Veto ao celular em universidades

Veto ao celular em universidades

“Proibição absoluta não faz sentido”: especialista questiona veto ao celular em universidades

Restrições adotadas em instituições do Sudeste têm gerado discussão, na esteira de regras já estabelecidas nas escolas

Sofia Lungui

Neimar De Cesero / Agencia RBS
Veto já é realidade na Educação Básica.Neimar De Cesero / Agencia RBS

 

 

Após o veto do uso de celular nas escolas, é a vez da volta às aulas no Ensino Superior ser diferente em algumas instituições. Faculdades no Sudeste vêm adotando a proibição dos smartphones em sala de aula, seguindo a tendência da Educação Básica.

Instituições como Insper e ESPM começaram a implementar restrições ao uso dos aparelhos, bem como notebooks e tablets durante as aulas. A medida vale para cursos de graduação, sem abranger a pós-graduação, com diferentes regras em cada local. As decisões foram divulgadas no início do ano e têm como objetivo promover melhorias na aprendizagem

Conforme o Sindicato do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinepe), no Estado, ainda não há previsão de implementação de medida semelhante, mas cada instituição de ensino tem autonomia para definir estas regras. O importante, segundo o presidente da entidade, Oswaldo Dalpiaz, é que haja intencionalidade pedagógica

— Se a universidade ou faculdade avaliar que o celular está atrapalhando a possibilidade de o professor desenvolver a intencionalidade pedagógica, ela tem toda a autonomia para, através de um protocolo ou legislação interna, proibir o celular. Mas isso é de competência da própria universidade — explica.

O que não pode ser feito, de acordo com Dalpiaz, é utilizar como respaldo para isso a lei nº 15.100/2025, que diz respeito à Educação Básica, sem considerar necessidade específicas do Ensino Superior. Ele destaca que, até o momento, não há lei estadual no RS nem federal que proíba o uso do celular nas salas de cursos superiores.

Segundo o diretor do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro), Sani Cardon, há queixas dos docentes a respeito da falta de concentração dos estudantes em instituições privadas. No entanto, ele defende que é preciso promover um amplo debate para se chegar a uma legislação voltada a essa etapa de ensino, contemplando as necessidades dos professores:

— A restrição talvez seja o caminho. Quando se faz a proibição, como é que serão utilizadas novas tecnologias? Hoje em dia, nós também não podemos ser contra o uso de telas. Então, talvez a restrição seria um termo melhor do que proibição, porque a proibição se dá quando tem lei.

Semesp, entidade que representa mantenedoras de Ensino Superior do Brasil, vai na mesma linha. A entidade informou, em nota, que a decisão de restringir o uso do celular “resulta da análise de fatores próprios de cada instituição, em consonância com seu projeto pedagógico e seus objetivos educacionais”.

Equilíbrio nas regras

As instituições argumentam que as proibições buscam reverter os efeitos do uso frequente de smartphones na atenção dos alunos, garantindo melhor desempenho nas aulas. Na ESPM, por exemplo, caso não mantenham o celular guardado durante a aula, os estudantes podem receber advertência.

Quando liberado, o uso deve se restringir a atividades acadêmicas. Para o professor da Universidade de Columbia (EUA) Paulo Blikstein, que pesquisa sobre educação, as restrições podem ser positivas, mas é preciso lembrar que as tecnologias podem favorecer a aprendizagem, e muito: 

— Não faz sentido impor uma proibição absoluta. A proibição deve ser acompanhada por esses usos pedagógicos positivos da tecnologia. Muitas instituições param na proibição, mas isso não funciona. É preciso prever momentos para utilizar a tecnologia e dar subsídios para os professores criarem atividades interessantes com uso da tecnologia.

Ele ressalta que vetar o uso dos aparelhos digitais não é uma solução milagrosa. É um passo importante, mas é só o começo – o importante é formar indivíduos que tenham uma relação saudável com a tecnologia, e isso passa pela educação. 

— Faz parte da missão da escola e também da universidade ensinar os jovens a viver de forma saudável no mundo da tecnologia. Não podemos colocar o aluno numa bolha. Aquele aluno vai para o mundo trabalhar, e a tecnologia está em todo lugar — explica o pesquisador do Transformative Learning Technologies Lab (TLTL).

É preciso garantir que os estudantes prestem atenção e, ao mesmo tempo, aproveitem o potencial da tecnologia nas aulas, como ferramentas de inteligência artificial (IA), aplicativos que servem para simulações e experimentos, entre outros usos benéficos para a aprendizagem. Conforme o especialista, garantir equilíbrio nas regras e formação para os professores ajuda nesse processo. 

FONTE:

https://gauchazh.clicrbs.com.br/educacao/ensino-superior/noticia/2026/02/nao-faz-sentido-impor-uma-proibicao-absoluta-diz-especialista-sobre-uso-de-celular-em-salas-de-aula-de-universidades-cmlfjczfd008t014y2hk98e19.html 




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