Um professor jovem para 6 de 60 anos
RS tem um professor jovem para cada seis com 60 anos ou mais
Movimentos de educadores defendem políticas articuladas e urgentes para enfrentar o risco de apagão docente

Foto: Igor Sperotto
Pesquisa realizada pelo Instituto Semesp demonstra que o número de professores do ensino médio com até 24 anos no Rio Grande do Sul caiu 42,6%, passando de 638 para 366 profissionais. Já o número de docentes com 60 anos ou mais aumentou 73,3%: de 1,2 mil para 2,2 mil. Em 2025, havia um professor jovem para cada 6,1 docentes com 60 anos ou mais.
O Instituto Semesp criou uma taxa que mede a capacidade de reposição dos profissionais, a Taxa de Renovação Docente. Ela relaciona o número de professores com até 24 anos ao grupo com 60 anos ou mais. Quanto menor a taxa, maior a dificuldade de renovação do quadro.
No RS, a Taxa de Renovação Docente está em 0,16. A Taxa nacional é 0,32. Especialistas classificam o cenário de risco de apagão da educação básica: repor profissionais no quadro docente do RS – e do país – está cada vez mais difícil.
Quadro nacional
O estudo projeta que o Brasil terá queda da Taxa de Renovação Docente para 0,17 já em 2040. No país, entre 2015 e 2025, o número de professores com até 24 anos no ensino médio caiu 31,1%, enquanto o contingente com 60 anos ou mais aumentou 104,5%.
O problema não estão concentrado em determinadas disciplinas. Segundo o estudo, nenhuma das disciplinas avaliadas apresenta Taxa de Renovação Docente igual ou superior a 1, patamar que representaria pelo menos um professor jovem para cada docente com 60 anos ou mais.
Apresentam situação mais crítica áreas da Geografia (Taxa de Renovação Docente em 0,216), História (0,234), Língua Portuguesa (0,240), Sociologia (0,263), Filosofia (0,274) e Artes (0,278).
Os dados da segunda edição da pesquisa Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil atualiza o alerta apresentado pelo Instituto Semesp em 2022. À época, a projeção nacional era chegar a 2040 com déficit de aproximadamente 235 mil professores na educação básica. Quatro anos depois, a pesquisa aponta que o problema estrutural não foi superado.
O que está acontecendo
A desvalorização salarial é um dos principais fatores pelo desinteresse de jovens na profissão. A remuneração média de professores é menor em comparação a outros cargos com ensino superior.
“A sobrecarga de trabalho, como excesso de alunos por turma e planejamento fora do horário de trabalho, também assusta os jovens e tem levado muitos professores à quadros de estresse e síndrome de burnout, gerando abandono precoce da profissão e envelhecimento da categoria”, destaca Sani Cardon, que é diretor do Sindicato dos Professores do Ensino Privado (Sinpro/RS). O Sindicato faz esse alerta há mais de uma década.
“Muitas instituições, principalmente privadas, demitiam os professores mais antigos, porque era mais caro do que ter professores novos. Na pública, os professores não estão conseguindo se aposentar porque não tem quem os substitua. Só que vai chegar um determinado momento que eles vão se aposentar e não vai ter quem dê conta do recado”, analisa Cardon, sobre o risco de apagão docente no estado.
Falta de estudantes nas licenciaturas
Cardon observa que, em instituições comunitárias de educação superior, por exemplo, muitas licenciaturas tiveram seus cursos fechados. Professor de cursos de licenciatura, ele destaca ainda a baixa procura de jovens por cursos de formação de professores.
Apenas 2,4% dos alunos de 15 anos tinham interesse na profissão de professor em 2018, segundo dados do relatório Políticas Eficientes para Professores, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em 2008, eram 7,5%. Os motivos: baixo reconhecimento social e salários.
“Em uma só palavra, eu diria: desvalorização. E a desvalorização não envolve só salário. Envolve salário, falta de formação continuada, de infraestrutura, de reconhecimento”, contextualiza. “Então são vários aspectos. Nós temos essa dificuldade de os adolescentes, que estão para escolher sua profissão, não conseguirem enxergar a licenciatura como algo válido”.
A formação em Pedagogia, História, Biologia e Letras conta com incentivo de programas federais, como o Programa Institucional de Fomento e Indução da Inovação da Formação Inicial e Continuada de Professores com Ênfase na Educação Integral (Prilei), que arca com matrículas e mensalidades. Programa estadual, o Professor do Amanhã arca com mensalidades e bolsas permanência, por exemplo.
Para especialistas, este é o maior desafio: atrair mais jovens para a profissão. Movimentos de educadores defendem políticas articuladas e urgentes para enfrentar o risco de apagão docente. Valorização salarial com reajuste real e recuperação da carreira, melhorias de condições de trabalho, prevenção de adoecimento psicológico, fortalecimento da formação inicial e continuada, e planejamento permanente para repor os profissionais são algumas delas.
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