, mas o de outro, no fato de que não lhe pertence, de que no trabalho ele não pertence a si mesmo, mas a outro”.[14] Por isso que há uma “conexão fundamental entre todo este sistema de alienação […] e o sistema do dinheiro”.[15] No trabalho alienado, o fim não é o produto do trabalho, mas o dinheiro, o meio para preservar a existência do trabalhador.
Essas imagens serão postadas nas redes dos secretários e prefeitos, incrementando o seu capital político. Tal capital político irá sustentar a mesma lógica que causa sofrimento no professor pelo fato de não se reconhecer no seu próprio trabalho. E, assim, “o trabalho produz coisas boas para os ricos, mas produz a escassez para o trabalhador. Produz palácios, mas choupanas para o trabalhador. Substitui o trabalho por máquinas, mas encaminha uma parte dos trabalhadores para um trabalho cruel e transforma os outros em máquinas. Produz inteligência, mas também produz estupidez e a cretinice para os trabalhadores”.[16]
Desse modo, o docente é criador de um objeto hostil a ele mesmo, isto é, ao seu projeto original de emancipação dos oprimidos. E está fadado a ter “a atividade como sofrimento (passividade), a força como impotência, a criação como emasculação, a própria energia física e mental […], a sua vida pessoal, como uma atividade dirigida contra ele, independente dele, que não lhe pertence”.
Nessa lógica, o professor não precisa aprimorar suas capacidades intelectuais, já que não é mais necessário passar o conhecimento científico. Sua formação vai ficando cada vez mais enxuta e seu salário cada vez mais baixo. “O trabalhador [professor] torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador [professor] torna-se uma mercadoria tanto mais barata, quanto maior número de bens [imagens] produz”.[17]
E assim está constituída a nova forma de alienação do trabalho docente. Os professores se tornaram máquinas de produção de imagens em massa. A ideia de que é possível transformar o mundo através da educação ficou para trás e a escola se dobrou à ditadura do significante. O conteúdo pedagógico, emancipatório, indispensável para a formação de um cidadão crítico, cedeu lugar ao que pode ser transformado em imagens espetaculares que servirão de capital político para os gestores e administradores escolares.
É inevitável uma crise da educação humanista em um mundo em que tudo precisa se tornar mercadoria. A escola é usada como publicidade através de maquiagens e projetos que não possuem finalidade pedagógica, “cujos efeitos reais no mundo importam apenas na medida em que se registrem bem no nível das aparências”.[18]
Esse mecanismo tem dado certo, pelo menos no Rio de Janeiro, onde o secretário de educação vem angariando capital político ao exibir, por meio de um eficiente pessoal de relações públicas, as escolas maquiadas cheia de atividades.
O professor foi forçado a fabricar uma outra coisa para não se reconhecer no objeto do seu trabalho. Trabalha apenas em troca de dinheiro, isto é, para a sua subsistência, como um animal. Ele é desumanizado. E, se antes os professores, mesmo que de forma precária, conseguiam pôr em prática o projeto freiriano de emancipação do oprimido, hoje isso se torna praticamente impossível, já que os elementos que têm o direito de se transformar em imagem são de caráter simplório, adequado aos padrões da indústria do entretenimento.
Vale lembrar que o que é postado nas redes sociais está sendo vigiado e avaliado pelos superiores. Logo a imagem rebelde seria cancelada. Isso porque “o regime de informação revela traços totalitários”, como disse Byun Chul Han. Contudo, inspirando-me em Roland Barthes, possui “traços totalitários”, não porque proíbe a imagem rebelde, mas porque obriga a dizer o que se adequa aos interesses dominantes. Há espaço para a produção de imagens pedagógicas subversivas? Há espaço para desafiar o educando a analisar o mundo criticamente?
Raphael Silva Fagundes é doutor em História Política pela Uerj e professor das redes municipais do Rio de Janeiro e de Itaguaí.
[1] BUCCI, E. A Superindústria do Imaginário. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 148.
[2] Id., p. 22.
[3] Id., p. 333.
[4] LAVAL, C. A escola não é uma empresa. São Paulo: Boitempo, 2019.
[5] CANCLINI, N. Cidadãos substituídos por algoritmos. São Paulo: Edusp, 2021, p. 149.
[6] LAVAL, C. A escola não é uma empresa. São Paulo: Boitempo, 2019, p. 187.
[7] MARTIN-BARBERO, J. A comunicação na educação. São Paulo: Contexto, 2023, p. 13
[8] HAN, B-C. Infocracia. Petrópolis: Vozes, 2022, p. 27.
[9] MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. Tradução Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2004, p. 111-112.
[10] Id., p. 114.
[11] Id., p. 115.
[12] Id , p. 117.
[13] Id., p. 114.
[14] Id.
[15] Id., p. 111.
[16] Id., p. 113.
[17] Id., p. 111.
[18] FISHER, M. Realismo capitalista. São Paulo: Autonomia Literária, 2020, p. 76.
FONTE:





