Violência Escolar em 10 pontos

[Imagem produzida por IA)
1 – Antes de qualquer coisa, devemos prestar nossa mais profunda solidariedade à comunidade da Escola Ruy Ramos. Neste momento, o apoio aos estudantes, professores, funcionários e famílias deve estar acima de qualquer análise ou debate que possamos fazer sobre o ocorrido. Até por isso evitei de dizer ou de escrever qualquer coisa no dia de ontem, limitando-me a me solidarizar com as vítimas desta triste violência;
2 – Não escrevo sobre este caso em particular, que deve ser tratado pela escola, pela família do jovem envolvido, pela polícia, pelo Ministério Público e pela Justiça. São essas instituições que possuem acesso aos fatos, às evidências e às circunstâncias concretas do caso e que saberão tomar as providências cabíveis. Não discutirei o que não conheço em detalhes.
3 – Escrevo, isto sim, uma reflexão geral sobre fenômenos dessa natureza, procurando me contrapor a alguns argumentos que tenho ouvido pelas ruas e pelas filas dos estabelecimentos, bem como nas redes sociais. O principal deles é a ideia de que se trata de um problema simples e de fácil solução. Frases como “tem que matar”, “tem que armar as professoras” ou “tem que colocar polícia armada dentro da escola” não ajudam nem na compreensão nem na solução da questão.
4 –Quando casos como esses deixam de ser episódios isolados e passam a constituir um sintoma recorrente do nosso mundo social, torna-se necessário investigar suas causas mais profundas, os padrões que se repetem, a estrutura que os matém. Sem reduzir a complexidade do problema, é possível esquematizar, entre outros fatores, sete grandes elementos que aparecem com frequência nesses episódios:
I. O agravamento dos problemas de saúde mental da juventude, especialmente no período pós-pandemia, aliado à insuficiência de profissionais especializados nas escolas capazes de realizar um tratamento individual e coletivo de prevenção;
II. O bullying e o cyberbullying, já bastante conhecido de todos;
III. O isolamento social da juventude, a fragilidade dos vínculos familiares e a ausência de relações saudáveis com colegas, amigos e educadores;
IV. A influência de grupos online marcados pela cultura do ódio, da violência e do extremismo, frequentemente associados a discursos misóginos, homofóbicos, racistas e autoritários. Embora cada caso possua suas particularidades, diversos estudos realizados no Brasil e no exterior apontam padrões recorrentes entre os autores desses ataques: predominância de jovens do sexo masculino, geralmente estudantes ou ex-estudantes da própria escola, que passaram por processos de isolamento social e que encontraram nesses ambientes virtuais espaços de acolhimento para ressentimentos, discursos de vingança e ideologias extremistas, de extrema-direita, de cunho nazifascista. Com frequência, esses grupos promovem a glorificação de massacres anteriores, a desumanização de determinados grupos sociais e a naturalização da violência como forma de afirmação pessoal ou política.
V. A busca por visibilidade, reconhecimento e notoriedade, ainda que pela via da violência, o que importa é o espetáculo. Por que atacar logo a escola? Seria o ódio à consciência crítica, à sociabilidade, à ciência, ao conhecimento, ao convívio democrático da pluralidade, o local da exigência do respeito para com todos independente de sua etnia, gênero, orientação sexual, posicionamento político, etc.?
VI. O fácil acesso doméstico a armas brancas e armas de fogo e todo o discurso social de exaltação do armamento da população;
VII. A ausência de perspectivas, de sentido para a vida, de projetos coletivos, de ideais, de esperança e de horizontes capazes de mobilizar a juventude para a construção do futuro. O mundo dessacralizado do capitalismo gerou um grau de alienação tal que a vida foi, toda ela mercantilizada, incluindo as próprias pessoas, reduzidas a uma mão de obra desprovida de qualquer significado qualitativo. Viver é competir, trabalhar, acumular, comprar e cuidar apenas e tão somente da própria vida. Não há quem aguente tamanho reducionismo antropológico,
5 – Culpar a escola é transformar a vítima em vilã. A escola não está fora da sociedade; ela é parte dela. Tudo o que ocorre no mundo também se manifesta em seus corredores, salas de aula e pátios. A violência produzida pelo capitalismo aparece sob outras formas de violência no cenário da escola, que não necessariamente é o seu lócus produtor.
A sociedade precisa abandonar a ideia de que a escola é a solução para todos os problemas sociais. Ela não é, e nunca será. Não se pode exigir que a escola resolva sozinha problemas produzidos por todas as demais dimensões da vida social. A escola pode muito, mas não pode tudo. Ela também sofre os efeitos de uma sociedade que produz violência e exclusão.
