Turma dos bons costumes

A TURMA DOS BONS COSTUMES, DA FAMÍLIA E DOS PATRIOTAS… E DOS R$ 45 MILHÕES
Quando o discurso é moral, mas a planilha é criativa
O Tribunal de Contas de Santa Catarina determinou a anulação de uma compra de 294 mil kits de uniformes escolares estimada em R$ 45 milhões pela Secretaria de Estado da Educação. A Corte apontou risco de prejuízo de até R$ 21 milhões e classificou o procedimento como “planejamento reverso”. O episódio levanta questionamentos sobre gestão, prioridade e responsabilidade política no governo Jorginho Mello.
Tem gente que adora subir no palanque para falar de bons costumes, família e patriotismo.
Mas quando o assunto é contrato público, a coisa vira desfile de criatividade contábil.
Desta vez, o enredo envolve o governo de Santa Catarina, comandado por Jorginho Mello, e uma compra nada modesta:
294 mil kits de uniformes escolares, estimados em R$ 45 milhões.
E não, isso não é teoria conspiratória de rede social.
É decisão do Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina.
O TCE mandou cancelar. Simples assim.
O Tribunal determinou a anulação definitiva do processo de compra, que já estava suspenso desde abril de 2025 por indícios de irregularidades.
Segundo o próprio TCE, a continuidade poderia gerar um prejuízo de até R$ 21 milhões aos cofres públicos.
R$ 21 milhões.
Não é erro de digitação.
É o equivalente a dezenas de reformas escolares, valorização de profissionais, estrutura decente em unidades que vivem de goteira e improviso.
“Planejamento reverso”: primeiro escolhe, depois inventa a justificativa
O relatório aponta que a Secretaria de Estado da Educação, comandada por Luciane Ceretta, tentou aderir a uma ata de registro de preços do Estado de Goiás.
Até aí, poderia ser algo comum. O problema?
O TCE afirmou que não houve comprovação de vantagem econômica para Santa Catarina.
E classificou a manobra como “planejamento reverso”.
Traduzindo do juridiquês para o português claro:
primeiro você aponta o fornecedor, depois tenta encaixar a justificativa técnica.
Isso não é gestão eficiente.
É inverter o procedimento básico de contratação pública previsto na Lei de Licitações (Lei 14.133/2021).
Lei: https://www.planalto.gov.br/.../_ato2.../2021/lei/L14133.htm
Pesquisa de preços? Baseada em municípios pequenos.
Outro ponto levantado pelo Tribunal:
a pesquisa de preços utilizou como base compras feitas por municípios de pequeno porte.
Santa Catarina é referência nacional no setor têxtil — basta olhar polos como Blumenau, Brusque, Jaraguá do Sul.
E mesmo assim os valores apresentados não refletiam essa realidade.
Curioso, né?
Estado industrializado, forte na cadeia têxtil, mas o parâmetro de preço vem e menos competitivo.
Isso não é detalhe técnico.
É critério que define milhões.
Educação improvisada não é patriotismo
Enquanto isso:
- Professores seguem cobrando valorização.
- Escolas enfrentam problemas estruturais.
- Recursos são sempre “insuficientes”.
Mas quando aparece contrato milionário, parece que a criatividade floresce.
A responsabilidade política é do governador.
A responsabilidade administrativa é da Secretaria.
Não existe governo abstrato. Existe assinatura, decisão e comando.
Moral no discurso, gestão sob suspeita
É curioso como parte da classe política adora usar a bandeira da moralidade como slogan.
Mas moralidade administrativa não se mede por discurso.
Se mede por processo licitatório transparente, pesquisa de preço robusta e justificativa técnica consistente.
Quem disse isso? A Constituição Federal, art. 37 — princípio da moralidade e eficiência.
Texto constitucional:
https://www.planalto.gov.br/.../constitu.../constituicao.htm
A pergunta que fica
Se o Tribunal fala em potencial prejuízo de até R$ 21 milhões, estamos falando de erro técnico?
Ou de algo mais grave?
Quem defende tanto “família e bons costumes” deveria começar defendendo o básico:
dinheiro público não é laboratório de improviso.
Educação pública não é palco para atalhos.
E patriotismo não se prova com discurso.
Se prova respeitando o contribuinte.
Porque uniforme escolar pode até ter tamanho único.
Mas responsabilidade pública não é peça sob medida.
Se você quer debate sério, é
isso.
Sem grito.
Sem torcida.
Com documento, número e fonte.