6 – A escola não pode tudo, mas pode fazer muito. Pode construir um ambiente acolhedor e pacífico; combater permanentemente o bullying e o cyberbullying; construir protocolos de segurança; constituir-se em território livre de racismo, homofobia, misoginia, capacitismo, gordofobia e todas as formas de discriminação; garantir a liberdade de expressão e o respeito às diferenças; promover a convivência democrática entre pessoas que pensam de maneira distinta; oferecer acolhimento por meio de profissionais qualificados; capacitar sua comunidade para agir em situações de risco; desenvolver educação digital voltada ao combate ao discurso de ódio e às fake news; criar espaços permanentes de reflexão e prevenção; fortalecer os vínculos com as famílias; estabelecer canais seguros de denúncia; e envolver a juventude em atividades que ampliem as experiências de convivência, como esportes, danças, bandas, teatro, viagens, festas e projetos culturais; trabalhar em parcerias com grupos e instituições de apoio (sobretudo Conselho Tutelar);
Tudo isso, entretanto, exige investimento público consistente. Não se constrói uma cultura de paz apenas com discursos.
7 – Essa tarefa, porém, não cabe apenas à escola. É fundamental que a família caminhe junto. Conversar com os filhos, problematizar o uso da internet, acompanhar suas relações online, acolher, orientar e educar continuam sendo responsabilidades insubstituíveis. Diante de fatos como o que vivemos em Rosário do Sul, existe uma tendência imediata de culpabilizar os pais, acusando-os de não terem imposto limites, de ter faltado chineladas nos traseiros juvenis, de não terem educado corretamente seus filhos. Essa simplificação é tão equivocada quanto culpar a escola. Assim como a escola, muitas famílias também são vítimas de forças sociais, econômicas, digitais e culturais muito maiores do que elas próprias. Os pais frequentemente se veem diante de um universo digital capaz de influenciar seus filhos de maneiras que sequer conseguem compreender plenamente. Culpar exclusivamente a família ou a escola equivale a absolver um modo de vida e uma organização social que vêm produzindo esse fenômeno em diversas partes do Brasil e do mundo.
8 – A arma do professor e do funcionário da escola deve ser a atenção aos estudantes, a escuta, a proximidade, a capacidade de perceber gestos, silêncios, expressões e mudanças de comportamento. Não são armas de fogo que produzirão um ambiente de paz.
À polícia cabe atuar de forma preventiva e investigativa, especialmente nos espaços digitais onde muitas dessas ameaças são gestadas, além de agir quando for acionada diante de situações concretas.
À mídia cabe promover debates qualificados, ouvir especialistas e evitar o sensacionalismo.
Aos governos cabe investir pesadamente na infraestrutura das escolas, na formação dos profissionais e na contratação de equipes multidisciplinares. É inadmissível que tantas escolas ainda não contem com psicólogos e assistentes sociais.
À sociedade cabe discutir seriamente a regulamentação das plataformas digitais e a responsabilização das empresas que lucram com a disseminação de conteúdos nocivos e, acima de tudo, convencer os políticos deste necessidade;
Às redes de ensino cabe estabelecer protocolos claros e objetivos para situações de risco, permitindo que gestores não dependam apenas de suas percepções individuais para tomar decisões em momentos críticos.
Poderíamos ampliar essa lista indefinidamente. Conselho Tutelar, Ministério Público, universidades, associações comunitárias, igrejas, clubes, escolas de samba, meios de comunicação, organizações da sociedade civil: todos têm alguma contribuição a oferecer.
9 – É fundamental que não apenas as escolas, mas toda a sociedade conheça a cartilha lançada pelo Governo Federal em 2023: Escola Segura – Como lidar com conteúdos de violência online e conversar com crianças e jovens sobre o tema. Basta pesquisar o título na internet para encontrar um documento de excelente qualidade, elaborado por especialistas, que orienta sobre a identificação de conteúdos violentos, os sinais de alerta, as formas adequadas de diálogo com crianças e adolescentes, os procedimentos recomendados para famílias e escolas e as responsabilidades compartilhadas da sociedade. Trata-se de uma leitura indispensável para elevar o nível do debate público sobre o tema.
10 – A escola certamente possui seus protocolos para a retomada gradual das atividades após situações traumáticas. Talvez nós, como sociedade, também precisemos construir os nossos protocolos para discutir esse assunto com a seriedade, a responsabilidade e a profundidade que ele exige.
Quem sabe as mídias locais, os representantes políticos ou as próprias redes de ensino possam liderar esse debate. O que não podemos fazer é permitir que um problema tão complexo seja reduzido a slogans, respostas fáceis, receitas ultrapassadas ou soluções mágicas.
PARA CONCLUIR:
E não nos esqueçamos: o agressor também é produto e vítima do nosso contexto social, cultural, econômico e humano que contribuíram para a formação de sua trajetória. Isso não diminui sua responsabilidade pelos atos cometidos nem reduz a gravidade do sofrimento causado às vítimas, mas nos lembra que uma sociedade verdadeiramente comprometida com a prevenção da violência não pode abrir mão da educação, do acolhimento e da recuperação. Instrumentos jurídicos, pedagógicos, educacionais, institucionais e profissionais para isso não nos faltam. O desafio está em colocá-los efetivamente em funcionamento.
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